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Decisões do Itamaraty sobre a Argentina são corretas, pedagógicas e ensinam que o Brasil não mantém relações de alto nível com fascistas que envergonham seus povos

por Leonardo Attuch, no Brasil 247

As decisões tomadas pelo Itamaraty em relação à Argentina são corretas, necessárias e, acima de tudo, pedagógicas. Ao retirar seu embaixador de Buenos Aires, reduzir a representação diplomática brasileira ao nível de encarregado de negócios e dispensar o embaixador argentino em Brasília, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou uma mensagem cristalina: o Brasil não mantém relações políticas de alto nível com chefes de Estado que fazem da ofensa pessoal e da agressão institucional um método de governo.

As declarações de Javier Milei não atingem apenas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao insultar o chefe de Estado brasileiro com expressões incompatíveis com a liturgia do cargo, Milei agride os mais de 60 milhões de brasileiros que o elegeram, desrespeita o Estado brasileiro e afronta todo um povo. Entre nações civilizadas, divergências políticas existem e sempre existirão. O que não existe é espaço para que um presidente transforme a diplomacia em um palco de insultos pessoais.

O comportamento de Milei também precisa ser compreendido dentro do contexto interno argentino. Seu governo enfrenta crescente desgaste político e social, e pesquisas recentes apontam elevados índices de desaprovação, que já se aproximam de 70%, em razão da destruição econômica e social produzida por suas políticas. Nesse cenário, a escalada verbal contra o Brasil parece funcionar como instrumento de distração diante das dificuldades domésticas, deslocando o debate público para um confronto externo.

Ao mesmo tempo, Milei assumiu um papel de destaque na articulação internacional da direita radical que hoje compõe uma espécie de Internacional Fascista. Sua proximidade política com Donald Trump e com outras lideranças desse campo ideológico o coloca como um dos principais aliados desse movimento na América Latina. Em vez de construir pontes entre países vizinhos, opta pela confrontação permanente, alimentando tensões que não servem aos interesses dos argentinos nem dos brasileiros.

É importante lembrar que o presidente Lula jamais confundiu divergências políticas com responsabilidades de Estado. Mesmo após a posse de Milei, o Brasil colaborou com a Argentina em momentos delicados, inclusive durante a crise de abastecimento de gás que ameaçou o país vizinho. Essa postura reafirma uma tradição da política externa brasileira: a solidariedade institucional prevalece sobre diferenças ideológicas quando estão em jogo interesses nacionais e a estabilidade regional.

O Itamaraty é reconhecido internacionalmente como uma das mais respeitadas escolas de diplomacia do mundo. Essa reputação foi construída sobre princípios permanentes, entre eles o respeito entre Estados soberanos. Não há diplomacia possível quando um chefe de governo transforma ataques pessoais em política oficial. O rebaixamento das relações, portanto, não representa um rompimento com a Argentina, mas a reafirmação de um princípio elementar da convivência internacional: respeito mútuo é condição para relações de confiança.

Nada disso significa hostilidade ao povo argentino. Pelo contrário. Brasil e Argentina compartilham uma história de integração econômica, cultural e política que ultrapassa governos e conjunturas. Os laços entre as duas sociedades permanecem sólidos e continuarão sendo estratégicos para toda a América do Sul.

Projetos estruturantes, como a integração energética baseada no gás de Vaca Muerta e a ampliação da infraestrutura comum entre os dois países, continuam fazendo sentido econômico e geopolítico. Essas iniciativas poderão voltar a avançar plenamente quando houver um ambiente de normalidade institucional e de respeito recíproco entre os governos – o que é impossível enquanto a Argentina seguir sob o comando do desclassificado Milei.

É significativo observar que muitas das críticas mais duras a Javier Milei partem da própria Argentina. Lideranças políticas, economistas, acadêmicos, intelectuais e diversos setores da sociedade têm manifestado preocupação com o impacto de seu estilo de governo sobre a imagem internacional do país – e até mesmo com suas condições mentais. Independentemente das disputas partidárias, cresce a percepção de que a presidência argentina atravessa um período de forte isolamento diplomático e delírios psicóticos.

Governos passam. Nações permanecem. Javier Milei não representa a história da Argentina, tampouco definirá permanentemente sua relação com o Brasil. Em algum momento, esse ciclo terminará. Quando isso ocorrer, brasileiros e argentinos voltarão a construir, como sempre fizeram, uma parceria baseada no respeito, na cooperação e na integração regional.

As decisões do Itamaraty não são um gesto de hostilidade. São uma lição diplomática. Demonstram que o Brasil sabe distinguir um governo de um povo e que a defesa da dignidade nacional não é incompatível com a preservação da amizade entre duas sociedades que compartilham uma história comum. Ao agir com firmeza e serenidade, a diplomacia brasileira reafirma uma verdade simples: respeito não é um detalhe da política externa; é o seu fundamento.

* Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “De jornalista a youtuber”, “A CPI que abalou o Brasil”, “Saddam, o amigo do Brasil”, “Eike, o homem que vendia terrenos na lua” e “Quebra de contrato”

Foto reproduzida da Internet

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