Um apagão só não faz verão
Por Rogério Schmitt
O apagão energético que atingiu a maior parte do país nesta semana certamente dará bastante combustível para o debate político no curto prazo. Mas o seu impacto sobre a campanha presidencial do ano que vem vai depender da eventual repetição desse fato no futuro – e da capacidade de resposta do governo federal.
Os últimos dados oficiais divulgados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) esclarecem que o apagão atingiu (total ou parcialmente) nada menos que 18 unidades da federação por várias horas entre a noite de terça (10) e a manhã de quarta (11). Salvo engano, há pelo menos uma década não ocorria por aqui um blecaute dessas proporções.
Não é difícil prever as cenas dos próximos capítulos. As declarações dos atuais e antigos titulares do Ministério das Minas e Energia (MME), da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do próprio ONS – além dos diretores das grandes empresas concessionárias – inevitavelmente ocuparão as manchetes dos jornais nessas próximas semanas.
Por sua vez, a partir de agora e até o início do recesso parlamentar, as bancadas governista e oposicionista participarão de verdadeiros cabos de guerra no Congresso em torno da convocação ao plenário e às comissões das principais autoridades e especialistas do setor. Do mesmo modo, todos os políticos direta ou indiretamente envolvidos com energia elétrica acabarão se tornando protagonistas dessa crise.
Mas ainda é muito cedo para avaliar os efeitos desse apagão (talvez o termo “blecaute” seja mais apropriado) sobre uma eleição presidencial que ainda vai levar quase um ano para acontecer. Apesar de ser inevitável a comparação com o racionamento de energia que vigorou nos últimos anos do governo FHC, claramente não foi aquele outro apagão o único (e nem o principal) fator responsável pela vitória do presidente Lula nas eleições de 2002.
Mesmo assim, é possível conceber dois cenários hipotéticos para entender o que pode acontecer daqui pra frente (mas com uma enorme zona cinzenta entre eles). No primeiro, a oposição ao governo Lula poderia ser beneficiada. No outro, seria mantido o atual “status quo”, e o apagão sequer seria um tema relevante da campanha.
Os pré-requisitos para que o primeiro cenário se concretize seriam, por um lado, a contínua repetição de novos apagões nos próximos meses e, por outro lado, uma baixa capacidade de resposta do governo Lula. Esse cenário evidenciaria ao público o descontrole governamental sobre o abastecimento energético do país – facilitando bastante a tarefa da oposição em 2010.
No segundo cenário, o governo (com ou sem a ajuda de fatores naturais) teria êxito em evitar a repetição de novos blecautes de âmbito nacional em todo o período pré-eleitoral. Por méritos exclusivos do governo ou com a ajuda da sorte, o debate sobre os apagões energéticos iria gradativamente perdendo espaço na agenda política, e cederia lugar na campanha para outros temas considerados mais importantes. Tudo ficaria como antes no quartel de Abrantes.
Seja como for, a crise do apagão já introduziu no até agora modorrento quadro eleitoral brasileiro um bem-vindo fator adicional de incerteza. Para o governo, é claro que teria sido muito melhor que o blecaute desta semana jamais tivesse acontecido. Mas a oposição ainda não pode cantar vitória. Uma andorinha sozinha não faz verão.
*Consultor político, coordenador de Estudos e Pesquisas do Centro deLiderança Pública (CLP) e Doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Foi professor da Universidade de São Paulo (USP), da PUC-SP e da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Publicou o livro “Partidos políticos do Brasil: 1945-2000” (Jorge Zahar Editor, 2000) e co-organizou a coletânea Partidos e coligações eleitorais no Brasil (Unesp/Fundação Konrad Adenauer, 2005).
Obs do Blog: O texto acima foi transcrito do site Congresso em Foco