Stella Galvão
Era uma vez um menino muito esperto. Desde a mais tenra idade ele percebeu que se dava melhor quem fazia composições, acertos, armações. Começou ainda na pré-escola. Levava pedaço de bolo, bijouterias da mãe (culpava a empregada, se a genitora dava pelo sumiço da peça) e desenhos fofos para as professoras da escolinha. Era amado por elas o menino manipulador. Aprendeu e repassou logo cedo a lição aos mais próximos. Elogiar, paparicar, bajular e encher de mimos e regalos era o caminho mais fácil para se trilhar. Posava de anjo a torto e a direito. E o melhor, de forma convincente.
Assim seguiu trilhando a rota dos raposões. Criança ainda, sua fábula predileta era justamente o da raposa que tomava conta do galinheiro ou dos carneirinhos à mercê do lobo que rondava a casa enquanto a mãe estava fora. Os pais começaram a perceber (finalmente!) as artimanhas do menino e aplaudiam, felizes com tamanha precocidade. Pertenciam a uma família com tradição nessa seara, quase todos bem posicionados no vasto campo do funcionalismo público. Tudo obra de sucessivos beija-mãos nos governos que se sucediam, um igualzinho ao outro na voracidade saqueadora. As críticas eram feitas a portas cerradas, sempre entre os consanguíneos, gente que jamais sacrificaria uma boa boquinha por artes de uma fofoca contada a ouvidos atentos fora do núcleo familiar mais próximo.
O pobre Estado vivia à míngua, com uma enorme parcela da população sem acesso a serviços essenciais de educação e saúde, por omissão de governantes alheios àquela coisa rara chamada espírito público. O espírito deles é individualista, só ampliando para os próximos comparsas. Todos ocupados em encontrar os apaniguados nas rodas da society, nas inaugurações de boutiques, nas casas de veraneio, nos restaurantes, coberturas e outros espaços privativos, é claro.
Voltando ao nosso menino, ele cresceu e prosperou, não sem antes enganar meninas crédulas que recebiam pequenos agrados e também eram altruístas. Ele contava histórias de partir o coração mais duro. Sempre uma desculpa de larápio na ponta da língua. Ora era uma doença em família, ora uma viagem súbita a que ele fora obrigado a fazer, ou ainda um joelho que teimava em claudicar nas horas de maior responsabilidade. O joelho supostamente doente era motivo dessa criatura só entrar em filas preferenciais em bancos, lotéricas, supermercados e fosse lá o que fosse. Quem o conhecia bem via a cena e torcia o nariz, enojado. Ou ria, aquele riso de escárnio que costuma freqüentar a boca de um mentiroso contumaz quando reconhece outro.
Pois bem, o rapaz era um alpinista, disposto a abraçar a causa da informação pública, supostamente os valores éticos, a verdade custasse o que custasse, bláblá. Ele ouvia aquilo em sala de aula e dava de ombros. Deixava aos que chamava de trouxas a tarefa de separar o joio do trigo. Ele queria era o filé, e sem gordura. Não causou surpresa quando assumiu o vôo de primeira classe, com direito a polpudas verbas e patrocinadores. Tudo em troca, evidentemente, de um certo quê de aviador. Ele seria o encarregado de uma parte da coleta. Recolhia, distribuía, embolsava sua parte, de primeirona classe assegurada. A ética, ah, a ética. Isso era coisa dos gregos que sucumbiram bem antes do Cristo, bradava. Afinal, novos vôos já estavam agendados.
*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19
