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De Roberto DaMatta, em O Globo

Eu estou me lixando para você, leitor

– Se eu digo isso o jornal me despede; se um comerciante tem essa atitude, ele vai à falência; se um pai de santo, ministro, rabino ou sacerdote repete o mote, ele faz suas orações sozinho e não salva ninguém, se um professor adota esse credo, ele não merece dar cursos; do mesmo modo que um médico, um juiz, um policial, um engenheiro e um advogado deixariam morrer doentes, perderiam o senso da justiça, do limite e da eficiência.

Seria o fim deste nosso mundo chamado de moderno, e olha que eu estou apenas mencionando as profissões mais estabelecidas.

Quando um membro do Parlamento , um servidor público importantíssimo e privilegiado porque representa uma massa de desejos e esperanças de uma região do país diz que está “se lixando para a opinião pública”, como fez o deputado federal Sérgio Moraes, do PTB do Rio Grande do Sul, ele não fala apenas uma triste verdade; ele revela a nossa ignorância do que é viver numa sociedade democrática e liberal. O credo do “estou me lixando” não é privilégio do deputado gaúcho, mas  da hierarquia existente entre os que têm poder e nós, as pessoas comuns. Ela foi dita por Sérgio Moraes, mas está implantada no imenso vazio existente entre as formalidades – as tais instituições e leis, que vão resolver tudo e são feitas por ideologias, governos e decretos – e as crenças e práticas antigas que ainda comandam com força o nosso sistema. A questão não é de denunciar a clara arrogância do parlamentar, o problema é tomá-la como um claro sintoma da total separação entre o lado de lá e o lado de cá do balcão. Pois quando parlamentares se lixam para a opinião pública eles perdem a consciência de que foram por eles eleitos! (…)

Obs do blog: O trecho acima foi tirado de um artigo publicado hoje no jornal O Globo

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