É vice humilde, que vontade de chorar
Por Stella Galvão
‘Tem certos dias em que penso em minha gente e sinto assim todo o meu peito se apertar (…) É gente humilde que vontade de chorar’. Os versos finais da bela composição de Garoto, com letra poética de Chico Buarque de Holanda e Vinícius de Moraes, quem diria, têm movimentado a pachorrenta campanha eleitoral para renovação do cargo máximo da municipalidade.
No centro da cizânia, um boneco, um adjetivo e uma candidata a vice que já foi prefeita em três ocasiões e governadora em outra. O boneco em questão, codinome Nildo, é a estrela do programa eleitoral da coligação ‘Natal merece respeito’. Eis que a inanimada criatura solfejou no programa eleitoral que “ela agora diz que tá humilde… Humilde é… ah… pois… agora que que quero só ver se esse povo vai aproveitar o programa eleitoral para explicar essas coisas de Foliaduto, essa tal da Hígia, aquela história de remédio no lixo, lembra? Mas, será? É gente humilde, que vontade de chorar…
A coligação ‘União por Natal’ tem apelado à Justiça Eleitoral por direito de resposta à fala de Nildo, o boneco, alegando o claro propósito nela embutido de “degradar e ridiculizar candidatos ou coligação”. O juiz eleitoral José Dantas. convocado a pronunciar-se, declarou que o programa veiculado não atingiu a honra pessoal dos candidatos da coligação reclamante, “haja vista não haver degradação ou ridicularização em denominar alguém de ‘humilde’”.
Os reclamantes se queixam em verdade daquilo que salta à vista até para o cidadão que desconhece a gaveta onde enfiou o título eleitoral: não orna o cargo de vice em uma mulher cuja trajetória é pontuada pelo primeiro plano. A não ser que….Ah, bão, exclamará o cidadão desatento, mais um capítulo da história culinário-político de ‘comer pelas beiradas’.
Nas articulações que se processam nos jantares e encontros de bastidores, o aqui e agora é muito mais circunstancial que a lua redonda e clara que tem mimoseado a capital potiguar nas últimas noites. Quão efêmera será, afinal, a ‘humilhação’ de ser vice quando se foi titular por tanto tempo? Tolices, dirá o filósofo de botequim habituado ao pas de deux executado há décadas no palco político do RN pelas famílias, castas, oligarquias. Elas se sucedem, e tudo como dantes se mantém.
Uma eleição é uma eleição apenas. Como um uma rosa é uma rosa, que sangra se composta como lhe manda o figurino, lindamente ornada com espinhos. Os movimentos do balé maluco que descompassa historicamente a política do RN só causam surpresa em forasteiros sem acesso às colunas que produzem notícias à medida que se ouve o tilintar da bufunfa. Que se preserve essa nova associação, mais humana e holística, à vice-candidatura. Afinal, “a humildade é a única base sólida de todas as virtudes”, já disse Confúcio.
* Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19, e-mail: stellag@uol.com.br