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O presidente Lula afirmou na quarta-feira (3), durante reunião ministerial em Brasília, que o Brasil seguirá aberto ao diálogo com os Estados Unidos, mas não aceitará nenhum tipo de imposição contra sua soberania. “Esse país não adotará mais a política de vira-lata diante das grandes potências”, disse o presidente aos ministros.
As declarações foram divulgadas no contexto da reação do governo brasileiro à recomendação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) de taxar em 25% produtos brasileiros. A fala de Lula ocorre em meio à ofensiva do governo Donald Trump contra o Brasil e ao debate sobre os ataques norte-americanos ao Pix.
Lula rejeita tratamento de “republiqueta”
Ao abrir a segunda reunião ministerial de 2026, Lula afirmou que o Brasil vive um momento decisivo para afirmar sua democracia, sua soberania e sua atuação no cenário internacional. O presidente defendeu o fortalecimento do multilateralismo e criticou a forma como o país foi tratado pelos Estados Unidos.
“Nós estamos num momento decisivo para que a sociedade brasileira, eu diria até uma parte da sociedade mundial, reconheça o fortalecimento da democracia no nosso país, a nossa luta para o fortalecimento do multilateralismo, a nossa luta para que esse país não seja tratado em nenhum momento como se fosse uma republiqueta insignificante. Nós somos muito grandes. Nós temos muita história, e nós não podemos aceitar o tratamento que os Estados Unidos deram ao Brasil esta semana”, afirmou Lula.
A declaração reforça a posição do governo brasileiro de reagir à pressão dos Estados Unidos com argumentos diplomáticos, mas sem subordinação política. O Planalto avalia que a recomendação do USTR é injustificável e ameaça setores produtivos nacionais, além de abrir uma frente de ataque contra instrumentos estratégicos da economia brasileira.
Brasil aposta no diálogo, sem abrir mão da soberania
Lula lembrou que o governo brasileiro vem trabalhando desde julho de 2025, quando as primeiras tarifas foram impostas ao país, para reverter a taxação por meio da negociação. O presidente, no entanto, deixou claro que o diálogo não significa submissão.
“Ninguém pode dizer que o Brasil se negou a negociar com os Estados Unidos. O que é que nós fizemos? Nós não fizemos bravata, nós não fizemos discurso. Nós resolvemos construir uma narrativa para tentar mostrar, não só aos Estados Unidos, mas mostrar a outros países e ao povo americano, a insensatez da punição ao Brasil”, disse Lula.
O governo brasileiro reagiu oficialmente à recomendação do USTR por meio de nota divulgada na terça-feira (2). No documento, o Brasil manifestou indignação e apresentou uma série de argumentos contra a medida. Também na terça, o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, concederam entrevista coletiva para reforçar a posição brasileira.
Trump rompe lógica de negociação, diz Lula
Durante a reunião ministerial, Lula afirmou ter sido surpreendido pela nova ameaça de taxação, já que havia combinado com Donald Trump, no último encontro entre os dois em Washington, no início de maio, um prazo de 30 dias para que representantes dos dois países buscassem uma solução.
“Na última reunião houve uma divergência entre o meu ministro da Indústria e Comércio, o meu ministro das Relações Exteriores com o ministro do Comércio deles. Eu propus ao Trump, já que não tem acordo entre os dois ministros, de darmos 30 dias para que os dois se entendam. Essa reunião ainda não concluiu nada. Por isso a nossa surpresa com a decisão de mais um comunicado, de mais uma taxação com relação ao Brasil. Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpresa ontem, com a decisão deles”, afirmou.
A fala expõe a contradição entre a disposição brasileira para negociar e a postura unilateral adotada pelo governo Trump. Para Lula, a relação entre Brasil e Estados Unidos deve ser conduzida com respeito mútuo, e não por meio de ameaças comerciais.
Enquanto Lula defende o Brasil, oposição propõe vassalagem
A defesa da soberania feita por Lula contrasta com a postura de setores da oposição bolsonarista, que passaram a defender concessões aos interesses de Donald Trump. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, sugeriu que o Brasil negocie com os Estados Unidos usando como referência o Zelle, sistema norte-americano de pagamentos, em debate sobre o Pix.
“Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos, aqui é o Zelle. Então dá pra você ir pra uma mesa de negociação com os americanos”, disse Eduardo Bolsonaro.
A fala foi interpretada por críticos como uma proposta de vassalagem completa aos interesses de Trump, em um momento em que o Pix aparece no centro dos questionamentos feitos por autoridades dos Estados Unidos. O sistema brasileiro, criado e operado pelo Banco Central, tornou-se uma das principais ferramentas de inclusão financeira do país e é usado diariamente por milhões de pessoas, empresas e pequenos negócios.
Pix entra no centro da disputa pela soberania
A recomendação do USTR citou, entre seus argumentos, o papel do Banco Central do Brasil como regulador e operador do Pix. O órgão estadunidense classificou essa função como possível conflito de interesse, ampliando a tensão entre os dois países.
Para o governo brasileiro, a ofensiva contra o Pix é parte de uma disputa maior sobre soberania tecnológica, autonomia financeira e capacidade do Brasil de desenvolver soluções próprias. A tentativa de comparar o Pix ao Zelle, como fez Eduardo Bolsonaro, ignora a diferença entre um sistema público, nacional e amplamente integrado e um mecanismo privado, limitado e dependente de bancos dos Estados Unidos.
Nesse cenário, Lula busca apresentar o Brasil como um país disposto ao diálogo, mas incapaz de aceitar imposições externas que prejudiquem sua população, suas empresas e suas instituições.
Lula confirma ida ao G7
Ao defender o multilateralismo e a democracia, Lula também confirmou que participará da próxima reunião de líderes do G7, marcada para o dia 15, na França. O grupo reúne Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.
“Eu nem ia ao G7. Agora eu vou. Porque é preciso alguém tentar colocar ordem nessa coisa que está acontecendo de desmonte do multilateralismo, desmonte da democracia e desvalorização das instituições. Se a ONU não está funcionando hoje, não é destruindo a ONU que a gente vai consertar o mundo. É fortalecendo a ONU”, afirmou Lula.
O presidente voltou a defender a reformulação do Conselho de Segurança da ONU e o fortalecimento das instituições internacionais. Para Lula, a resposta aos impasses globais não deve ser o desmonte do multilateralismo, mas sua reconstrução em bases mais democráticas.
A reunião ministerial consolidou a posição do governo brasileiro diante da ofensiva de Trump: negociar sempre, mas sem abrir mão da soberania nacional. Enquanto a oposição bolsonarista se aproxima dos interesses de Washington, Lula tenta transformar a crise em um marco de afirmação do Brasil no mundo.
Foto: Ricardo Stuckert/PR