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Artigo – Maio de 68 e a história sem fim

Para Guy Debord, toda tentativa de inventariar maio de 68 não pode passar de gracejos ditos em jornal. Não há inventário nem balanço, porque não há óbito do seu sentido: saber o que se faz e ser leal ao que se sabe. Os protagonistas de maio de 68 sabiam o que estavam fazendo e foram leais ao que seriam. Esse compromisso faz sentido ontem, hoje e sempre.

Um dos mais célebres personagens dessa história – Guy Debord – que ajudou a deflagrar esse levante, termina um lembrete profético para os dias que correm e por isso também merece ser referido: “A potência do espetáculo atual reside no fato de que ele governa não apenas o mundo que ele produz, mas também os sonhos que as suas vítimas criam para escapar de seu reinado. Esses sonhos de hoje não passam, na realidade, dos pesadelos de amanhã. Pouco importa (…), o sisterma dominante  continuará a se construir contra todos. Eles podem optar por se tornarem cúmplices de seu próprio infortúnio. Mas devem pelo menos saber que não receberão nenhuma recompensa. O grifo é meu.

Por fim, em 68 eu não existia. Vinte anos depois, adolescente, descobri  que uma pessoa muito admirada e amada da família foi barbaramente torturado pelos agentes da ditadura militar. Dez anos mais tarde, conheci Flávio Koutzii e pouco depois Raul Pont. Dias atrás, no Senado Federal, percebi e entendi por que ter Dilma Ruosseff na Casa Civil do governo brasileiro é um valor em si mesmo, quer dizer, que essas pessoas e vida e dignidade, fazem sentido e têm fundamento para uma outra história, contra o reino do espetáculo triunfante.

Este texto é para vocês porque, nos momentos de maior ira e irracionalidade, em barricadas ou sob torturas, e diante das mentiras que assolam os dias e noites que correm, algumas coisas jamais foram, nem serão, destruídas. Entre essas coisas, com o perdão do atrevimento, está uma certa maneira de predicar a existência. Uma maneira de existir, sem o menor risco de convivência com a mesquinhez; uma maneira de existir com sentido e razão. Então, eu existo, também por causa de maio de 68.

Por Katarina Peixoto 

Doutorada em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) 

Obs: O texto acima foi enviado por uma leitora do Blog que achei interessante e decidi publicá-lo.

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