por Paulo Henrique Arantes, na Fórum
André Mendonça manda a Polícia Federal produzir, em curtíssimo tempo, relatório contendo flagrantes de interlocutores ainda ocultos do banqueiro-mafioso Daniel Vorcaro. A PF obedece. O relatório alveja Alexandre de Moraes e é remetido por Mendonça à Procuradoria-Geral da República para manifestação. A PGR diz que ministro do STF não pode determinar investigação de outro ministro da corte e recomenda a nulidade do relatório. Também flagrado em bate-papos fraternais com Vorcaro, na mesma documentação, teria o procurador-geral da República, Paulo Gonet, condições de emitir um parecer exclusivamente técnico sobre o caso? Situação inusitada.
De todo modo, as reproduções de conversas em aplicativo de mensagens revelam muito mais proximidade entre Moraes e Vorcaro do que se imaginava. “Especialistas” afirmam que o conteúdo demanda abertura de processo disciplinar ou, quiçá, exoneração envergonhada de Moraes. Com o sigilo da papelada levantado, a imprensa liga o modo “escândalo”. O Estadão publica editorial intitulado “Moraes tem de sair do STF”. Silas Malafaia batiza de “Fora, Moraes!” o ato público dos reacionários marcado para 7 de setembro. Sintomaticamente, fala-se em CPI, impeachment e outras modalidades de holofote.
Antirrepublicano, antiético e afrontoso à Lei Orgânica da Magistratura – ainda não se pode afirmar criminoso -, o relacionamento de Alexandre de Moraes com o Daniel Vorcaro mancha, talvez de modo indelével, a imagem do juiz que, Constituição e Código Penal à mão, se pintou para a guerra e reduziu golpistas a pó, não sem a chancela do colegiado que integra. De outra parte, do alto de uma amizade-quase-amor com a família Bolsonaro, André Mendonça exerce tanto uma judicatura célere, dura e intempestiva quando o ônus político recai sobre os democratas, quanto outra, pusilânime, quando o prejuízo alcança a principal candidatura da direita, onde estão seus irmãos em Deus (o deles). Dark Horse virou Slow Horse no gabinete de Mendonça.
O jogo jogado hoje no STF, com André Mendonça dando as cartas, refletir-se-á nas eleições, e talvez ele ocorra justamente para isto: forjar o caos institucional, semear tumultos, indignações e revoltas, construindo o cenário preferido dos bolsonaristas. Resta onisciente a Polícia Federal: a turma do colete preto sabe de tudo e pode quase tudo. Suas divisões internas, com aparente perda de força do diretor-geral Andrei Rodrigues, remetem à época da esquecida Operação Satiagraha.
Vale lembrar como o então diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, foi enredado numa teia de grampos nunca tornados públicos, em especial aquele sobre o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. À frente da Satiagraha estava o delegado Protógenes Queiroz, que entrou na política. Os vilões da época eram o banqueiro Daniel Dantas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o especulador Naji Nahas.
Em síntese, o desfecho da Satiagraha foi o encerramento da maioria das ações penais devido à anulação de provas pelo uso indevido de grampos e participação irregular de agentes da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin. Paulo Lacerda foi afastado do cargo e “premiado” com o posto de adido policial em Lisboa – uma forma de o governo mostrar reação contra a ilegalidade dos grampos que teriam atingido o STF. Nunca se provou que Lacerda ordenara ou autorizara o grampeamento de membros do tribunal. Protógenes também não foi formalmente responsabilizado pelos grampos, mas acabou condenado por violação de sigilo funcional – vazamentos, enfim.
É nítida a divisão interna da Polícia Federal, especial destaque para a banda que vaza diuturnamente para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, aparentemente com a complacência do ministro-relator dos casos Master e INSS. Num improvável governo Flávio, qual seria o poder da PF? Certamente, o grupo vazador seria empoderado.
Falecido recentemente, o icônico criminalista Paulo Sérgio Leite Fernandes descreveu a este jornalista, há anos, o status alcançado pela Polícia Federal. Acertou naquela época, e acertaria se o dissesse agora: “A Polícia Federal é dona dos segredos da Nação. Em qualquer setor da nossa convivência humana, há sempre o grupo dos illuminati”.
*Paulo Henrique Arantes é jornalista e escreve para a Fórum
Foto reproduzida da Internet