Está no G1
Levou exatamente um mês no cargo para o nome do presidente interino, Michel Temer, aparecer na Operação Lava Jato. O delator Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, afirmou que Temer fez pressão por uma doação de R$ 1,5 milhão para a campanha de Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo. Disse que encontrou o então vice numa sala reservada da Base Aérea de Brasília, onde entrou com um carro alugado da Localiza. Facílimo de checar. Temer nega, claro.
Machado também contou que, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, funcionava como uma espécie de caixa-eletrônico para políticos. Em vez de sacar notas de R$ 100, eles faziam saques da ordem de R$ 100 mil. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, ficou mais fácil arranjar o dinheiro, como presidente da Transpetro. As empreiteiras estavam lá para isso. E os políticos, sobretudo os caciques peemedebistas, se esbaldaram.
Era R$ 500 mil aqui para José Sarney, R$ 300 mil ali para Renan Calheiros, R$ 200 mil acolá para Romero Jucá. Voraz, o ex-ministro Edison Lobão pediu uma mesada de R$ 500 mil. Só levou R$ 300 mil. Apenas ao PMDB, Machado diz ter distribuído uns R$ 100 milhões. Conta que rolou propina também para os peemedebistas Henrique Eduardo Alves, Valdir Raupp, Garibaldi Alves; para os petistas Cândido Vaccarezza, Luiz Sérgio, Ideli Salvatti, Jorge Bittar; para os tucanos Aécio Neves e Sérgio Guerra, para os democratas Heráclito Fortes e José Agripino Maia, para o pepista Francisco Dornelles e para a comunista Jandira Feghali. Propina, como se vê, não tem partido.
Ah, todos – todinhos, sem uminha exceção! – fizeram o mesmo que Temer: negaram. É possível que Machado esteja mentindo? Claro. Machado é mesmo um mentiroso. Ele me contou um monte de mentiras numa conversa em 2014, quando seu nome começou a aparecer na Lava Jato. Era evidente que tinha algo a esconder. A principal mentira era que presidira a Transpetro durante tanto tempo, 11 anos ao todo, graças à competência como gestor. Cascata pura. Estava lá porque era bom para arranjar dinheiro.
Se algum dos acusados conseguir demonstrar alguma mentira agora, Machado perderá o direito à prisão domiciliar firmado na delação. Enfrentará penas mais duras. O duro mesmo, para todos eles, é que delatores sempre mentem – até que são presos e decidem falar a verdade. Foi assim com Paulo Roberto Costa, Alberto Yousseff, Júlio Camargo, Pedro Barusco, Ricardo Pessôa, Eduardo Leite, Dalton Avancini, Milton Pascowitch, Delcídio Amaral. Provas e mais provas corroboram as verdades que revelaram como delatores. Será assim também quando vierem à tona as delações de Léo Pinheiro e Marcelo Odebrecht.
É por isso que Renan, Sarney e Jucá falavam em acabar com a delação premiada nas conversas que mantiveram com Machado. O plano deles está lá, no trecho mais relevante do depoimentos de Machado, o anexo 10: “(i) impossibilitar que réus presos façam delação premiada; (ii) acabar com o início do cumprimento das penas após a decisão de 2ª instância e (iii) clarificar a Lei de Leniência, de modo que uma empresa pudesse fazer acordo sem confessar crime”. Tudo para facilitar a vida de corruptores ou corruptos. Por que fariam isso se não tivessem alguma culpa em cartório? Eis uma pergunta relevante para descobrir quem está mentindo.
A política brasileira precisa da mentira para funcionar. A corrupção é apartidária e está em todos os níveis de governo. Os empresários são cúmplices. Nem sempre são, como dá a entender o Ministério Público Federal (MPF) em suas denúncias, os responsáveis pelo esquema ou pelo super-faturamenteo dos contratos. Machado conta, num dos casos, que o empreiteiro Ricado Pessôa solicitou em 2006 um aditivo a um contrato para obter lucro maior, afirmando ser uma prática normal na Petrobras. Machado diz que recusou. Diante disso, segundo ele, Pessôa abriu mão de novos contratos na Transpetro.
O caso comprova que quem estabelecia o valor das propinas pagas pelas empreiteiras eram políticos e operadores como Machado. O papel dos empreiteiros era pagar e obter o lucro possível dentro dos limites negociados. Às vezes era possível aumentar o super-faturamento, às vezes não. Eles eram cúmplices, formavam cartéis para dividir as obras, mas é um erro do MPF considerar que os empreiteiros formavam uma só quadrilha com os políticos, como já escrevi [1]. Era um acordo de criminosos, cada um de seu lado. Um acordo sustentado pela corrupção e pela mentira. A Lava Jato e as delações premiadas acabaram com toda a mentiralha. Eis o que Machado afirmou no trecho mais revelador de sua delação:
– O mecanismo da delação premiada acabou com a lei do silêncio e com a tranquilidade (…). Desde 1946 havia um padrão, segundo o qual os empresários moldavam seus orcamentos com incorporação do conceito de “custo político” (…), o percentual de qualquer relação contratual entre empresa privada e poder pûblico a ser destinado a propinas. Esse percentual é de 3% no nível federal, de 5% a 10% no nível estadual e de 10% a 30% no nível municipal. Recentemente, em todos os níveis de governos, as pessoas saíram desse padrão e foram além, envolvendo a estrutura das empresas estatais e dos órgãos públicos, o que antes não acontecia.
Machado disse ainda que não deixou a Transpetro sair do “modelo tradicional” e chamou a Petrobras de “a madame mais honesta dos cabare?s do Brasil”. Entre outros órgãos do governo com práticas semelhantes, citou o Dnit, as companhias Docas, Banco do Nordeste, Funasa, FNDE e Dnocs. Há muito ainda a investigar sobre a extensão da corrupção no Estado brasileiro. O país exige que a Lava Jato vá até o fim. É preciso deixar de funcionar na base da mentira e encarar a verdade, por mais dolorosa que seja.