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A tentativa de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, de fechar um acordo de delação premiada enfrenta crescente resistência de investigadores da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República. Segundo reportagem [1] publicada por O Globo, autoridades avaliam que o banqueiro ainda não apresentou colaboração efetiva suficiente para justificar benefícios judiciais em eventual condenação.
Vorcaro assinou há cerca de dois meses um termo de confidencialidade para iniciar negociações de colaboração premiada, mas a primeira proposta formal apresentada por sua defesa, em 5 de maio, foi considerada insuficiente. A avaliação dos investigadores é que o conteúdo obtido em celulares do próprio banqueiro, de seu cunhado Fabiano Zettel e do ex-operador Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, contém muito mais informações do que aquelas reveladas até agora nas tratativas.
Entre os pontos omitidos estaria a suposta mesada paga ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), em valores que chegariam a R$ 500 mil mensais. As investigações apontam que o parlamentar teria recebido vantagens financeiras e benefícios atribuídos ao dono do Banco Master.
A PF descreve Ciro Nogueira como “destinatário central” de favores financeiros ligados ao banqueiro. Entre os benefícios investigados estariam o uso de imóvel em São Paulo e o custeio de viagens internacionais, incluindo hospedagens, restaurantes e voos privados. A defesa de Vorcaro afirmou que não comentaria o caso. Já a defesa de Ciro declarou que “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”.
Outro tema ausente da primeira proposta de colaboração envolve conversas entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República. Segundo revelações do Intercept Brasil, houve tratativas para financiar um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, em um projeto que poderia alcançar R$ 124 milhões.
Flávio Bolsonaro admitiu as conversas com o banqueiro, mas nega qualquer irregularidade. Para investigadores, porém, a ausência desses episódios no material inicialmente apresentado reforça a percepção de que Vorcaro ainda resiste a entregar informações consideradas centrais para a investigação.
Pressão cresce sobre o banqueiro
O avanço das investigações ampliou a pressão sobre o dono do Banco Master. Um dos fatores mais sensíveis foi a prisão de Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro da chamada “Turma”, grupo descrito como braço armado da suposta organização criminosa investigada.
Segundo a PF, Henrique Vorcaro teria atuado como “demandante e beneficiário” de ações destinadas a intimidar adversários do banqueiro. Os investigadores também sustentam que uma conta bancária em nome do pai teria sido utilizada para ocultar R$ 2,2 bilhões de credores e vítimas das fraudes financeiras apuradas.
A defesa de Henrique Vorcaro classificou a prisão como “grave” e “desnecessária”.
Outro ponto que pesa contra o banqueiro é a possibilidade de retorno ao sistema penitenciário federal. Durante as negociações da delação, Vorcaro havia sido transferido para uma cela da Superintendência da Polícia Federal em Brasília, em condições menos rígidas. Agora, porém, a corporação solicitou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que o banqueiro volte ao presídio federal de segurança máxima.
Corrida entre delatores preocupa defesa
Enquanto as negociações de Vorcaro avançam lentamente, outros investigados já iniciaram movimentações para fechar acordos de colaboração premiada, criando uma corrida entre os envolvidos no caso.
A situação mais avançada é a do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, preso sob suspeita de negociar propina de R$ 146 milhões em imóveis para favorecer operações financeiras envolvendo o Banco Master.
Segundo pessoas ligadas às negociações, Costa deve assinar nesta semana um acordo de confidencialidade com as autoridades. A expectativa é que os anexos de sua delação sejam apresentados em junho.
Investigadores acreditam que o ex-presidente do BRB poderá detalhar o “caminho do dinheiro” no Brasil e no exterior, além de apresentar informações sobre recursos mantidos fora do país e sobre agentes públicos envolvidos nas negociações entre o banco estatal e o Master.
As investigações da PF apontam para a existência de uma organização criminosa criada para viabilizar a fabricação, venda e cessão de carteiras de crédito fictícias do Banco Master ao BRB. Segundo a apuração, uma operação de R$ 12,2 bilhões entre as instituições teria sido realizada por “pura camaradagem”, como forma de “abafar a fiscalização” do Banco Central.
Delações podem se complementar
Integrantes da investigação afirmam que uma eventual delação de Paulo Henrique Costa não inviabiliza a colaboração de Vorcaro, mas alertam que quem fechar acordo depois precisará apresentar fatos inéditos e relevantes.
A avaliação dentro da PF é que o tempo joga contra o dono do Banco Master. Quanto mais informações surgirem por meio de outros delatores e da análise de documentos e celulares apreendidos, menor tende a ser o valor jurídico de uma colaboração futura de Vorcaro.
Costa, segundo relatos obtidos pelos investigadores, já vinha se preparando há meses para cooperar com a PF. Antes da prisão, ele circulava em Brasília carregando uma pasta com documentos e chegou a desenvolver um sistema de inteligência artificial para localizar mensagens armazenadas em seu celular por temas e personagens.
Após iniciar as tratativas para delação, Paulo Henrique Costa foi transferido do Complexo Penitenciário da Papuda para uma instalação conhecida como “Papudinha”, unidade da Polícia Militar do Distrito Federal com regras mais flexíveis e melhores condições para reuniões com advogados.
Foto reproduzida da Internet