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Causos que marcaram os 13 anos do blog: O dia em que sai fora da pauta e rendeu manchete

Está no Baú de um Repórter

Eleições para governador do Rio Grande do Norte de 1990. O petista Salomão Gurgel, hoje prefeito da cidade de Janduís, interior do estado, concorria ao governo. Meu colega e amigo Luciano Herbert era o editor de Política do Diário de Natal. Me escalou para cobrir a campanha do petista. A minha missão diária era acompanhar o candidato. Numa sexta-feira a agenda de Salomão se resumia a uma visita ao pessoal do MST que havia invadido a fazenda Marajó localizada no município de João Câmara, região do Mato Grande do estado, e a cerca de uns 45 quilômetros de Natal. Estava acompanhado do repórter fotográfico Carlos Silva, Carlinhos como é mais conhecido.

Saímos de Natal acompanhando o candidato e a sua comitiva no carro da reportagem por volta das 14h30. Chegamos na fazenda Marajó e fomos recepcionados pelos líderes do movimento. Salomão conversou com o pessoal, fez fotos e filmagem para a campanha a ser levado ao ar no programa eleitoral do candidato e conversou com as lideranças sobre a situação deles. O MST considerava a fazenda não-produtiva daí a invasão. O Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] tinha uma outra interpretação.

Fiz o factual sobre a presença do candidato petista numa fazenda invadida pelo MST. Não tinha muito o que falar. Foi então que vendo que Carlinhos estava clicando os sem-terra decidi fazer uma matéria extra-pauta. Comecei a ouví-los. Suas condições – precárias – seus pleitos, enfim, tudo o que pudesse arrancar deles. As queixas eram muitas principalmente com relação ao Incra e me disseram que dali não arredavam o pé enquanto não fosse dada uma solução satisfatória a eles no caso.

Com o material que tinha em mãos, mais as fotos que Carlinhos produzira achei também – e como manda o bom jornalismo – ouvir o outro lado. Ou seja, a versão do Incra sobre a invasão. Retornamos à Natal e chegamos por volta das 17h30. Fui direto para a superintendência do órgão. Carlinhos foi pra Redação do jornal. Lá chegando me identifiquei e disse a secretária do superintendente – Roberto Tolentino, salvo engano era o nome dele – que queria uma entrevista. A secretária me perguntou de pronto qual seria o assunto. Respondi: A invasão da fazenda Marajó pelos sem-terra. Ela mandou que aguardasse que iria falar com o superintendente.

Não demorou muito ela retornou e disse: Pode entrar ele vai lhe receber. Tal a minha surpresa foi quando o superintendente pediu para sua secretária acompanhar a entrevista. De certo pensando que poderia deturpar suas declarações e escrever o que não devia na matéria. Nesse dia infelizmente não estava com o gravador. Aliás desteto gravador pois o trabalho de tirar a matéria depois é um saco. Mas pelo menos tem um lado positivo. A gravação é um documento que o repórter tem em mãos caso alguém questione o que foi escrito.

Começo a entrevista e o superintendente do Incra no Rio Grande do Norte foi logo dizendo: “Os sem-terra vão sair nem que seja na base da porrada na segunda-feira. Vou chamar a Polícia e botar eles pra fora”. Anotei suas declarações e tratei logo de colocar um asterisco ao lado – é assim que faço quando estou entrevistando alguém e entendo que aquela declaração pode ser o lead da matéria. O restante da entrevista só serviu mais para encher linguiça. Satisfeito corri pra redação.

Chegando lá Luciano pergunta se a visita de Salomão aos sem-terra rendeu alguma coisa. Falei pra ele que do ponto de vista político só o factual, mas que tinha uma outra matéria-extra pauta que servia mais para a editoria de Cidades. Ele disse para falar com Serejo [Vicente Serejo] editor-geral do Diário nessa época. Fui direto pra falar com ele. Serejo me indagou se alguém mais tinha essa matéria. Disse-lhe que não. Só eu acompanhei Salomão à Fazenda Marajó. Ele afirmou então que queria a matéria para ser publicada em O Poti, no domingo.

Fui pra minha Remington – nessa época não tinha computador tudo era feito na máquina de escrever – e comecei logo a fazer a matéria de política. Luciano tinha pressa em editar o amterial que sairia no sábado. Claro, evitei falar sobre as conversas que tive com os sem-terra. Acabei o material de política e me dediquei a fazer a matéria sobre a invasão acompanhada das declarações do superintendente do Incra.

Matéria produzida, pedi para ver as fotos, já reveladas, com Carlinhos. Ele me mostrou uma foto com os sem-terra perfilados e com foices e facões nas mãos apontando para o alto. Como que num ritual de guerra. Eram homens, mulheres e crianças. Uma foto digna de primeira página tal qual foi acompanhada de uma manchete que dizia mais ou menos assim: Incra vai retirar sem-terra nem que seja na base da porrada. Resultado: O superintendente do órgão convoca uma coletiva no dia seguinte para desmentir o que havia me dito. A coletiva foi pela manhã e o Diário mandou um repórter da editoria de cidades.

Quando chego na Redação na segunda-feira à tarde para trabalhar, Serejo me chama e fala sobre a entrevista do superintendente do Incra. Me questiona sobre a matéria e diz que o Tolentino ainda mandou uma carta ao jornal. Puto da vida porque não tinha inventado nada, mas que não poderia provar pois a conversa não havia sido gravada, perguntei a Serejo se também poderia escrever uma nota. Ele disse que sim, mas que iria ser publicada junto com a carta do superintendfente do Incra. Concordei.

Voltei a Remington e mandei pau. Disse que jamais seria ingênuo de inventar qualquer palavra que não fosse a do superintendente do Incra com relação a mandar os sem-terra saírem da fazenda nem que fosse na base da porrada. Até porque ele pediu a sua secretária para acompanhar a entrevista. Como iria inventar palavras sua se ele tinha alguém para testemunhar a seu favor? Indaguei isso na nota.

A veracidade do que disse na matéria era tão grande que até hoje ninguém do Incra respondeu a minha nota. Ficou o dito pelo não dito. O superintendente do Incra sabia que estava faltando com a verdade quando convocou a coletiva para desmentir o que havia me dito, e com testemunha. Infelizmente o fotógrafo do jornal tinha ído direto para a redação e não me acampanhou na dita entrevista. Mas são coisas que acontecem no jornalismo.

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