- blogdobarbosa - https://blogdobarbosa.jor.br -

Artigo

A vitória do exibicionismo

Por Luiz Carlos Azenha

Houve um tempo em que oferecer redenção era exclusividade dos religiosos e das igrejas. Você pagava por um terreninho no céu. No século 20, o da Ciência, da crença de que a Ciência nos redimiria de todos os males — em que o cientificismo derrotou o idealismo — a redenção estava na Educação, com e maiúsculo. No século 21, o da midiatização permitida pelas tecnologias da informação, a redenção pode ser encontrada através da mídia, especialmente nos programas de TV que se apresentam como “populares”.

Neles, os animadores ganham dons divinos, pela capacidade de transformar superficialmente a vida das pessoas: reformando casas, automóveis, dando banhos de loja. Eles enfatizam, mesmo sem querer, o caráter arbitrário do Brasil: você é escolhido por acaso, depende da sorte, se dá bem em uma imensa loteria.

Essa ideia particularmente brasileira trabalha explorando nosso sentimento de inadequação social. O Brasil mudou-se rapidamente — considerando o tempo histórico — do campo para a cidade. As normas de conduta mudaram tão rapidamente que a ansiedade e a insegurança social prosperaram. O capitalismo explora essa inadequação para estimular o consumo: você é se você tem e, não tendo, você é um ser inadequado. A inadequação é, portanto, motor do consumo permanente.

Numa sociedade como a brasileira, onde a meritocracia ainda apanha feio do paitrocínio, a própria mídia deixa claro quais são os caminhos rápidos para o “sucesso” (entendido como riqueza material): a fama dos famosos por serem famosos. Não estranho que a estudante Geisy tenha levado o vestido para mostrar em um programa de televisão antes mesmo de recorrer à polícia. Essa é a esfera em que as questões públicas são debatidas hoje, no Brasil, um debate carregado de histrionismo, oportunismo e exibicionismo.

Nesse momento em que um novo Brasil é construído com a incorporação de centenas de milhares de consumidores (eu disse consumidores, não necessariamente cidadãos), vivemos o fetiche do diploma universitário. O diploma universitário é o sonho justo de todos aqueles que acreditam que educação é redenção. Pode ser, mas nem sempre é. Em breve teremos no Brasil dezenas de milhares de desempregados ou subempregados com diploma. Para felicidade das fábricas de diploma, que se multiplicam graças à complacência — para não dizer cumplicidade — do poder público. Essas empresas simulam o ensino, os estudantes simulam aprendizado e estamos conversados.

Tenho para mim que Geisy, involuntariamente, expressou fisicamente essa contradição entre a importância da imagem e do conteúdo para ascender socialmente no Brasil. Foi uma trombada do vestido vermelho com o simulacro de universidade, no qual basta “parecer” universitário para alcançar o caminho do céu, ou seja, ser um daqueles universitários que assessoram o Silvio Santos ou conseguem emprego depois de passar por privações televisivas. Os dois lados expressam a mesma lógica: o conteúdo perdeu.

Obs do Blog: O texto acima foi transcrito do blog Vi o mundo

Compartilhe:
[1] [2]