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A química voltou

por César Fonseca, no Brasil 247

No momento em que uma nítida conspiração ultradireitista, fascista, forma-se para tentar enredar o filho do presidente Lula com a corrupção, sem provas evidentes, mas apenas por meio de suposições, para tentar desgastar politicamente o chefe da nação, a fim de favorecer seu adversário que não cuida de comprovar seus malfeitos, como é o caso da relação dele com o bandido Vorcaro, do Banco Master, o titular do Planalto dá a volta por cima: pegou o telefone para falar diretamente com quem é tido como o inspirador da candidatura de Flávio Bolsonaro, para conversar sobre o que interessa aos países dos dois chefes de Estado.

Foi, dessa forma, restabelecida a “química” entre ambos, com a declaração de Trump a Lula de que devem conversar diretamente, sem intermediários.

Isso muda tudo, porque, até o momento, depois dos desentendimentos produzidos pelo tarifaço trumpista, estava parecendo que o contato entre os dois presidentes passara a ser feito por meio do Secretário de Estado, Marco Rubio, reconhecidamente anti-lulista, o que levou Lula a denominá-lo de latino-americano frustrado, empenhado em dificultar as relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.

A decisão de Lula, de alta política, de contatar, nesta sexta-feira, Donald Trump, com tempo de duração de 1h30min, criou outro clima político, em plena campanha eleitoral, cujas consequências serão as de desfazer ruídos segundo os quais o diálogo entre os titulares da Casa Branca e do Planalto estava interrompido.

Nesse sentido, foram altamente produtivas as movimentações precedentes de Lula, como as de conversar, primeiro, com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e, em seguida, com o da China, Xi Jinping, aliados do Brasil no BRICS; elas tiveram peso considerável para desfazer mal-entendidos.

Ao falar com Trump, como terceiro interlocutor internacional de peso, Lula encontrou o caminho aplainado para alcançar o sucesso no contato presidencial, expresso pelo próprio presidente americano de forma despojada, ao se abrir para conversas diretas sem intermediários.


Diálodo retomado

Isso bastou para que o Representante Comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, ligasse, em seguida, para o ministro do Desenvolvimento do Brasil, Mário Elias Rosa, para acertar negociações sobre o tarifaço na próxima semana.

Essa abertura de contatos sem maior burocracia entre os dois negociadores está, certamente, relacionada com a necessidade de Trump não criar arestas com o Brasil, como as que está tendo no plano internacional com o Irã, cujas consequências têm sido malévolas para os seus interesses políticos estratégicos.

Além do mais, fica cada vez mais clara a dependência dos Estados Unidos das terras raras brasileiras, sem as quais os Estados Unidos perdem competitividade econômica para os chineses, que dominam a industrialização dos minerais críticos, utilizados na vanguarda industrial a partir da Inteligência Artificial.

O assunto desperta interesse não apenas de empresários americanos, mas de todo o mundo, atraídos pela determinação do presidente Lula de abrir comercialização com todos, desde que atendidas as demandas soberanas do Estado Nacional de industrializar minerais críticos no Brasil, para criação de empregos de qualidade no país, numa linha desenvolvimentista.

Quarto mandato à vista atrai Casa Branca

A predisposição de Trump no contato com Lula também está ancorada no sentimento que toma conta da Casa Branca quanto às possibilidades de Lula conquistar quarto mandato, diante de um adversário que não está à altura do anseio popular brasileiro, como demonstram as pesquisas, visto que não tem programa de governo para apresentar à sociedade, ganhando-lhe a confiança.

A própria elite empresarial brasileira, ligada aos interesses econômicos dos Estados Unidos, tem dado demonstração de insatisfação com o candidato bolsonarista e manifestado desejo em favor de uma terceira via eleitoral.

Como tal possibilidade está organicamente afastada de se materializar, o que se vê são as classes políticas conservadoras, em torno do Centrão, aproximarem-se de Lula com a conversa, que não convence aos entendidos da política nacional, de neutralidade.

A Casa Branca, certamente bem informada dos meandros da política nacional, tende a adotar posição pragmática diante do cenário eleitoral, principalmente sabendo que Lula, como ele mesmo disse recentemente, nunca foi político de esquerda, o que afasta temores da elite americana.

Sobretudo em relação aos Estados Unidos, com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas sólidas há mais de duzentos anos, Lula seguirá com o discurso da soberania nacional, aberto a todas as negociações, principalmente porque, ao longo deste seu terceiro mandato, construiu política externa que colhe a admiração internacional, de forma irrestrita.

E Trump, como se sabe, não gosta de apostar em perdedor, logo ele, que nessa altura do campeonato do seu mandato, tem tropeçado em equívocos perigosos.

Desse modo, manter boas relações com Lula, que construiu livre trânsito internacional, é coisa que não se desperdiça, para sustentar a realpolitik.

A reabertura da “química” entre os dois presidentes esconde fator oculto: não é bom negócio Trump ter Lula como adversário, sabendo da consciência da elite política americana de que para onde o Brasil for, a América Latina vai atrás, como já disse o ex-presidente Nixon.

*César Fonseca é repórter de política e economia, editor do site Independência Sul Americana

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Foto reproduzida da Internet

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