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Artigo

A festa de Drummond

Por Cláudia Santa Rosa

www.claudiasantarosa.com

Ai se eu soubesse escrever bonito, iria contar em versos a experiência única de viver os dias da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Peço desculpas aos contados leitores e contento-me com esse jeito meio medíocre de dizer as coisas no papel.

Pois bem…

Era mês de novembro, ano 2011, celebrávamos o vigésimo aniversário do Instituto C&A num evento magistral, realizado nos arredores de São Paulo. Cristina Maseda e Gabriela Gibrail, as queridas Cris e Gabi, da Associação Casa Azul, disseram-me: “você não pode deixar de participar da 10ª FLIP”, edição em homenagem a Carlos Drummond de Andrade, o grande escritor mineiro, autor do belo e polêmico poema “No meio do caminho”, de 1928. Fiquei animada!

Salvador, mês de abril, Encontro Nacional do Programa Prazer em Ler, Cris e Gabi reforçaram o convite, naquela ocasião com a chancela do Instituto C&A: “Cláudia, queremos que você participe de um bate-papo na FLIP, abordando a experiência da Rede Potiguar de Escolas Leitoras. Você e a Márcia Cavalcante de Porto Alegre.” Levei um susto. Não entendi o porquê de um projeto de diminuta expressão interessar à FLIP, mas confirmei presença.

Vivi a expectativa, até o comecinho deste mês de julho. Crescia a responsabilidade pela importância da FLIP para o Brasil e para o mundo literário. Eu não podia fazer feio. Preparei uma apresentação para deixar a “Rede” falar, especialmente as crianças. Queria mostrar, concretamente, o que acontece quando um coletivo investe nas pessoas e o poder de transformação que tem a literatura. Parece que a estratégia valeu. Em depoimentos e vídeos, crianças leitoras falaram lindamente e através delas centenas de professores e professoras. Na plateia, além de educadores e ativistas sociais de vários lugares do Brasil e de outros países, estiveram presentes a deputada potiguar Fátima Bezerra, coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa do Livro e da Leitura do Congresso Nacional, Brasília Carlos Ferreira, professora da UFRN e uma educadora do município de Currais Novos/RN que indagou: “como fazer para a nossa instituição integrar a Rede Potiguar de Escolas Leitoras?” Respondi: “é preciso a sociedade conseguir que o projeto se consolide enquanto política pública para que seja universalizado, o que requer compromisso político e social dos gestores do nosso Estado.”

Mas, como a FLIP não se resumiu à nossa apresentação, devo dizer que desde o primeiro dia nos emocionou presenciar jovens mediadores de leitura do grupo “LiteraSampa” integrarem a programação oficial, assim como foi especial ouvir na abertura as palavras de Luis Fernando Veríssimo, Antonio Cícero e Silviano Santiago, arrematados pelos shows da Ciranda de Tarituba e a musicalidade do cantor Lenine.

Foram cinco dias de festa na cidade tombada. Gente nas ruas, algumas se equilibrando no chão de pedras, espaços públicos tomados por livros, leitores e pelas mais diversas formas de manifestações culturais. Pouco ou quase nenhum apelo comercial para a venda de livros. Apenas uma livraria ocupava um dos espaços, subsidiando as várias sessões de autógrafos.

Na grande Tenda dos Autores, concentraram-se as mesas mais desejadas. Ali ouvi a poesia de Drummond por meio de muitas vozes, diferentes idiomas e sotaques. Silvia Castrillon, que em 2011 esteve no 5º Seminário Potiguar Prazer em Ler, e Alexandre Pimentel falaram de “Leitura no espaço público” e dos benefícios de uma cidade contar com bibliotecas públicas, comunitárias e escolares. Falaram a partir das suas experiências com bibliotecas parques em Bogotá e no Rio de Janeiro. Adonis e Amin Maalouf discutiram sobre “Literatura e Liberdade”; o americano Jonathan Franzen falou do seu inesperado sucesso a partir do ofício de escrever; Zuenir Ventura, Dulce Maria Cardoso e João Carracoza integraram a mesa 13, o primeiro arrancou gargalhadas ao ler trechos do livro “Sagrada Família”. Em “O avesso da pátria” Zoé Valdes e Dany Laferrière discutiram o conteúdo crítico das suas obras que abordam temas polêmicos, como o racismo, a ditadura o desejo feminino. Voltei com o convite para a mesa “Pelos olhos do outro”, com Ian Mcewan e Jennifer Egan, pois aconteceu na sequência da que eu falei e não foi possível chegar em tempo. Isso mesmo! Na FLIP a tolerância são 15 minutos da hora marcada. Depois disso acomodam os que estão na fila de reserva. Impossível participar de tudo.

Na Casa da Cultura, presenciei debates memoráveis sobre “Biblioteca da Escola”, “Movimento por um Brasil Literário”, “Novas políticas públicas de promoção do livro e da literatura brasileira no exterior” e da emocionante homenagem (in memoriam) ao escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Do espaço da Flipinha, destaco o bate-papo “Paixão, poesia e imagens”, com Luis Fernando Veríssimo e Angela Lago. E que beleza os pés de livros montados em árvores frondosas que ocupam a ampla praça em frente à igreja, lugar que abrigou cenários e personagens de livros infantis para o deleite de adultos e crianças.

Também participei de duas oficinas de ilustrações no Atelier Lúcio Cruz com as consagradas ilustradoras de livros infantis Janaina Tokitaka e Graça Lima. Durante as noites aconteceram coquetéis de lançamentos de livros, como foi o caso da obra a “Cultura Caiçará”, de Almir Tã. Fora da programação oficial muito eventos, todos bem prestigiados, como o lançamento, entre amigos, do livro “Caminhos DiVersos”, do paraibano José Benedito de Brito.

Voltei cansada, mas feliz. Na bagagem muitas revistas, livros e outros impressos para as leituras de muitos dias. Viva a festa de Drummond! Viva a capacidade criadora e a competência dos realizadores da Flip!

Cláudia Santa Rosa é educadora, escreve a convite deste blog

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