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Crônica

Ode ao Tirol

Morei no bairro do Tirol ainda criança. Em duas ruas: Maria Auxiliadora – ainda não era nem calçada -, e na Mipibú. As duas casas onde morei ainda resistem ao tempo. Que saudades do Tirol da minha infância!

Do Tirol guardo grandes recordações. Dos dias de domingo, por exemplo, os jogos de futebol no velho JL (Juvenal Lamartine). Me lembro que foi quando comecei a gostar de futebol levado pelo meu velho e querido pai para o campo – como era chamado os estádios de futebol na época. Que saudades do Tirol da minha infância!

ABC e América no JL era uma festa. O Morro do Tirol ficava lotado. Dizia-se que era a frasqueira do alvinegro. Que nada, também tinha americano. E olha que sou América! Não posso esquecer das arrancadas de Pancinha. Se encontrasse pela frente Piaba, a bola passava, mas Pancinha ficava ao chão. Naquela época jogador de futebol era conhecido pelo apelido. Não era como hoje. Que saudades do Tirol da minha infância!

E das meninas da Escola Doméstica de dona Noilde, o que dizer? Com suas fardas brancas chamavam a atenção da rapaziada da época. Do Colégio Maria Auxiliadora, da Faculdade de Jornalismo Elóy de Souza – depois Fundação José Augusto -, da Padaria São Paulo, da sede do América – a velha e depois a nova, do Aero Clube. Que saudades do Tirol da minha infância!

Dos blocos de elite – Bacurinhas, Apaches, Jardim de Infância. Depois Ressaka, Kuxixo, Puxa-Saco, enfim, velhos carnavais que não voltam mais. E dos chamados assaltos. Na minha casa sempre tinha dois, pois meus irmãos, Toinho e Maninho (in memorian) sempre saiam em blocos diferentes. Era uma festa. Que saudades do Tirol da minha infância!

Das serenatas que meu pai gostava de fazer junto com seu grande amigo Chico Lamas (in memorian) em noites de lua cheia. Das festas promovidas por meus irmãos chamadas de “assustado”. Lembro que a minha casa era um primeiro andar na Maria Auxiliadora. Os degraus da escada que dava acesso ao primeiro andar eram vazados. Quando havia “assustado” lá os amigos de meus irmãos ficavam de baixo da escada para ver as calcinhas das meninas. Que saudades do Tirol da minha infância!

Das minhas primeiras pedaladas após ter ganho uma Monark de presente de Natal. Desbravei com amigos as ruas do Tirol. Hermes da Fonseca, Trairi, Rodrigues Alves, Assu, Abdon Nunes, foram algumas delas. Minha mãe ficava louca de preocupação. Que saudades do Tirol da minha infância!

Das manhãs de domingo no Aero Clube. O banho de piscina era de praxe: meus pais junto com seu Chico Lamas e dona Iracema, sua esposa, freqüentavam o Aero e como eu era o caçula da família tinha que acompanhá-los. Que saudades do Tirol da minha infância!

Do Colégio Marista, onde aprendi as primeiras letras. Irmão Paulo era o diretor. O Marista quando comecei a estudar lá passou a ter um novo uniforme. Camisa branca de malha com o escudo no peito esquerdo simbolizando o “M” estilizado e calça azul marinho. Antes era uma camisa branca com uma calça verde. Isso na época dos meus irmãos. Do 7 de Setembro, onde fiz o Jardim de Infância, também não posso esquecer. Que saudades do Tirol da minha infância!

Dos vendedores de sorvete artesanal naquelas carrocinhas de madeira com rodas de bicicleta, dos vendedores de cavaco-chinês, dos vendedores de pirulito puxa-puxa, dos vendedores de roletes de cana que passavam na minha rua. Que saudades do Tirol da minha infância!

Das peladas de rua com amigos. Lembro que ganhei do meu pai uma bola de couro número cinco. Parecia um pinto na merda. No dia seguinte fomos inaugurar a bola num terreno baldio que ficava no pé do morro. Esse terreno passou a ser o nosso campo oficial. Quando chegava da aula era de praxe organizar uma pelada. Que saudades do Tirol da minha infância!

Ah, e a minha primeira escalada ao Morro do Tirol, hoje Parque das Dunas. Fiz a minha primeira trilha junto com os amigos da pelada. Fomos até a praia Barreira Roxa, onde hoje é o Hotel Barreira Roxa. Mãe Luiza ainda era uma pequena vila de pescadores com suas casas de taipa. O então prefeito de Natal Djalma Maranhão implantou ali uma das escolas do programa “De pé no chão também se aprende a ler”. Que saudades do Tirol da minha Infância!

Mesmo de longe, depois morando no Rio por uns vinte longos anos, me lembrava com saudades dos amigos e do Tirol. Mas o destino quis que voltasse pra Natal e novamente viesse a residir no Tirol, e ainda por cima numa rua bem próxima a que morei. Hoje moro com a minha família – esposa e três filhos – na rua Abdon Nunes. Mas, que saudades do Tirol da minha infância!

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