Editorial

Cruzamos o limite da decência. Eu não entendo que surto foi esse!

Entrevista

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Economia

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Política

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Repórter da Rede TV xingada por Bolsonaro largou a profissão sem ouvir um pio em solidariedade

Está no Diário do Centro do Mundo

Há 2 dias, depois de Luciano Huck ter declarado que Bolsonaro havia ultrapassado a fronteira da decência ao fazer insinuação de cunho sexual à jornalista Patrícia Campos Mello, ocorreu um movimento para lembrá-lo que esse limite tinha sido atropelado quando uma homenagem ao coronel Ustra foi proferida em pleno Congresso.

Bem, se ficarmos puxando o fio da meada eu diria que nossa decência foi estuprada quando a primeira caravela encostou.

A verdade é que Bolsonaro sempre foi “isso daí”, antes mesmo da homenagem ao torturador, sempre destratou jornalistas de forma brutal e ficamos assistindo passivamente. Ainda em 2017 chamou Miriam Leitão de porca e afirmou que ela iria lamber suas botas “como fez com todos que chegaram no poder”.

Em abril de 2014, durante entrevista sobre os 50 anos do golpe militar, Bolsonaro xingou a repórter Manuela Borges.

A jornalista, então na Rede TV, foi chamada de idiota, analfabeta e ignorante. O então deputado do baixo clero ainda perguntou, acreditem, se ela já tinha frequentado a biblioteca.

Primeiramente, Bolsonaro mencionar biblioteca já é de um cinismo avassalador. Em segundo lugar, um beócio como aquele xingar a repórter de analfabeta e ignorante (ela tem pós-graduação em Assessoria em Comunicação e mestrado em Ciência da Informação) já indicava o que deveríamos ter evitado com todas as forças.

Por que não ocorreu a mesma onda de revolta que vemos hoje sobre o caso envolvendo a jornalista da Folha de S.Paulo? Por que Luciano Huck ficou em silêncio? Por que parlamentares não tomaram medidas contra aquele zé-ninguém antes que ele ganhasse musculatura eleitoral?

Na ocasião, ali mesmo na entrevista, Manuela foi firme e afirmou que tomaria as medidas judiciais cabíveis contra aquela agressão. Bolsonaro foi irônico e disse que estava “cagando” para ela.

A jornalista até tinha intenção de processar o deputado, mas não teve nenhum apoio de seu empregador.

Ao contrário. A Rede TV deu ainda mais visibilidade benéfica a Bolsonaro. Hoje é primeira linha entre as emissoras alinhadas com o bolsonarismo e a que mais verba recebeu durante a fase de campanha da Previdência. Mais que o dobro: R$ 1,1 milhão enquanto as demais receberam abaixo de R$ 433 mil.

A emissora cedeu uma poltrona para Bolsonaro desfilar seus comentários machistas asquerosos no programa de Luciana Gimenez e nada fez em apoio a sua repórter Manuela Borges, tratada com insultos e covardia.

O episódio marcou a carreira de Manuela. Ela hoje não exerce mais o jornalismo.

O DCM entrou em contato com a jornalista. Ela recusou conceder entrevista, preferiu “não mexer no que está quieto”. Afirmou não saber se arrepende-se de não ter ido adiante com o processo.

É compreensível. Quem não tem medo de mexer com milicianos?

Exalando justificada mágoa com a omissão e indiferença de vários setores frente ao que lhe aconteceu, a jornalista lembra que a única entidade a emitir uma nota de repúdio foi o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal.

Não teve grupo de artistas fazendo videozinho nem sinalizando que a linha da civilidade havia sido rompida. Não tinha sido ou acreditaram que aquilo era algo desprezível?

Não se flerta com o fascismo sem ser capturado por ele.

Todo esse alvoroço hoje faz lembrar de algo salientado durante o movimento golpista de deposição de Dilma Rousseff: a misoginia. Dilma foi xingada de todos os palavrões que se pode imaginar e boa parte das mulheres jornalistas da grande mídia fez pouco caso.

Desdenhamos do ataque sofrido por Manuela Borges, dos ataques a mulheres, negros, quilombolas e indígenas. Demos de ombros para quando ele afirmou que filho gay deve ser “curado” na base da porrada.

Por isso envergonha a todos que repórteres continuem obrigados ouvir, da boca de esgoto, coisas como “Oh rapaz, pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai” (para jornalista de O Globo), ou “Você é escroto” (para Rubens Valente, da Folha) ou “Você tem uma cara de homossexual terrível” (também para O Globo) e por aí afora.

O jornalista é um funcionário acuado. Submete-se a essas humilhações preso em um cercadinho (e ao lado de uma claque de jagunços que, incentivada pelo ‘líder’, também dispara impropérios). Levanta da cama rezando para que a reação do dia do ‘mito’ seja outra também habitual: abandonar a entrevista quando a pergunta não lhe agrada.

Os donos das empresas de comunicação é que são os responsáveis pelo espetáculo tétrico.

Revoltante é ver os oportunistas de plantão, os mesmos que apoiaram o golpe e colaboraram para esse cenário, surgirem com cara de espanto dizendo-se ‘preocupados’ com o grau de escalada do autoritarismo.

A escalada começou faz 6 anos. Nós agora estamos na beira do abismo.


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