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A chegada da água é a chegada da justiça social

por Fátima Bezerra, no Brasil 247

Ainda hoje, quando vejo a água correr pelos canais da transposição do Rio São Francisco, a primeira imagem que me vem à memória não é a de uma grande obra de engenharia. É a da menina que fui.

A menina de Nova Palmeira, no Seridó paraibano, que aprendeu cedo que a seca não era apenas um fenômeno da natureza. A seca tinha rosto. Tinha nome. Tinha o silêncio de um açude vazio. Tinha o olhar aflito de um pai e de uma mãe tentando descobrir como fariam a água durar até o dia seguinte. Tinha o pote cuidadosamente guardado dentro de casa, porque cada gota era preciosa. Tinha o medo da fome. Tinha o medo de perder a lavoura, os animais e, muitas vezes, a própria esperança.

Eu sou uma sobrevivente da seca.

Nunca imaginei que aquela menina criada no semiárido teria a honra de governar o Rio Grande do Norte justamente quando as águas do Velho Chico chegassem ao nosso estado. Há momentos em que a história encontra a vida de cada um de nós. Este é um deles.

Ver as águas atravessarem o Túnel Major Sales e entrarem no Rio Grande do Norte pelo Ramal do Apodi significa muito mais do que acompanhar a entrega de uma grande obra de engenharia. Significa realizar um sonho que, durante décadas, pareceu impossível. Significa reparar uma injustiça histórica.

Durante muito tempo disseram que o Nordeste precisava aprender a conviver com a seca. E aprendemos. Aprendemos a resistir. Aprendemos a repartir o pouco que havia. Aprendemos a transformar solidariedade em sobrevivência.

Mas nunca aceitei que a sede e a fome fossem um destino.

Talvez seja justamente por isso que este momento tenha um significado tão profundo para mim.

A seca é um fenômeno da natureza. O que jamais poderia ser tratado como natural era condenar milhões de nordestinos à fome, à sede, à pobreza e à miséria, como se tudo isso fosse consequência inevitável do clima.

Durante décadas, essa lógica foi sustentada por uma visão coronelista e excludente que transformou a seca em instrumento de dominação política. Em vez de garantir direitos, administrava-se a escassez. Em vez de enfrentar o problema, naturalizava-se o sofrimento. Nosso povo era submetido à humilhação das frentes de emergência, à dependência e à negação de direitos fundamentais.

O maior desafio nunca foi apenas enfrentar a seca enquanto fenômeno climático. Foi enfrentar as desigualdades sociais que ela agravava. A história provou que havia outro caminho: o das decisões políticas, do investimento público, da ciência, da engenharia e da presença do Estado.

Foi essa compreensão que levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a dar o passo mais ousado da história da segurança hídrica do Nordeste. Foi preciso coragem política para tirar do papel o Projeto de Integração do Rio São Francisco. Coragem para enfrentar resistências, disputas judiciais, campanhas de desinformação e interesses que insistiam em dizer que aquela obra jamais seria concluída.

Mas Lula conhecia o Nordeste não pelos mapas.

Conhecia porque carregava essa história dentro de si.

Assim como eu, pertence à geração de nordestinos que conheceu a seca de perto. Um menino de Caetés que viu sua família deixar sua terra porque faltavam água, trabalho e oportunidades. Talvez por isso tenha compreendido, como poucos, que levar água ao semiárido nunca significou apenas construir canais, túneis e barragens. Significava fazer justiça. Significava reconhecer o direito de milhões de brasileiros de permanecerem na terra onde escolheram viver.

Acompanhei essa luta desde o início. Era deputada federal quando as obras começaram, em 2007, e testemunhei de perto a coragem política necessária para enfrentar um desafio dessa dimensão. Mais tarde, no governo da presidenta Dilma Rousseff, vi esse compromisso ser preservado mesmo em meio a uma das maiores crises políticas da história recente do país. Ao final dos governos Lula e Dilma, mais de 90% das obras estavam executadas.

Ainda assim, a transposição não foi concluída nos anos seguintes. O povo nordestino continuou esperando pela concretização de um direito que já poderia estar plenamente assegurado.

Em 2015 e 2016, quando presidi a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado Federal, colocamos a segurança hídrica do Nordeste no centro da agenda nacional. A Caravana das Águas percorreu os estados nordestinos reunindo parlamentares, pesquisadores, universidades, movimentos populares, agricultores, representantes dos setores produtivos e gestores públicos. Mais do que uma série de visitas técnicas, foi um grande movimento em defesa de uma ideia simples e poderosa: água não pode ser privilégio. Água é direito.

Quando o presidente Lula voltou à Presidência da República, em 2023, convocou os governadores para indicar as prioridades do Novo PAC. Não titubeei. Coloquei a conclusão das obras da transposição e da infraestrutura hídrica como a principal prioridade do Rio Grande do Norte. Fiz isso porque minha história de vida não me permitia agir de outra forma. Era um compromisso ético, político e moral com o povo do semiárido.

As obras voltaram a andar. O Ramal do Apodi ganhou novo ritmo. O Túnel Major Sales começou a ser executado em nosso governo e foi concluído, permitindo que as águas finalmente cruzassem a divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte.

Essa chegada também tem sua própria travessia. Primeiro, as águas fortaleceram a bacia do Piranhas-Açu, permitindo que obras estruturantes, como a Barragem de Oiticica, inaugurada ao lado do presidente Lula em março de 2025, passassem a cumprir plenamente seu papel na segurança hídrica do Seridó e de outras regiões do estado. Agora, ao alcançarem a bacia Apodi-Mossoró por meio do Ramal do Apodi, completam um ciclo histórico. Pela primeira vez, o Projeto de Integração do Rio São Francisco beneficia todas as regiões do Rio Grande do Norte.

Isso significa muito mais do que abastecimento.

Significa água para beber, produzir alimentos, fortalecer a agricultura familiar, impulsionar a economia, atrair investimentos, proteger as futuras gerações e permitir que milhares de famílias permaneçam vivendo com dignidade onde construíram suas vidas.

Água é desenvolvimento.

Água é saúde.

Água é cidadania.

Água é liberdade.

Mas, acima de tudo, água é justiça social.

Nenhuma mãe deveria passar pela angústia de não saber se haverá água ou alimento para seus filhos.

Eu vivi isso.

Vivi a vontade de repetir o prato e ouvir da minha mãe, dona Luzia, que eu não podia, porque meus irmãos também precisavam comer.

Essa lembrança nunca me deixou.

É por isso que me emociono. Não apenas como governadora, mas como mulher nordestina, sem jamais esquecer de onde vim, das minhas origens e daquela menina de Nova Palmeira que nunca imaginou testemunhar este dia.

Há quem olhe para esses canais e enxergue concreto.

Eu enxergo gente.

Vejo dona Luzia.

Vejo milhões de mulheres nordestinas caminhando quilômetros em busca de água.

Vejo agricultores esperando pela chuva.

Vejo crianças que talvez nunca mais precisem conhecer a fome, a sede e o sofrimento que marcaram tantas gerações.

Quando vejo as águas do Velho Chico entrarem no Rio Grande do Norte, não penso apenas que um rio chegou ao nosso estado.

Penso que uma parte da história do Nordeste finalmente começou a ser reparada.

Depois de séculos olhando para o céu em busca da chuva, o sertão agora também pode olhar para a água correndo pelos canais.

Porque ela não leva apenas água.

Leva esperança.

Leva dignidade.

Leva desenvolvimento.

Leva futuro.

E leva, finalmente, a justiça social que o povo nordestino esperou por tantas gerações.

*Fátima Bezerra é governadora do Rio Grande do Norte

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