Está no Blog da Malu Gaspar, em O Globo
Duas semanas antes da votação no Senado que rejeitou Jorge Messias [1] para o Supremo Tribunal Federal (STF [2]), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre [3] (União Brasil [4]-AP), se queixou a Lula [5] de estar sendo perseguido pela Polícia Federal [6] (PF), que toca diferentes inquéritos relacionados a ele e aliados, e pediu ao presidente que o ajudasse a se blindar do que chamou de “injustiças”. A maior delas, na visão de Alcolumbre, seria a delação do executivo Daniel Vorcaro [7], que entregou na quarta-feira (6) a sua proposta para análise dos investigadores.
Na conversa, que ocorreu nos bastidores da posse do novo ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães [8], responsável pela articulação política do governo, Alcolumbre disse que a delação de Vorcaro viria com “muitas mentiras e injustiças” sobre ele e apelou a Lula para que o ajudasse a ficar de fora. De acordo com o relato que fez a aliados, Lula respondeu que não tem como segurar delegado da PF, o Ministério Público Federal [9] (MPF) e muito menos o Supremo. E alegou que o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, tem agido com responsabilidade para evitar injustiças, repetindo o termo usado pelo presidente do Senado.
Dias depois, quando Alcolumbre comandou a articulação que levou à derrota histórica do governo na votação do nome de Messias no plenário, o círculo próximo do presidente no Palácio do Planalto atribuiu o movimento a um revide, uma vez que o presidente do Senado estaria monitorando de perto não só os bastidores da delação de Vorcaro mas também de outras investigações que podem chegar a ele, como a dos desvios do INSS [10] e a dos investimentos de R$ 400 milhões do fundo de pensão do Amapá em letras financeiras do Master.
Interlocutores do senador, por sua vez, reconhecem que ele está muito preocupado com o andamento das investigações do INSS e do Master e se julga perseguido pelo governo, mas afirmam que a rejeição de Messias no plenário não tem relação direta com a pretensão de Alcolumbre em conseguir uma blindagem junto a Lula. O maior revés legislativo de Lula neste terceiro mandato seria decorrência do fato de Messias ser rejeitado por uma Casa que tinha um candidato próprio – o senador Rodrigo Pacheco [11] (PSB [12]-MG), preterido por Lula.
“Alcolumbre sabe o tamanho da bronca em que se meteu”, disse um interlocutor do presidente do Senado ouvido reservadamente pelo blog. “Ele é tão vingativo quanto o Lula e não dá pra saber onde isso vai parar. Mas o fato é que o Davi está com medo.”
Procurado pelo blog, Alcolumbre afirmou por meio de sua assessoria de imprensa que “jamais tratou do Banco Master [13]” com o presidente Lula e “muito menos fez qualquer queixa ou alegação nesse sentido”. Em nota, a assessoria disse que “embora tentem, de forma recorrente, associá-lo ao assunto, Davi Alcolumbre não possui qualquer relação com o Banco Master e não é investigado, citado ou arrolado, sob nenhuma forma, em qualquer apuração relacionada ao caso”.
Autodefesa
Não faltam movimentos que expõem o temor de Alcolumbre com o avanço dos casos Master e INSS.
No ano passado, sua gestão decretou sigilo de 100 anos sobre registros de entrada e saída do lobista conhecido como Careca do INSS, acusado pela Polícia Federal de comandar o esquema bilionário de descontos indevidos das aposentadorias. O Senado também se recusou a informar os registros de entrada de Vorcaro na Casa, [14]em resposta a um pedido formulado pelo blog via Lei de Acesso à Informação.
Em outras duas manobras de autodefesa, Alcolumbre se recusou a prorrogar a CPI do INSS – e ainda decidiu arquivar o requerimento de instalação da CPI do Banco Master, impedindo a abertura de uma nova frente de investigação em pleno ano eleitoral.
- As duas investigações, que apavoram não só ele mas toda a cúpula do Congresso, estão no STF sob a relatoria do ministro André Mendonça, um dos principais cabos eleitorais da fracassada campanha de Messias ao STF.
O entorno de Alcolumbre também está em pânico com o avanço dos inquéritos. Um dos maiores aliados de Alcolumbre na Casa é o senador Weverton Rocha [15] (PDT-MA), relator da indicação de Messias, que já entrou na mira da PF. Em dezembro do ano passado, Weverton foi alvo de uma operação de busca e apreensão em uma fase da Operação Sem Desconto, que investiga o esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias do INSS.
- Na véspera da votação de Messias, Weverton garantiu a integrantes do governo Lula que o chefe da AGU teria, pelo menos, 45 votos necessários para ser aprovado, quatro a mais do que o mínimo exigido pela Constituição – 41 votos. Messias acabou tendo apenas 34 votos “sim”.
Confira, abaixo, a íntegra da nota encaminhada pela assessoria de Alcolumbre:
“Não é verdade. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, jamais tratou do Banco Master com o presidente Lula e muito menos fez qualquer queixa ou alegação nesse sentido.
O presidente está cansado de conversas de “ouvir dizer”, baseadas em ilações e relatos sem qualquer comprovação. Embora tentem, de forma recorrente, associá-lo ao assunto, Davi Alcolumbre não possui qualquer relação com o Banco Master e não é investigado, citado ou arrolado, sob nenhuma forma, em qualquer apuração relacionada ao caso.
É irresponsável transformar interpretações subjetivas e rumores de bastidores em fatos jornalísticos sem qualquer elemento concreto que sustente essa narrativa.