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Artigo

Tales, a água como princípio de tudo, e a tolice infinda dos néscios

Por Stella Galvão

“Qual é a causa última, o princípio supremo de todas as coisas?”

“A água é o princípio de todas as coisas”, respondeu Tales de Mileto (640-558 a.C) à pergunta por ele formulada, no período que inaugurou a prática filosófica na Grécia Antiga. Foi ele o primeiro teórico a formular um pensamento fundado em bases racionais e, por essa razão, é considerado o primeiro filósofo da história ocidental, inaugurando a linhagem filosófica dos pré-socráticos (que precederam Sócrates).

Tales teorizou primariamente sobre os três estados em que vemos os corpos na natureza (phisys): líquido, gasoso e sólido. Considerava o filósofo que a água equivalia a uma divindade, pois dela tudo nascia – as plantas, os peixes. Quando densa, se transmutaria em terra; quando aquecida, viraria vapor que, ao se resfriar, retornaria ao estado líquido, garantindo assim a continuidade do ciclo. Nesse eterno movimento, aos poucos novas formas de vida e evolução iriam se desenvolvendo, originando todas as coisas existentes.

Assim falou Tales, o filósofo original, segundo Aristóteles, discípulo de Platão, por sua vez seguidor e escriba do pensamento socrático. Gigantes do pensamento, artífices do livre pensar, doutores na arte de propor o inimaginável, aquele terreno intangível e instável que equilibra solidamente o edifício filosófico, determinante e decisivo para a experiência humana de buscar continuamente respostas para o existir.

Corte abrupto para uma sala de aula de ensino universitário, turma de um curso de Comunicação umbilicalmente ligado à criatividade, ao livre pensar, à proposição de algo novo em meio ao esgotamento das fórmulas tradicionais. Turma mais ruidosa que a média do ruído produzido cronicamente nos ambientes de ensino. A professora, imersa no universo aquoso proposto por Tales de Mileto há mais de 2,5 mil anos, referia as mudanças de estados líquido a sólido e gasosa como metáfora do mundo. Súbito, a pergunta acintosamente estúpida e agressivamente desrespeitosa: “Professora, você bebeu o que antes dessa aula?”

O néscio que a formulara, um homem maduro e já inserido no mercado de trabalho, traía naquele momento a urgência de se fazer jovial, impertinente e partícipe da geração dos muito novos. Mostrava ainda, de um modo explícito, a incapacidade da abstração, a impossibilidade de dialogar com esferas do conhecimento que se amparam na formulação de ideias incomuns, inovadoras, improváveis.

Este, o cenário com que diariamente se defrontam professores universitários, até não muito tempo atrás uma profissão de sonho. Recentemente, o site americano CareerCast.com listou, como faz anualmente, a lista com as profissões mais e menos estressantes. No ranking de 2013, coube a pecha de carreira menos vulnerável ao estresse justamente a de professor universitário. Salvaguardadas as diferenças da realidade norte-americana para a brasileira, trata-se de um mito que vem se esvaziando progressivamente.

Escolher ser professor e compartilhar conhecimentos sempre exigiu disposição e dedicação. Hoje, exige mais, muito mais. Requer uma pitada de malabarismo e histrionismo, uma dose de resiliência descomunal para lidar com a agressividade e desinteresse crescente dos alunos escravizados pelas redes sociais digitais, inclusive durante as aulas. Sim, ensinar tem se tornado cada vez mais difícil, desgastante e estressante. Resta a relatividade dessa pérola do filósofo Tales de Mileto:
“Procure sempre uma ocupação; quando a tiver não pense em outra coisa além de procurar fazê-la bem feito.”

* Stella Galvão é jornalista e colaboradora deste blog

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