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Sobre um certo blog e seu titular

Por Stella Galvão

Sabe aquela imagem tradicional do jornalista como um sujeito comprometido com a ideia de expor alguma cota da verdade do que se passa nos gabinetes ou debaixo do manto diáfano das sessões legislativas e dos arranjos que se fazem todo o tempo nos gabinetes executivos? Idealista, adepto de valores que caducam velozmente e aparentemente pouco apto a ações vis como ataques sorrateiros ou joguinhos de palavras que sugerem o oposto do que se quer dizer? Que não abre a guarda para facilitações de toda espécie e segue fiel a alguns princípios em desuso?

Tenho a nítida sensação que o Carlos Barbosa que conheci nos bancos da faculdade de Jornalismo da UFRN, lá nos idos da década de 1980, só mudou nos quesitos facial e capilar. No primeiro, uns e outros repuxos que o tempo se encarrega de fazer e que denota que, sim, os anos se sucederam na marcha dos dias.  O outro é a cabeleira livre de calvície que não escapou da perda de coloração natural dos fios. Um rapaz grisalho, sempre sorridente mas também enfático, firme e cortante se necessário. Foi assim quando o convidei para uma conversa com meus alunos de Jornalismo na Universidade Potiguar.

Lá estava Barbosa a contar passagens marcantes por alguns veículos da capital, relatando sem laivos de heroísmo nem falsas bravatas, ocasiões em que questionou o modo de se fazer jornalismo em editorias políticas. Contaminadas, como permanecem, pelo leva e traz de grupos que se afagam e se digladiam, frequentemente em curto intervalo de tempo. De repente ele inflama-se e deixa escapar uma daquelas expressões que muitas décadas atrás fariam mocinhas corarem. Hoje, de tão banalizadas, equivalem ao ‘padre nosso’ das gerações marcadas pelas letras x, y, z. Barbosa certamente pertence à geração ‘e’, de experimentado couro curtido na faina diária de apurar e publicar. Ou melhor, postar.

Longe das redações quase tornadas obsoletas pela força e impacto das mídias sociais e do enorme contingente de informações que circula a um clique ou a um toque na tela, montou um blog que fez aniversário de quatro anos no último dia 13. Mau agouro? Não no caso desse apreciador de boa música que sempre a compartilha com seus leitores (parênteses para explicar que não uso a expressão internautas para leitores de portais, blogs etc. Ao acessarem os endereços eletrônicos, afinal, eles lêem).

Não é difícil arrancar desse blogueiro suas fontes de renda. Assim, o blog adquiriu fama de ser isento a ponto de virar fonte para os jornalistas. Isenção total Barbosa não tem a hipocrisia de assumir. Afinal, quem editorializa a informação, opinando sobre o que os leitores acessarão, nunca está totalmente isento de pender para um ou outro lado. A diferença fundamental no blogdobarbosa, comparado a dezenas de outros que têm proliferado nos últimos anos, é que não se vê vestígio de purpurina jogada desbragadamente sobre personagem A, B ou C da política local ou estadual.

Procurei deslindar o modus operandi do blog cujo bordão, ao final de notícias com próximo capítulo ou desdobramentos previsíveis, é ‘a conferir’. Diz Barbosa que se vale das fontes garimpadas em mais de duas décadas de jornalismo, mas que também se vale das mídias tradicionais, jornais e revistas, ‘cozinhando’ o que lê e realinhando para seu projeto editorial.

E quais as fontes midiáticas, precisamente? Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo e Correio Braziliense. Em matéria de centrais de produção de notícias, busca fontes oficiais até demais: Agência Brasil e a Agência Senado. Entre blogs de alcance nacional, acessa os dos jornalistas Josias de Souza, Luiz Nassif e Paulo Henrique Amorim. Barbosa jura de pés juntos que a média diária de visitantes alcança o número 500, chegando eventualmente a triplicar. Quando falou comigo, no primeiro semestre deste ano, considerava o blog um exercício de informação e cidadania, não de lucro. Agora já contabiliza ao menos dois anunciantes fixos. Longa vida ao blog!

*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19

Obs do blog: Sem delongas, até porque não sou chegado a isso, quero agradecer a amiga e colega Stella Galvão pelo texto acima. Acho que neste aniversário de quatro anos deste site, presente melhor não poderia existir. Um texto que me gratifica e ao mesmo tempo me faz dizer que tenho obrigação de continuar nesta linha editorial. Ogrigado de coração Stella por sua gentileza, digamos assim. Aliás, obrigado duplo: Pelo texto sobre o blog e por sua colaboração neste espaço.

2 Responses to Artigo

  1. Lécio Luiz Correia Andrade disse:

    Barbosa vou deixar meus comentários para amanhã,pelo adiantado da Hora estou começando a “ler” conflitos de “óticas”,de qualquer forma deixo meus comentários pra outra hora .

  2. Carlos A. Barbosa disse:

    Sinta-se a vontade!

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