[1]O cacique cinta-larga Marcelo posa com o rosto pintado ao receber as chaves de duas caminhonetes -como seus antepassados recebiam miçangas e espelhinhos – em troca da assinatura de um termo de compromisso com a Viridor Carbon Services para um projeto de desmatamento evitado.
A moeda de troca está registrada em fotografia divulgada no endereço eletrônico da multinacional de comércio de carbono, [2] movido pelo combate ao aquecimento global. As caminhonetes foram uma espécie de “adiantamento” pelo negócio, cujo valor ainda não foi definido.
A etnia cinta-larga ocupa quatro terras indígenas em Rondônia e Mato Grosso. Uma delas, a reserva Roosevelt, é conhecida como uma das maiores minas de diamante do mundo. Os territórios somam 27 mil quilômetros quadrados, ou 18 vezes o tamanho da cidade de São Paulo.
Para a Viridor, trata-se do “maior” projeto de desenvolvimento evitado – Redd, no jargão nos debates das Nações Unidas sobre combate às emissões de carbono – em comunidades indígenas.
No mês passado, a Viridor Carbon Services lançou a busca de parceiros para financiar o projeto com os cintas-largas, no qual estabeleceu uma “comissão” de 19,5% da remuneração total dos créditos de carbono em qualquer tipo de negociação futura.
Para a Funai (Fundação Nacional do Índio) trata-se de mais um projeto que impede indígenas de desenvolver suas atividades tradicionais, como a plantação de roças e corte de árvores sem prévia autorização da empresa, como o contrato revelado pelo Estadão em março entre a empresa Celestial Green e os índios mundurucus, do Pará.
Por US$ 120, os mundurucus venderam direitos de acesso ao território indígena e sobre benefícios da biodiversidade. A Funai questiona a legalidade do contrato e resiste a endossar o negócio entre os cintas-largas e a Viridor.
– Desde que a Funai soube do contrato, várias providências foram tomadas, dentre elas a notificação à empresa responsável e um comunicado oficial à Associação Cinta Larga esclarecendo a ilegalidade do contrato, informou a fundação por meio de uma nota oficial.
– Eles (a Viridor) investiram as caminhonetes para a gente fazer a consulta (aos índios) e o diagnóstico. É um investimento de risco para eles, disse Marcelo Cinta Larga por telefone.
O cacique diz que assinou apenas um primeiro contrato, em 2010, e a empresa espera o diagnóstico da área sobre uma parcela do território indígena, de 10 mil quilômetros quadrados, para levar adiante o negócio de crédito de carbono, contra o qual pesam também algumas questões “burocráticas”. (Foto: divulgação e informações do jornal O Estado de S. Paulo )