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A história secreta de uma resistência épica: como o povo organizado resgatou Lula e garantiu a democracia

Está no Brasil 247

Na manhã do dia 7 de abril de 2018, enquanto o aparato policial e o consórcio do lavajatismo preparavam os holofotes para a imagem que julgavam ser o ato final da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, uma semente silenciosa — mas indomável — começava a germinar no bairro de Santa Cândida, em Curitiba. Ali, no calor de uma assembleia improvisada ao som de bombas de efeito moral lançadas contra a militância, nascia o compromisso de não deixar o ex-presidente sozinho. O resultado dessa promessa não foi apenas a resistência por 580 dias: foi a reconstrução do tecido democrático brasileiro.

É essa epopeia coletiva que o jornalista, escritor e editor Haroldo Ceravolo Sereza resgata no livro-reportagem Um por todos, todos por Lula (Expressão Popular). Em entrevista emocionante transmitida nesta terça-feira (28) pela TV 247, Haroldo detalhou ao apresentador Mário Vitor Santos os bastidores da obra e apresentou uma tese contundente: a soltura de Lula e sua subsequente vitória eleitoral não foram mero fruto de arranjos institucionais ou decisões de gabinete, mas sim a vitória de um movimento popular descentralizado e de escala épica, comparável às Diretas Já.

Uma narrativa em cinco atos de coragem

Distanciando-se do viés acadêmico e recusando a cronologia fria, Haroldo Ceravolo optou por uma estrutura jornalística viva, capaz de capturar a horizontalidade de uma campanha que transbordou os quadros partidários para se tornar um sentimento nacional. O livro divide-se em cinco capítulos fundamentais que reconstituem a engrenagem da resistência:

  1. A Vigília Lula Livre: A saga do acampamento erguido no primeiro dia da prisão. Haroldo destaca como a disciplina e a cultura de organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram decisivas para transformar o espaço urbano de Curitiba em um território inexpugnável de solidariedade, mantendo os rituais diários do “Bom dia”, “Boa tarde” e “Boa noite, presidente”.
  2. A eclosão espontânea e as 35 mil cartas: A dimensão humana e afetiva da campanha. As ruas do país foram tomadas por ações anônimas — de festivais culturais a atos de juristas e doações de trabalhadores. Destaca-se o acervo impressionante de mais de 35 mil cartas enviadas ao ex-presidente, nas quais cidadãos comuns não pediam favores políticos, mas narravam suas próprias vidas para dar força ao líder encarcerado.
  3. A batalha jurídica e a denúncia do Lawfare: A articulação técnica e incansável de entidades como a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) e o Grupo Prerrogativas, que desmontaram ponto a ponto a fragilidade das sentenças da Lava Jato. Foi essa construção prévia de inteligência jurídica que permitiu ao país compreender a gravidade das revelações trazidas posteriormente pela Vaza Jato.
  4. Lula no cárcere: o pensamento e a disciplina: A rotina do ex-presidente durante os 580 dias. Longe de se curvar ao isolamento, Lula manteve uma rotina rígida de estudos, leituras diárias e diálogos intensos com seus advogados. O livro recupera a virada de chave do líder político — simbolizada pelo histórico discurso da “jararaca” na condução coercitiva — ao convocar a militância para a responsabilidade histórica de defender a democracia.
  5. O Comitê Lula Livre e a coordenação nacional: A estruturação formal promovida por lideranças como João Pedro Stedile e Paulo Okamotto no final de 2018, que unificou as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, dando envergadura nacional e internacional aos grandes festivais, abaixo-assinados e denúncias no exterior.

O “Vietcong” da política brasileira

Durante a entrevista à TV 247, Haroldo rebateu a tese simplista da grande imprensa — que até hoje evita o termo “Lula Livre” e tenta atribuir a libertação do presidente a meros trâmites burocráticos do Supremo Tribunal Federal.

“Se não houvesse a campanha Lula Livre, mantendo o presidente vivo na memória e no debate político, a ordem institucional jamais teria encontrado espaço ou coragem para reconhecer os abusos e os absurdos cometidos por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol”, pontuou o autor.

Para ilustrar a resiliência dos movimentos sociais e dos trabalhadores brasileiros diante da ofensiva conservadora, Haroldo resgatou uma metáfora célebre citada por Breno Altman e atribuída ao sanitarista e militante David Capistrano: a de que o movimento popular brasileiro atua como um “Vietcong”. Mesmo quando as direções oscilam ou parecem encurraladas, a base do povo sabe exatamente como se organizar, resistir e vencer guerras de longa duração.

Um resgate histórico contra o esquecimento

Lançado oficialmente em São Paulo com a presença de lideranças históricas da campanha, o livro de Haroldo Ceravolo Sereza não chega apenas como um documento de memória, mas como uma ferramenta de reflexão para o futuro.

Ao demonstrar que a derrota do projeto autoritário passou pela união dos sindicatos, do movimento negro, dos movimentos feministas e da intelectualidade progressista, Um por todos, todos por Lula prova que a força da democracia brasileira não reside na passividade das instituições, mas na capacidade inesgotável do seu povo de ir às ruas e reescrever o próprio destino.

Foto reproduzida da Internet

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