O Baú de um Repórter

O Baú de um Repórter

por Rubens Lemos Filho

A história da convocação de Nonato

Nonato parecia Mogli, o Menino Lobo de Walt Disney. Nonato, lateral-esquerdo do Baraúnas, de Mossoró, canelas delgadas e chutes charmosos, bom na marcação e nos cruzamentos. Nonato ganhou as páginas dos jornais brasileiros quando posou numa bicicleta Monareta com a mulher e a filhinha pequena, os três embarcados, rumo ao Estádio Nogueirão a caminho de um clássico contra o Potiguar.

O jogo atrevido de Nonato encantou o torcedor de Natal. Em 1988, o Baraúnas ganhou turno e com gol de Nonato, em cima do América, de falta, por cobertura, enganando o goleiro Eugênio. O América, disparado favorito, teve que ir a um triangular decisivo e conquistou o bicampeonato porque tinha as pernas de condão de Dedé de Dora em seu meio-campo e os gols de Silva no ataque.

O ABC era o mais fraco dos três e conseguiu ser bravo, lutou até o fim e por pouco não roubou o título do rival, oferecendo à frasqueira um time com Tiê de lateral-direito, Divino de quarto-zagueiro, Júlio de Edite de lateral-esquerdo, Dica de camisa 10 e Alencar de centroavante.

O vice-campeonato representou uma Champions League. O América vivia o auge da Era Jussier Santos, tricampeão dando aula em cartola metido a leitor de estratégia de guerra. Se leu, nunca aplicou em  favor do clube. Apanhava, apanhava e apanhava a cada clássico.

Nonato foi disputado quase a tapa por ABC e América e, numa zebra, terminou no ABC, catimba do diretor de futebol Leonardo Arruda. Nonato e o volante Alciney se destacaram no fraco time que disputou o equivalente à Série C regionalizada e foi eliminado pelo Campinense.

Nonato ficou para o Estadual de 1989, cabelos mais curtos, postura adequada ao modelo desenhado para o padrão executivo de boleiro e saiu para o Pouso Alegre das Minas Gerais(MG).

Ainda em 1989, empolgado com Nonato, meu pai trouxe um velho amigo, o dirigente do Cruzeiro Pedro Assunção, rico empresário e conselheiro para ver um jogo de Nonato. Papai contratou o cineasta Giovani Rodrigues para filmar jogadas de Nonato e a fita Pedro Assunção levou.

O certo  é que em 1990, Nonato estreava pelo Cruzeiro, no Campeonato Brasileiro, contra a Portuguesa de Desportos. Entrava, saia como melhor em campo e ficaria até 1996, na decisão do Mundial Interclubes perdida para o Borússia(Alemanha).

Tornou-se ídolo, nas férias vinha e reunia os amigos, mandava e desmandava na Toca da Raposa. Em 1991, Nonato é convocado pela primeira vez para a seleção brasileira. Por Carlos Alberto Parreira, que andava preocupado com as contusões e seguidas expulsões do lateral-esquerdo Branco, e tinha dúvidas se Leonardo, do São Paulo, se readaptaria à posição, dado que virava meia no tricolor, posição certa descoberta pelo mestre Telê Santana.

Cobríamos, eu pela Tribuna do Norte e o repórter Carlos Alberto Barbosa, o Barbosinha pelo Diário de Natal a Câmara Municipal de Natal. Sem TV transmitindo. Tempo de veteranos. Bernardo Gama, Clóvis Varela, Urubatan Maia, Lindalva Maia, Pio Marinheiro, Marcílio Carrilho, Fernando Mineiro, Aluízio Machado. Requerimentos, títulos de cidadania, alinhamento quase unânime à prefeitura.

O presidente era Edmílson Lima, muito tratável,  pouco criterioso no vestir. Gravatas espalhafatosas e blazer sem combinar com as distintas. Usava azul com verde florido, por exemplo.

Ficávamos, eu e Barbosinha, a matar o tempo, coçando o saco,  caçando notícia de verdade e imitando menino na praia, catando búzios e conchas expulsas pelo mar para transformá-los em brinquedos considerados inúteis pelos adultos.

Havia um funcionário apaixonado pelo ABC, sofrido naqueles tempos de sovas homéricas aplicadas pelo América comandado por Jussier Santos. Todo domingo, o torcedor alvinegro saía do estádio como que de uma missa de corpo presente, em lágrimas, Machadão feito imensa necrópole.

O tal funcionário contava, a mim e a Barbosinha, as façanhas de Nonato pelo Cruzeiro, sua válvula de escape das frustrações locais. Os gols, os títulos mineiros, as jogadas e, consagração total, a convocação. Nonato só jogaria com a camisa amarela em 1993, perto da Copa, num torneio contra Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra. Jogou mal.

Em 1991, sua convocação parou a Câmara. O servidor parecia estar de camisa amarela da Umbro, fornecedor oficial da época,  chuteiras e barriga saliente circulando entre as cadeiras da assistência, desenvolto igual a Nonato no apoio. Ríamos, eu e Barbosinha, da imitação de chanchada. Um dia, o assistente de plenário caprichou.

Saiu até a bancada da imprensa(quase sempre vazia). Paletó bege, camisa amarela, gravata cor de vinho, bom gosto de um Amado Batista, ajeitou uma bola imaginária, apontou para a cadeira da presidência no plenário.  Uns 100 metros de distância.

Mãos na cintura, armou uma barreira invisível, correu e bateu com três dedos, de trivela. O sapato escapuliu. “Foi ali, bem ali, quase na cadeira do presidente, que Nonato acertou uma falta contra o Atlético Mineiro! Golaço! Merecia demais ser convocado. Vai ser titular!”.

Enquanto uma ambulância quase é chamada para nos salvar de um ataque de risos, eu Barbosinha observamos o grotesco. O presidente Edmilson Lima, abaixado, quase emparelhado à sua cadeira: “Tive medo que o chute dele me acertasse”, sacaneou depois da sessão.

Devia a história a Barbosinha há 22 anos. A história da convocação de Nonato, hoje funcionário do Cruzeiro, do qual terminou eleito um dos melhores jogadores da história. Para deleite ensandecido  de seu fã lá da Câmara Municipal.

 foto: Divulgação

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