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Dark Horse: quase 100 dias sem explicações e a cronologia das versões de Flávio Bolsonaro sobre Vorcaro

por Ivan Longo, na Revista Fórum

8 dias depois de prometer prestar contas sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro [1] ainda não apresentou publicamente uma explicação detalhada sobre os recursos envolvidos na produção.

A promessa foi feita após a divulgação de áudios que mostraram o senador pedindo R$ 61 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro [2], preso no âmbito do escândalo do Banco Master, para viabilizar a cinebiografia do ex-presidente.

Desde então, o caso foi marcado por uma sequência de explicações diferentes apresentadas por Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Vorcaro, o contrato envolvendo o filme e a divulgação das informações financeiras da produção.

A cada nova revelação, o senador passou a apresentar uma nova justificativa: primeiro, a necessidade de esclarecer a relação com o banqueiro; depois, a afirmação de que se tratava de uma operação privada; mais tarde, a promessa de abrir as contas; e, agora, a declaração de que a prestação já teria sido feita dentro da investigação.

Contato com Vorcaro veio a público após divulgação de áudios

A crise em torno do Dark Horse ganhou força após a divulgação de áudios pelo Intercept nos quais Flávio Bolsonaro aparece conversando com Daniel Vorcaro sobre recursos para o filme.

Em um dos trechos divulgados, o senador fala sobre a necessidade de receber valores para a produção:

“Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando…”

Em outro momento, Flávio menciona dificuldades relacionadas aos pagamentos:

“…eu já tenho muita conta para pagar esse mês e o mês seguinte também.”

Após a divulgação das conversas, Flávio, que antes dizia não conhecer o banqueiro, passou a admitir que havia mantido contato com Vorcaro e confirmou que pediu recursos para a produção, mas negou qualquer irregularidade.

A explicação apresentada pelo senador passou a ser de que se tratava de uma relação privada, ligada ao financiamento de um filme privado.

“Tem como comprovar”: Flávio promete abrir contratos e explicar recursos

Com a repercussão do caso, Flávio Bolsonaro afirmou que buscaria demonstrar a aplicação dos recursos.

Em entrevista no início de maio, disse que havia pedido ao fundo responsável pelo investimento que disponibilizasse o contrato ou que a produtora apresentasse uma prestação de contas.

“Tem como comprovar. O que eu pedi hoje para o pessoal do fundo privado é que disponibilize o contrato — estão vendo se tem algum impedimento legal — ou houvesse prestação de contas por parte da produtora aqui no Brasil.”

Dias depois, em 19 de maio, veio a promessa com prazo definido.

Segundo Flávio, a produtora e o fundo seriam responsáveis por organizar uma prestação de contas transparente sobre as despesas do filme:

“Foram pedidos tanto à produtora quanto ao fundo, que eles se organizassem para fazer uma prestação de contas a todo mundo das despesas que foram feitas em função desse investimento do filme, de forma transparente, em até 30 dias.”

O prazo estabelecido pelo próprio senador venceu sem que uma prestação de contas detalhada fosse divulgada publicamente.

Promessa era explicar o dinheiro

Com o passar das semanas, a cobrança mudou de foco.

O questionamento deixou de ser apenas sobre a existência do contrato e passou a envolver a divulgação dos detalhes: quais empresas receberam recursos, quais foram os custos da produção e qual foi o destino final do dinheiro.

Mais recentemente, Flávio Bolsonaro passou a afirmar que o assunto já estava resolvido.

Questionado sobre a prestação de contas nesta segunda-feira (24), respondeu:

“A prestação de contas foi dentro da investigação que está acontecendo em São Paulo e a própria imprensa vazou. Vocês publicaram, não fui eu. Não sou eu que tenho que prestar contas…”

Na mesma entrevista, ao ser perguntado novamente sobre a relação com Vorcaro, reagiu:

“Gente, vocês vão parar no tempo? O Brasil está lambendo o chão, todo mundo está endividado. Brasil quebrado (…) e vocês querem insistir em uma relação privada sobre um filme privado que não tem contrapartida pública. Vocês não vão me colocar na página desse cara.”

A nova explicação apresentada pelo senador é que os dados já estariam disponíveis dentro de uma investigação e que a cobrança pública estaria desatualizada.

Enquanto Flávio diz que caso está encerrado, investigação avança no STF

A afirmação de que o assunto estaria resolvido ocorre enquanto novas medidas de investigação avançam.

Na segunda-feira (24), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a acessar dados [3] de uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo envolvendo a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse.

O material apreendido pela polícia paulista poderá ser utilizado pela PF em uma investigação que apura possível relação entre recursos públicos, emendas parlamentares e o financiamento do filme.

As investigações têm objetos diferentes. A Polícia Civil paulista apura suspeitas envolvendo contratos firmados pelo Instituto Conhecer Brasil com a Prefeitura de São Paulo. Já a investigação federal analisa a possível destinação de emendas parlamentares para financiar a produção.

Entre os parlamentares citados está o deputado federal Mário Frias (PL-SP), que destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil em 2024. Ele afirmou que os recursos não foram usados na produção do filme.

Quase 100 dias depois, perguntas continuam abertas

O caso chega próximo da marca de 100 dias desde a promessa de prestação de contas com uma questão central ainda sem resposta pública detalhada: quais foram os contratos, despesas e movimentações financeiras relacionadas ao financiamento do Dark Horse?

A cronologia do episódio mostra uma sequência de mudanças na forma como Flávio Bolsonaro apresentou o caso: da necessidade de explicar sua relação com Vorcaro, passando pela confirmação do pedido de recursos e pela promessa de transparência, até a afirmação atual de que as informações já teriam sido apresentadas.

Até agora, porém, os documentos completos prometidos pelo senador não foram divulgados publicamente.

Suspeita de desvio para bancar Eduardo Bolsonaro nos EUA

Além das dúvidas sobre o financiamento de Dark Horse, a investigação passou a analisar se parte dos recursos destinados ao filme pode ter sido usada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A suspeita surgiu a partir de documentos e mensagens divulgados sobre a movimentação financeira do projeto.

Segundo as informações divulgadas, recursos atribuídos ao aporte de Daniel Vorcaro teriam sido enviados para um fundo nos Estados Unidos ligado ao advogado Paulo Calixto, que tem relação com Eduardo Bolsonaro. Mensagens atribuídas ao ex-deputado também indicariam uma orientação para que fosse enviado o “máximo” possível de recursos aos EUA para a produção.

A Polícia Federal passou a investigar se esses valores foram integralmente utilizados na produção do filme ou se parte deles teria sido destinada a despesas de Eduardo Bolsonaro durante sua permanência nos Estados Unidos.

*Ivan Longo é jornalista e editor de política da Revista Fórum

Foto reproduzida da Internet

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