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Artigo

[1]Sandice eleitoral exige provas de feminilidade

Por Stella Galvão

Anunciado como editorial do Jornal O Estado de São Paulo do dia 16 de julho último, sob o titulo ‘O exército secreto de Dilma’, circula na internet um e-mail apócrifo que questiona a competência da candidata à sucessão de Lula com base unicamente em seu currículo doméstico e afetivo. Na realidade o editorial do Estadão do referido dia fala do imblóglio envolvendo a Receita Federal, quebra de sigilo etc. E não é de hoje que se usa uma fonte crível para disseminar bobagens dessa envergadura. Uma coisa insana, como se lerá no trecho a seguir:

“Como mulher e como mãe, a candidata é um fracasso absoluto. Sempre viveu longe da única filha. Seus dois casamentos foram um fracasso, tanto é que terminaram. Nunca cuidou de uma casa, de um lar, de “um cantinho, um violão, este amor, uma canção”. Onde uma foto de véu e grinalda? Onde uma foto de batizado? Onde uma foto de namoro? Onde uma foto de festinha de criança? Onde um único gesto de ‘maternidade’ ou de ‘matrimônio’?”

Tal grau de retrocesso e indigência que explora o conservadorismo de parte da população me indignou até a porção medular e me levou à missiva abaixo:

Fulano de tal,

Lendo o texto por você repassado, fiquei pasma com o teor sexista, embolorado e anacrônico dessa cobrança em torno da Dilma ‘mulher’. Trabalhei oito anos no Estadão e sei que, embora conservadores, os Mesquitas não compactuam com tamanha sandice. Seriam ao menos mais elegantes ao bater na ex-guerrilheira. Ah, quero expor meu voto para não ser acusada de Dilmismo, Lulismo, Petismo e outros ismos, ao comentar esta mensagem. Votarei na Marina da Silva por sua história de luta, coragem e determinação. Xi, ela também é pouco ‘feminina’..
Mas, realmente, qualquer mulher se sente ultrajada ao ler essa bobajada de ‘foto de batismo’, ‘felizes para sempre’, ‘festinha de criança’ e que tais…só rindo!

PelamordeDeus, estamos no século XXI e muita água já rolou embaixo da ponte para que nós, mulheres, sejamos muito mais, HOJE, que meros bibelôs e sustentáculos do lar, ou maquininhas eficazes de reprodução. E desde quando manter o casamento, muitas vezes carcomido, roto e falido, é garantia de equilíbrio, sensibilidade ou de confirmação do ‘lado feminino’. Os nossos filhos querem se casar não porque os casamentos dos pais sejam necessariamente um primor, mas porque é desejo atávico do ser humano constituir seu pequeno feudo, ou simplesmente pensar na carga da velhice solitária. E porque a nossa cultura ainda valoriza sobremaneira a constituição dos lares – eles são, ainda, a base do establishment. E nem precisa ter lido os socialistas, inclusive os modernos socialistas europeus, para entender isso. Mas casar é ótimo, enquanto o é, claro..

Definitivamente, eu não deixaria de votar em alguém porque escasseiam (se é que escasseiam) os símbolos primorosos e descascados da feminilidade exposta em porta-retratos (pena que agora quase não se imprimam mais fotos..). Mas, como dizia Kant no século XVIII, o juízo do valor é, afinal, o protagonismo do sujeito.

Bons votos!

*Stella Galvão é jornalista (graduada na UFRN), mestre em História da Ciência (PUC-SP), trabalhou nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de S. Paulo, editou várias revistas científicas e se especializou em Bioética e em Gestão da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Stella já publicou dois livros de crônicas: ‘Entreatos’, em 2006, e ‘Calos e Afetos’, lançado recentemente em Natal e São Paulo, e mais recentemente em Acari, cidade em que nasceu. Atualmente é professora dos cursos de Comunicação da Universidade Potiguar e escreve crônicas no blog natalmuitoprazer sobre o universo da prostituição, tema de uma das pesquisas que desenvolve na UnP.

Obs do blog: A partir de hoje o blog brinda os web-leitores com a colaboração da colega e amiga Stella Galvão que escreverá, sempre aos sábados, um artigo ou crônica sobre os mais variados temas desde política até questões que envolvam o cotidiano social.

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