Artigo

Famintos de óleo diesel e de história

Está no Jornal GGN

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A primeira coisa a fazer para tentar entender o que está ocorrendo é corrigir as distorções que nós mesmos criamos ao comparar o presente ao passado. Para fazer isso podemos recorrer à experiência dos historiadores:

“A procura de causas só tinha sentido no interior de uma concepção estreitamente factual da história, como era a antiga história política ou militar que operava sobre aquilo a que chamava factos precisos (começos ou fins de reinado, negociações diplomáticas ou tratados, cercos ou batalhas), espécies de átomos de realidade histórica isolados pelo pensamento que se podia impor comodamente em séries encadeadas de causas e efeitos, Tornamo-nos hoje extremamente sensíveis ao caráter artificial, construído, derivado, de facto histórico assim concebido. Em vez de o considerarmos a própria essência da realidade do passado, aprendemos a conhecer nele o resultado de um recorte, de uma selecção (legítima, se é consciente e racionalmente justificada) que, no tecido complexo e contínuo do passado destaca o fragmento que o historiador considera útil colocar sob a objetiva do seu aparelho de mira.” (Do conhecimento histórico, H.-I. Marrou, Martins Fontes, 4a. edição, 1975, p. 160)

“… se as revoluções dos povos fossem também inteiramente redutíveis a explicações gerais tal como os fenômenos físicos, não nos interessaríamos mais pela sua história: unicamente nos importariam as leis que regem o futuro humano; satisfeitos por saber por elas o que é o homem, deixaríamos de lado as anedotas históricas; ou então, só nos interessaríamos por elas por razões sentimentais, comparáveis àquelas que nos fazem cultivar, ao lado da Grande história, a da nossa aldeia ou das ruas da nossa cidade. Infelizmente, os acontecimentos históricos não são comprimíveis em generalidades; não se restringem senão parcialmente a tipos e a sua sucessão não é orientada para qualquer fim ou dirigida por leis nossas conhecidas; tudo é diferença e é preciso dizer tudo.” (Como se escreve a história, Paul Veyne, edições 70, Lisboa, 1987,  p. 76)

Essa greve dos caminhoneiros não pode ser considerada igual à que ocorreu no Chile em 1973 como sugerem alguns jornalistas https://exame.abril.com.br/mundo/no-chile-greve-de-caminhoes-durou-26-dias-e-derrubou-o-governo-2/. Ao contrário do que dizem outros https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2018/05/greves-dos-caminhoneiros-relembre-as-paralisacoes-de-1999-2000-e-2015-no-brasil-cjhm7pn7p0bcp01qobv80g44h.html o movimento não pode ser tratado como se fosse semelhante ao que ocorreu em 2015 .

Nós não somos chilenos, o governo Michel Temer não é de esquerda e o mundo não está mais polarizado entre capitalistas e comunistas como na década de 1970. O discurso anti-petista que foi diariamente vomitado pela imprensa escrita e televisada desde a derrota de Aécio Neves, fenômeno que eu chamei de Impeachment Midiático de Dilma Rousseff https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/jean-claude-carrierre-e-o-climax-do-impeachement-midiatico-de-dilma-rousseff, ajudou a criar o caldo de cultura que levou os caminhoneiros a parar para derrubar o governo em 2015. Em 2018 os caminhoneiros não se insurgem contra o PT e sim contra o resultado de suas próprias ações no passado.

O erro da esquerda foi acreditar que pleno emprego e inclusão social fossem suficientes para fazer o povo defender o governo contra o Impedimento. O erro da direita é outro: crer que pode abandonar a própria sorte os caminheiros que ajudaram a construir as condições políticas para o golpe de 2016. Desde que chegou ao comando da Petrobras, o gênio Pedro Parente aumentou a exportação de petróleo cru, reduziu o refino dele no Brasil e passou a importar diesel norte-americano. Isso explica não somente a elevação diária e abusiva dos preços do combustível como também a indignação dos caminhoneiros. Eles se sentem traídos pelo usurpador que ajudaram a colocar no poder.

A imprensa também é responsável pelo que está ocorrendo. Os jornalistas venderam a idéia de que era só derrubar Dilma Rousseff que a economia iria melhorar. Sob a batuta de Michel Temer a economia piorou. Com a retração econômica ocorreu uma previsível redução das viagens realizadas pelos caminhoneiros, bem como uma pressão para que eles reduzissem seus fretes. As margens de lucros deles despencaram ainda mais à medida que o preço do diesel começou a subir diariamente.

Em 2015 a elite bateu as panelas que não utilizava porque as panelas dos pobres estavam vazias https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/o-terror-das-panelas-cheias-e-silenciosas-na-periferia-por-fabio-de-oliveira-ribeiro. Em 2018 as panelas dos pobres estão vazias e as dos ricos serão esvaziadas porque os caminhoneiros estão famintos. Durante os governos petistas havia caos aéreo porque os pobres estavam viajando de avião. Agora que o combustível de aviação não chega aos aeroportos e as estradas estão trancadas eles não poderão viajar nem de carro. É impossível dizer o que irá ocorrer. Nós sabemos apenas o que ocorreu no passado.

Dilma Rousseff não usou o Exército para reprimir os caminhoneiros que ajudaram a fragilizar seu governo. Com o aval dos juízes, o frágil governo do usurpador Michel Temer já mandou o Exército desobstruir as estradas federais. Rebaixados à manobristas de caminhões, os oficiais militares fizeram de conta que irão obedecer seu comandante supremo. Suspeito que no fundo eles sabem que a missão do Exército não é maltratar grevistas para garantir as margens de lucro das refinarias norte-americanas. Além disso, qualquer pessoa mais ou menos informada é capaz de imaginar que uso de força letal irá apenas agravar um problema que não será solucionado enquanto o petróleo não voltar a ser refinado no Brasil para que o preço do diesel possa cair.

O que está em jogo não é apenas o governo Michel Temer. Ele é um fenômeno transitório, fadado a terminar após as eleições. A partida que está sendo jogada pelos caminhoneiros coloca em risco a lógica do neoliberalismo implantado no país com ajuda dos próprios caminhoneiros. E me parece que eles já perceberam que eles serão os perdedoras enquanto o petróleo cru for exportado e o diesel refinado importado dos EUA.

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