Está no Baú de um Repórter
Eu era editor de Economia do Diário de Natal. Era uma sexta-feira, dia de pescoção na redação. Pra quem não sabe pescoção no jargão jornalístico é aquele dia da semana que praticamente se fecha dois jornais, no caso a sexta-feira. Nesse dia se fecha o jornal que vai circular no sábado e praticamente 90% do que vai circular no domingo. Pois muito bem: Era dia de pescoção no DN e o meu colega e amigo Roberto Machado, na época secretário de redação decidiu fazer o jornal O Poti – que circulava somente aos domingos – todo colorido. Naquela época os dois principais jornais do Rio Grande do Norte – Diário de Natal e Tribuna do Norte – já saiam com a capa e a contracapa coloridos. Mas Machado tomou pra si o desafio de sair com O Poti todo colorido.
A matéria principal do caderno de Economia de O Poti era sobre uma grife de perfumaria que estava se instalando em Natal. O repórter autor da matéria era Luciano Kleiber. A reportagem rendeu uma página inteira com direito a abertura de foto, ou seja, uma foto grande pegando as quatro colunas da página em tamanho stander. Começavá-mos a fechar o jornal, claro, pelo o que iria circular no sábado pra só depois pegar O Poti. Como Roberto Machado decidira sair com O Poti todo colorido, isso certamente poderia atrasar um pouco a impressão do jornal. Já era previsto.
Naquela época ainda não se trabalhava com câmeras digitais. A foto era feita em papel e o repórter-fotográfico enviava o print das fotos para os editores escolherem a melhor. Por volta das 11h da sexta-feira Machado fechou a Editoria de Brasil – ele era também editor do Caderno Brasil – e foi pra casa, certo de que tudo estava caminhando bem. Qual nada! O atraso na impressão de O Poti que já começava a ser rodado na madrugada do sábado foi maior do que se esperava.
Para complicar a minha vida, já muito cansado acabei trocando a foto da perfumaria por uma outra de uma drogaria. A foto foi feita no interior das duas. A matéria sobre a farmácia era uma outra que iria para a editoria de Cidades. Procurei o fotógrafo para tirar a dúvida, mas ele já tinha ido embora. Conclusão. Sai do DN por volta das 7h da manhã do sábado. Machado, que chegava muito cedo à redação ainda me encontrou por lá. Surpreso ele me perguntou o que ocorrera. Expliquei que houve um grande atraso na edição das matérias.
Na segunda-feira o representante da franquia da dita perfumaria liga para o jornal para reclamar da foto errada. Expliquei o que acontecera e ele me pediu que repetisse toda a reportagem com a foto certa. Disse-lhe que não era possível, até porque fora uma reportagem pautada pelo jornal. Não se tratava de matéria paga. O que poderíamos fazer era colocar uma nota com o famoso “ERRAMOS”. Foi o que fiz. Assumi assim o meu erro.