por Ricardo Lagreca
Sempre houve um tensionamento relativo ao desmatamento da Amazônia. De um lado, os projetos do agronegócio, da mineração, dos latifúndios, da posse das terras indígenas e do outro lado, os governos que se sucederam ao longo da história do Brasil.
Havia, contudo, posições da política essencialmente exercida pela União, que davam um norte, uma tendência ao equilíbrio das tensões.
No governo atual houve um relaxamento absoluto das políticas ambientais principalmente as relacionadas ao agronegócio, das políticas dos povos indígenas, sem o direito das demarcações das suas terras, da exploração dos minérios e tantas outras, todas favorecendo ao desequilíbrio das forças, que se mantinham sempre tensas, mas sem grandes rupturas. Agora, rompeu-se tudo isto, e a facilidade para os avanços unilaterais, foi de tal sorte, que passamos a testemunhar uma das maiores catástrofes da humanidade.
De imediato, sem perda de tempo, passaram a utilizar as estratégias de ocupação rápida tão empregadas nas guerras. Mas, esta em particular, me faz lembrar o que ocorreu quando Israel em apenas seis dias, ocupou os territórios árabes anexando as colinas de Golã e a península do Sinai, permanecendo com o domínio destas regiões até os dias de hoje. O que aconteceu na Amazônia foi estrategicamente algo parecido. Enquanto o governo justificava suas políticas, quase que um convite ao descontrole ambiental, praticamente deixou que fossem queimadas rapidamente o máximo que podiam de uma vastíssima área, para depois já com o fato consumado, manterem a pressão sobre o rescaldo, agora, já com a floresta gravemente atingida.
O ministro do meio ambiente, sempre com narrativas destituídas de sentimentos, frias como a sentença do juiz que levou a condenação à morte de uma pessoa, ou de um carrasco que executa a pena máxima, nunca se abalou. Para eles nada de grave está ocorrendo. Ora, então como irão entender o mal que estão cometendo ao homem, a flora e a fauna do planeta. É mais um componente deste quadro dantesco do governo.
Só nos resta a esperança de que a preocupação dos outros de fora, e agora entre nós , da participação dos mesmos panelaços que instituíram esta tragédia, possam nos ajudar a recuperar o que o povo brasileiro vem perdendo a cada dia.
*Ricardo Lagreca é médico cardiologista e professor do Curso de Medicina da UFRN
Foto reproduzida da Internet