Por Stella Galvão
Adorava a Glória Maria, toda negra e empertigada, como se tivesse engolido um cabo de vassoura a cada nova entrada no ar. Em paralelo, encantou-se com versões escritas de relatos da bandalha. Descobriu ali pelos anos oitenta as revistas de entretenimento semanais, a cada edição encobrindo ou desvelando um novo escândalo da classe política deste belo país tropical, cioso em honrar o epíteto de República de Bananas. Nem sabia direito o que fazer da vida. Mas, como toda criatura alfabetizada em aglomerados de analfabetos funcionais, imaginou que poderia escrever. Sobre o quê? Qualquer bobagem, ok, mas e as ferramentas além da imaginação?
Então adentrou solenemente os corredores estreitos da escola acadêmicos da federal, abrigando-se no prédio das humanas. Em animados tours pela biblioteca, àquela época já entregue a certa indigência em matéria de títulos novos e de usados bem conservados, por vezes se indagava se uma manhã de leitura não substituiria com êxito uma sucessão de aulas modorrentas. E assim se passaram quatro anos durante os quais colecionou um rol de multas pelos atrasos sucessivos na devolução de livros que a absorviam.
Tornou-se íntima de gente como Adorno, Walter Benjamin, Roland Barthes, McLuhan, Marcuse, Umberto Eco, Marques de Melo, Muniz Sodré e outros que a memória deixou no escaninho. Foi entre um e outro teórico da comunicação que definiu sua inclinação por esse meio de ganhar o pão. A bem da verdade, de comer o pão que o diabo amassou, como diziam os professorais, eles próprios meio descrentes do que apregoavam. Mas afinal, como se saía bem com palavras, atinou: é a fome com a vontade de comer. E então lançou-se à vida profissional entrevistando casais de araque de quadrilhas juninas – convenhamos, muito melhor que se deter nos estratagemas das outras quadrilhas operantes desde Caminha, o Pero Vaz. Elas terminariam, claro, por cruzar seu caminho, logo o dela, que adorava banana, a fruta.
Foi cuidar de escrever aqui e acolá e enquanto tudo se passava, recebeu o diploma. Foi um encantamento. Papel vegetal, caligrafia impecável, aquelas letras do tempo do ronco e o título pomposo. Era jornalista agora, mas já o era desde priscas eras. O pedaço de papel soçobrou durante uma chuvarada dessas com granizo que invadiu cômodos. Nesse dia, enquanto saboreava um nhoque inesquecível, só sentiu o gosto do papel na boca. Meu diploma, choramingava entre uma garfada e outra. O luto só durou aquela refeição. Quando, às vésperas do São João, um instrutor de quadrilhas de alto coturno comparou-a, e aos seus colegas de ofício, aos mestres cucas, foi inevitável lembrar uma velha lição dos bancos universitários. Cozinhar, claro, é um velho jargão que significa atualizar texto datado, ou velhas práticas insepultas.
* Stella Galvão é jornalista
Obs do blog: O artigo acima me foi enviado pelo colega e amigo repórter fotográfico João Maia Alves