Barulho mortífero
por Stella Galvão
Leio no noticiário que na noite desta quinta-feira (23), um empresário de 62 anos assassinou, no interior de um condomínio de luxo no interior de São Paulo, um casal, ele 40 anos, ela 37 anos. O motivo não poderia ter sido mais banal. Ou não, como dizem os aspirantes a alguma forma de humor.
Afirmam ‘ou não’ para tudo, mudando até mesmo a máxima de Descartes ‘ser ou não ser, eis a questão’. Ou não? Como assim? Não é uma questão plausível a dúvida ou o ser pode ser como não ser, ou não, e ainda assim, ser?
Conjecturas..
Fato é que o assassino foi armado ao apartamento dos vizinhos para reclamar, novamente, da altura do som da TV. Ao deixar o próprio apartamento, número 11, arma em punho, teria anunciado seu intento à mulher . “Eles vão fazer barulho em outra dimensão”, teria dito o empresário. Depois de pintar de vermelho o apartamento de número 12, Vicente voltou ao território doméstico para informar à mulher que agora, seria tudo por conta dela. Fez do elevador seu último meio de transporte. O estampido ouvido a seguir ecoou no andar.
Como de praxe choverão comentários do tipo ‘se a moda pega’. O que ‘pega’, na realidade, é a intolerância e o pavio curto. Não apenas do lado reclamante. É generalizada, nos tempos atuais, a busca por meios de escaparmos das experiências desagradáveis, buscando o estado utópico de prazer e conforto em tempo quase integral. Vivemos a era da liquidez, conforme diagnóstico do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
Valores que a cultura ocidental cultivou ao lado da formação do chamado processo civilizatório diluem-se como a água que escorre das nossas mãos.
A vida líquida, diz Bauman, é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante. Corresponderia a uma versão perniciosa da dança das cadeiras. O prêmio nessa competição é a garantia temporária de ser excluído das fileiras dos destruídos. Ou não, como confirma o precoce desaparecimento do casal morto, pais de uma menina de 1,5 ano. Causa mortis: perda sanguínea decorrente de hemorragia pós-exposição a projeteis desferidos por um vizinho furibundo.
Em um mundo marcado por altos índices de violência e pela necessidade de aceleração das nossas atividades cotidianas, optamos frequentemente por viver encerrados e supostamente protegidos por muros e grades pretensamente invioláveis. Do mesmo modo, queremos distância da diferença, pois consideramos que somente o igual é bom, belo e útil para nós. A delimitação territorial do espaço ocupado é uma metáfora da nossa subjetividade inflacionada. A idealização individualista levada às últimas consequências, como no imperioso desejo do silêncio, por sua vez não respeitado, com menos três na bacia de almas voláteis deste mundo convulso.
* Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19, e-mail: stellag@uol.com.br