– Uma vez acendi uma porcaria de um cigarro, e fui ao espelho ver o resultado. Não rolou. Me senti um pateta soltando fumacinha. Não combino com cigarro. Mas tem uma coisa que combina ainda menos comigo: o Estado se metendo na minha vida. Isso eu não tolero, além de fazer mal para saúde, é devastador para o espírito… até para um espírito de porco feito o meu.
Diante dessa lei cretina que quer se meter na vida das pessoas, só tenho uma coisa a fazer: começar a fumar. As vésperas de completar 43 anos. Trata-se de uma decisão política. Quero que se dane; só para zoar, vou me permitir as primeiras baforadas e espero sinceramente me viciar em altos teores de nocotina e alcatrão, quanto mais toxinas e ameaças de câncer, mutilação e impotência, maior a liberdade que pretendo advogar. Em tempo: “advogar” quer dizer “trazer para si”. Ou seja, tragar. Vou começar pelos charutos.
E, aqui aproveito para fazer uma sugestão a donos de bares, restaurantes e similares e não silimares: acrescentem o nome “tabacaria” ao seu negócio, e pronto. A lei burra permite tabacarias. Imaginem só. Panificadora e Tabacaria Nossa Senhora de Fátima. Ou Casa de Colchões e Tabacaria Sonho dos Reis, e assim por diante. Se bobear vai ter até Farmácia, Bar e Tabacaria Cruz Azul.
Obs do blog: O trecho acima faz parte de um artigo do escritor Marcelo Mirisola publicado no Congresso em Foco, considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira nos anos 1990. Mirisola é autor de Proibidão [Editora Demônio Negro], O herói devolvido, Bangalô e o Azul do filho morto [os três pela Editora 34] e Joana a contragosto [Record], entre outras obras.