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Artigo

[1]Enfim, a serenidade

Por Stella Galvão

A doutrina da virtude foi esgrimida por filósofos que montaram grandes tratados sobre paixões, como Spinoza e Hobbes, e depois encontrou franco apoio na obra dos chamados moralistas. Atento e desabrido, o filósofo italiano contemporâneo Norberto Bobbio pontificou no final do século XX que na sociedade do bem-estar social, o moralista é um estraga prazer, “um tipo ridículo que prega no deserto”.  Bobbio diz, em “Elogio da Serenidade e outros escritos Morais” (editora Unesp, 2002), que a serenidade é uma virtude e uma disposição de espírito que resplandece na presença do outro para vencer o mal dentro de si. Também é verdade que, segundo Shakespeare, “não há filosofia (serenidade) que resista a uma dor de dentes”… e atritar os dentes, até que desapareçam por completo, é prova diária para muitos.

No livro, Bobbio analisa os matizes de um debate que permanece aberto desde Maquiavel (1469-1527) e dos teóricos da “razão de Estado”: Até que ponto a política é autônoma em relação à esfera da moral? A conduta dos políticos deve ser julgada segundo as normas que regem a ação do homem comum? Um ato ilícito em moral pode ser considerado lícito em política? “Uma manifestação de vulgar ininteligência acerca das coisas da política é a petulante exigência que se faz da honestidade na vida política”, afirma uma citação sarcástica atribuída ao filósofo liberal italiano Benedetto Croce (1866-1952).

Bobbio contrapõe a serenidade às características maquiavélicas da política real, identificando o temperamento sereno com o não-violento, com a recusa de exercer a força contra qualquer pessoa — o que a define como uma virtude não-política por excelência. O que contagia a pregação estóica do pensador italiano é a necessidade de aprimorar os fundamentos éticos a serem observados pelas pessoas no seu cotidiano. A serenidade é, portanto, “uma disposição de espírito que somente resplandece na presença do outro: o sereno é o homem de que o outro necessita para vencer o mal dentro de si”. O filósofo Carlo Mazzantini (1925-2006) faz um elogio à serenidade, como sendo a única suprema potência que consiste em “deixar o outro ser aquilo que é”.

É bonito mas pouco factível? Pode ser, mas é preciso entendê-la (à serenidade) como o contrário da empáfia, aquela prática de empinar narizes, reputações e trajetórias. Assim, diz o autor, o indivíduo sereno não tem grande opinião sobre si mesmo porque é mais inclinado a acreditar na miséria que na grandeza do homem, e se vê como um homem igual aos demais. A serenidade é contrária à insolência ou arrogância ostentada. Alguma semelhança com certa atitude padrão na chamada elite política destas plagas? Eis que o sereno nada ostenta porque a exibição descarada das próprias virtudes, apregoa Norberto Bobbio, é por si só um vício. A virtude ostentada converte-se em seu contrário.

Já no século IV antes da era Cristã, o grego Aristóteles ressaltava a virtude da sabedoria e da magnanimidade como pré-requisitos do líder na obra que se tornou um clássico absoluto, ‘Ética a Nicômaco’. “É pela prática dos atos justos que se gera o homem justo, é pela prática de atos temperantes que se gera o homem temperante; é através da ação que existe a possibilidade de alguém tornar-se bom.” Conforme Bobbio, é o esforço para o bem que caracteriza o mundo humano em contraste com o mundo animal, quando o homem desenvolve instrumentos e regras de conduta na conformação do mundo da cultura em paralelo ao da natureza.

*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19

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