Por Helena Chagas, no Blog do Noblat
Nada mais parecido com um processo de impeachment do que outro processo de impeachment, diz o senso comum. Sobretudo quando o Supremo Tribunal Federal determina que o Congresso siga o mesmo rito de 24 anos atrás. Só que não. Quem teve a sorte – ou, talvez, a falta dela – de acompanhar dois impeachments presidenciais no curto período de uma geração pode apontar hoje diferenças abissais entre os cenários de 1992 e de 2016. A onda hoje é contrária à Dilma Rousseff e aponta uma possível aprovação do impeachment no domingo. Nada indica, porém, que este será o capítulo final, como foi na novela de Collor.
Impeachments nunca são mesmo finais felizes. Ainda que sob as regras da Constituição, é sempre traumático afastar do cargo alguém eleito por milhões e milhões de votos. O sentimento é de frustração. Mas, em tese – e também pela experiência que tivemos por aqui – representam recomeços, chances de o país dar a volta por cima e se reconstruir.
Assim foi com Fernando Collor naquele 29 de setembro. Dois dias depois de seu afastamento, assumia Itamar Franco, com seu topete e o ministro da Fazenda, Gustavo Krause, a tiracolo. Em menos de um mês, tinha a equipe completa trabalhando e ocupando as manchetes dos jornais. Quando chegou o julgamento presidencial no Senado, em 29 de dezembro, e Collor finalmente renunciou, a vida do país parecia ter voltado ao normal e ninguém se lembrou dele.
Embora, naquela época, os partidos políticos tenham se dividido em torno do governo, não houve oposição. Luiz Inácio Lula da Silva não participou da administração mas deu trégua a Itamar. O PMDB não entrou no ministério mas deu apoio no Congresso. O PSDB mergulhou de cabeça no governo Itamar e acabou saindo do outro lado da piscina, em 1994, com Fernando Henrique Cardoso presidente da República.
Ninguém foi às ruas protestar ou pedir a sua volta, pois o movimento que levou ao afastamento, por corrupção, do primeiro presidente da República eleito pós-ditadura era uma espécie de unanimidade nacional. A falta de contestação e a inexistência de uma base social de apoio ao presidente facilitaram as coisas no Congresso.
Na Comissão Especial da Câmara, o parecer do relator Nelson Jobim foi aprovado por 32 votos contra apenas um – o do leal pefelista mineiro Humberto Souto. Os outros 15 governistas não apareceram. No plenário, 441 dos 14 presentes votaram pelo afastamento de Collor, que se foi sem choro nem vela e nem fita amarela.
Dificilmente esse será o cenário no pós-impeachment da titular do quarto mandato seguido do PT no país. Já ficou claro que o afastamento de Dilma Rousseff divide o país, e essa divisão se refletiu da comissão da Câmara (38 a 27) e possivelmente se manifestará no plenário, onde ela deverá ter uma fatia de votos bem superior a de Fernando Collor.
A tendência hoje é claramente desfavorável à presidente, até porque já ficou claro, nas ruas e nas pesquisas, que a maioria está do outro lado. Embora minoritários, porém, os movimentos que ainda apóiam o PT do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vão deixar de fazer barulho, e o acirramento de ânimos que se vê hoje na sociedade tende continuar. Afinal, a parcela de 20% que Lula tem hoje nas pesquisas pode não ser suficiente para ganhar eleição, mas pode atrapalhar muito o governo, qualquer que seja ele.
A imagem de uma Dilma recolhida à Casa da Dinda – que poderá ser o próprio Alvorada –, esperando quieta o julgamento no Senado, também não cabe no quadro que começa a se esboçar. A própria presidente mostrou que cairá atirando e disse a jornalistas que vai lutar até os 45 minutos do segundo tempo, que é o julgamento final no Senado.
Ninguém com um mínimo de experiência política acredita na possibilidade de presidentes afastados pela maioria de dois terços da Câmara retornarem aos cargos, pelas mãos do Senado, depois de meses de governo de um substituto que terá a faca, o queijo e a caneta na mão. O drama, porém, é que, nas atuais condições de temperatura e pressão, diferentemente do que ocorreu com Itamar Franco, Michel Temer só será presidente de verdade, com plena governabilidade, depois que virar essa página – o que poderá levar até 180 dias. A pergunta que não quer calar hoje é se a economia agüenta e se o país suporta mais seis meses de luta entre coxinhas e mortadelas.
*Helena Chagas é jornalista desde 1983. Exerceu funções de repórter, colunista e direção em O Globo, Estado de S.Paulo, SBT e TV Brasil. Foi ministra chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (2011-2014). Hoje é consultora de comunicação