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A confirmação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas urnas brasileiras, superando o candidato da extrema direita Flávio Bolsonaro (PL), ecoou de forma retumbante e dramática nos corredores do poder em Buenos Aires. De acordo com uma minuciosa reportagem publicada pelo tradicional jornal argentino Clarín, a residência oficial de Olivos transformou-se no palco de uma cena descrita como caótica e beirando o cômico: tomado pela fúria, o presidente Javier Milei protagonizou uma sequência de gritos, palavrões e desespero ao ver ruir seu principal projeto de expansão ideológica na América Latina.
O desfecho do pleito no Brasil representou o estilhaçamento de uma ilusão alimentada de forma ufanista dentro do próprio gabinete libertário. Acreditando ser a figura central de uma onda conservadora incontestável na região, Milei apostou alto na eleição de Flávio Bolsonaro. A empolgação era tal que, logo após o primeiro turno, o ministro das Relações Exteriores argentino, Pablo Quirno, chegou a declarar publicamente que o desempenho do herdeiro do clã Bolsonaro confirmava a “influência global” do mandatário argentino, cravando com pretensão que “todos os candidatos apoiados por Milei ganham as eleições”. Na vida real, o extremista argentino é uma figura caricata que ninguém leva a sério, absolutamente subserviente a Donald Trump e aos interesses dos EUA, visto como um lunático descompensado.
Colapso na televisão e o pedido de isolamento
A realidade das urnas brasileiras, no entanto, atropelou o triunfalismo de Buenos Aires. Conforme o relato do Clarín, a virada de Lula e a consolidação de sua vitória provocaram uma reação visceral no chefe de Estado argentino. Diante dos monitores que transmitiam a apuração ao vivo, Milei disparou uma saraivada de ofensas direcionadas aos próprios colaboradores e aos resultados que emergiam do país vizinho.
Em meio à escalada de nervosismo e à incredulidade da equipe que o cercava, o presidente encerrou a noite de forma abrupta e teatral. Exigiu um isolamento imediato ao proferir uma ordem taxativa aos seus assessores mais próximos: “Não me incomodem mais!”. O episódio expôs não apenas o choque emocional do líder ultradireitista, mas também a fragilidade de uma estratégia externa calcada na personalização das relações diplomáticas e no alinhamento cego com correntes ideológicas radicais.
A frustração tem contornos ainda mais profundos porque a derrocada do projeto bolsonarista no Brasil fecha uma importante janela de oportunidade geopolítica para o governo argentino. Enquanto Milei vislumbrava a formação de um eixo ultraconservador no hemisfério Sul, a recondução de Lula reorganiza o equilíbrio regional. O presidente brasileiro mantém pontes de diálogo pragmáticas com a Casa Branca sob a gestão de Donald Trump e fortalece a capacidade de articulação do Brasil, deixando o vizinho platino em uma posição de crescente isolamento diplomático.
Turbulência econômica e a obstinação pelo “mastro”
O colapso emocional em Olivos não ocorreu em um vácuo. Ele desembarcou sobre um terreno já profundamente desgastado pelas tensões internas e pelas contradições do plano de ajuste econômico promovido pelo ministro da Economia, Luis Caputo. Nos bastidores da Casa Rosada, a ala política encabeçada pela secretária-geral da Presidência, Karina Milei, tem pressionado por um alívio nas medidas de austeridade, alertando que a corrosão do consumo e da renda familiar ameaça derreter a base de apoio popular do governo.
A resposta do chefe da carteira econômica diante dos apelos por socorro social tem sido uma palavra direta: “Aguentem”. As preocupações chegaram a ser levadas pessoalmente ao presidente pelo chefe de Gabinete, Diego Santilli. No entanto, irredutível e avesso a correções de rumo, Milei teria reagido com contundência dramática, afirmando que não pretende flexibilizar a receita de choque: “Vou morrer amarrado ao mastro deste programa”.
Essa obstinação cega tem ampliado as fissuras entre o governo e a comunidade empresarial e financeira. Especialistas apontam quatro grandes entraves que sufocam a estratégia de estabilização monetária do governo argentino. Em primeiro lugar, o severo atraso salarial contido para frear os preços acaba por destruir o poder de compra e estrangular o comércio varejista. Em segundo lugar, o atraso cambial decorrente da valorização artificial da moeda local é utilizado para segurar custos, mas atua como um duro golpe contra a competitividade industrial. Além disso, o corte radical nos investimentos públicos atinge o superávit fiscal primário à custa da paralisação da infraestrutura e do esvaziamento do efeito multiplicador da economia. Por fim, a manutenção de juros altos persistentes busca conter a corrida contra a moeda, mas acaba por paralisar o crédito e travar a expansão econômica.
Desembarque dos aliados e a desconfiança do mercado
O descontentamento com a condução monetária do Banco Central, sob a liderança de Santiago Bausili, deixou de ser um murmúrio de bastidor e ganhou contornos de revolta aberta. O economista Ricardo Arriazu, até então um dos defensores mais enfáticos do plano governamental, mudou publicamente de tom e acusou a autoridade monetária de “sufocar a atividade econômica”. No meio fabril, os dirigentes da União Industrial Argentina (UIA) cobram de seu presidente, Martín Rappallini, uma postura de confronto contra o achatamento do setor, respaldados por levantamentos da consultoria Orlando Ferreres que mostram um crescimento anêmico de 0,1% na atividade econômica.
O pessimismo ultrapassou as fronteiras nacionais e acendeu os alarmes em Wall Street. Em encontros promovidos por grandes conglomerados financeiros, executivos expressaram receios abertos com a sustentabilidade do modelo libertário. A cautela ganhou contornos formais quando representantes da gestora BlackRock transmitiram ao mercado a sinalização atribuída ao seu presidente, Larry Fink, recomendando extrema prudência em relação aos ativos argentinos.
Para complicar ainda mais o quadro, o epicentro político do governo enfrenta a erosão das alianças da própria base conservadora. A ministra da Segurança, Patricia Bullrich, tem travado embates velados com o núcleo duro do presidente. Preocupada com o impacto social da recessão, Bullrich advertiu expressamente o mandatário de que a persistência inflacionária impedirá qualquer recuperação do consumo.
Após presenciar ataques violentos de Milei contra a imprensa em um evento da Fundação Faro, a ministra não escondeu o desapontamento perante o empresariado presente, resumindo o desgaste interno em uma frase emblemática: “Já estou de saco cheio dos xingamentos”. O desabafo da influente aliada evidencia que a explosão de fúria testemunhada na noite de Olivos não foi um fato isolado, mas a manifestação de um governo acuado entre a derrocada de seus aliados regionais e o colapso de suas promessas domésticas.
Foto reproduzida da Internet