Herança
Ele era um homem com quase 70 anos. Sentado na varanda do seu apartamento olhava para as luzes da cidade com olhos em chamas. Havia chorado muito depois da conversa que tinha tido com sua esposa, quase 20 anos mais nova do que ele. Revia a vida e as lembranças mais antigas. Sabia que na idade em que estava às rememorações mais velhas vinham mais à tona do que as novas. Sentia-se culpado por muitas coisas, principalmente porque não conseguia esconder de si mesmo seu principal vício, que consistia em simular paixões para conseguir seduzir mulheres. Não importava se fossem casadas, solteiras, comprometidas, viúvas… O que interessava a ele – lembrava-se com um frio na barriga – era a conquista pela conquita.
Naqueles dias ele estava magoado consigo mesmo. Aprendera ao longo da vida a conhecer valores éticos e os praticava na profissão, mas intimamente os relegava quando se tratava de novas conquistas. Andava tenso porque não conseguia deixar de cortejar a mulher de um amigo que ele imaginava admirar e gostar. Sentia que ela estava começando a ceder ao seu estilo manhoso de ir se chegando como um amigo fiel. Quando mais jovem, jactava-se em dizer que “arrodeava a presa como uma cobra” até o bote final, estudando todos os seus passos, avaliando todas as suas emoções, para dar “a investida fatal no momento preciso”. Mas, com o passar do tempo, e particulamente com relação a essa nova investida, ele estava pela primeira vez incomodado. “E se fizessem comigo a mesma coisa?” Chegou a pensar.
Voltou-se o olhar para a cidade e para as nuves de chuva que ameaçavam chegar para tirá-lo do conforto da varanda. Avaliou que o frio que sentia na barriga era maior do que o que vinha empurrado pelas nuvens negras que subiam lentas, costeando o rio Potengi. Lembrou-se da conversa que tivera alguns minutos com a sua mulher. “Um anjo de candura e compreensão”, refletiu. Viu novamente o seu rosto triste enquanto tiveram aquela longa e reveladora conversa depois que ele a inquiriu de forma bruta sobre o que aquele homem estava fazendo na sua casa. Ele havia percebido a presença daquele estranho muitas vezes no seu prédio, mas naquele dia, quando deixou o elevador, ele ia saindo do seu apartamento. Pensou que estava sendo traído. “Ele tem quase a idade da minha mulher e eu não admito traições!” Havia pensado com raiva.
Na cozinha, munido de toda a revolta, esbravejou contra a presença daquele homem no seu lar, não sem antes ressaltar suas virtudes como marido fiel, trabalhador e que somente vivia pela família. Não era um discurso preparado, ele falava com convicção porque fora criado para se reafirmar cotidianamente como macho e considerava possível o homem trair em detrimento da mulher. Estava vermelho, colérico e o seu corpo pequeno e já meio encurvado pela idade, tremia enquanto punha em dúvida a honestidade de sua cara metade, que tinha nome de santa. Ela manteve-se calada, serena, olhando o tempo todo para um lugar indefinido, até ele terminar de gritar. Depois, olhando-o firmemente, ela pediu suavemente que ele a escutasse.
Agora na varanda ele chorava enquanto lembrava-se das revelações da sua mulher, que relatou ser aquele homem, um filho seu, fruto de uma de suas muitas conquistas. “Você não deve lembrar sequer do nome daquela mulher que você consumiu e abandonou. O rapaz não esteve aqui para conhecê-lo, mas apenas para saber dos seus irmãos. Ele não lhe entende e não pretende entendê-lo. E, foi embora para nunca mais voltar. Assim como você fêz com muitas mulheres ao longo da vida, quando você , também, se foi para nunca mais… Evite destruir vidas”, disse, enquanto em passos lentos saia de sua frente.
Agora, mareado com o sono que vem do choro, sentia os primeiros respingos de chuva enquanto pensava na dor que iria provocar no amigo, cuja mulher estava sendo o seu principal alvo naqueles últimos dias. Aproveitava-se de um momento difícil em que os dois viviam. Não conseguiu continuar a pensar, porque os olhos de tristeza de sua mulher se interpuseram como um milagre diante de si.
Quedou-se um sofrimento de remorso, encolheu-se diante do espelho das lembranças. Sentiu-se morrer quando descobriu que conheceu apenas as costas de um filho da conquista.
Por Leonardo Sodré
* Léo Sodré é jornalista e escritor, e escreve artigos e crônicas como colaborador do Blog todos os fins de semana neste espaço