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aniel Vorcaro [1], controlador do Banco Master, prestou depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça [2], do Supremo Tribunal Federal (STF), no mesmo dia em que deveria ser ouvido pela Polícia Federal (PF) no âmbito da investigação sobre fraude financeira.
A oitiva com o gabinete de Mendonça [3] ocorreu em uma quinta-feira, 27 de agosto, dentro da Papudinha, em Brasília, onde Vorcaro está preso. O depoimento foi conduzido pelo juiz auxiliar João Azambuja e contou com a participação de um representante do Ministério Público Federal (MPF), mas não teve a presença de policiais federais responsáveis pela investigação.
O encontro passou a ser considerado um “depoimento secreto” porque não houve divulgação oficial prévia ou imediata sobre sua realização, como costuma ocorrer com atos processuais de interesse público, e porque a oitiva ocorreu fora do procedimento conduzido pela Polícia Federal, que investigava o caso. A audiência só veio a público após reportagens desta quarta-feira (2) revelarem a existência do depoimento e as circunstâncias em que ele ocorreu.
Na mesma manhã, estava marcado o depoimento de Vorcaro à PF, por videoconferência, no inquérito que apura a suspeita de que ex-supervisores do Banco Central teriam atuado para favorecer o Banco Master.
No horário previsto para o depoimento à PF, o banqueiro não entrou na videoconferência [4]. A justificativa apresentada foi uma suposta falha técnica na conexão da unidade prisional, motivo pelo qual o depoimento foi adiado. Na prática, enquanto a PF aguardava a conexão para ouvir Vorcaro, o banqueiro estava prestando depoimento ao gabinete do ministro do STF.
A Polícia Federal realizou a nova oitiva de Vorcaro na sexta-feira (28), desta vez formalmente dentro da investigação conduzida pela corporação.
A justificativa de Mendonça
O gabinete de André Mendonça afirmou que o depoimento foi realizado a pedido da defesa de Vorcaro, que teria relatado estar sofrendo “graves intimidações” e solicitado ser ouvido com urgência.
Em nota [5], o gabinete afirmou que a ausência da Polícia Federal seguiu orientações relacionadas à proteção da integridade física e psicológica do depoente e citou resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a realização de determinados tipos de audiência.
“O afastamento da equipe policial responsável pela investigação” teria ocorrido, segundo o gabinete, como uma medida de proteção e “não qualquer escolha de conveniência do gabinete”.
A realização de um depoimento de Vorcaro sem a presença dos investigadores provocou questionamentos entre integrantes da PF. Uma das hipóteses levantadas nos bastidores é que a audiência poderia estar relacionada a uma eventual negociação de colaboração premiada do banqueiro, embora não haja confirmação pública de que esse tenha sido o objetivo da oitiva.
Encontro entre Vorcaro e Mendonça
A audiência no gabinete de Mendonça veio à tona no mesmo dia da divulgação de mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro que revelaram uma reunião entre o banqueiro e o ministro do STF em março de 2025.
O encontro foi divulgado pelo jornalista Paulo Motoryn, da newsletter Noites Húngaras, e teria sido articulado pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).
Segundo os registros divulgados, a aproximação começou em fevereiro de 2025. Em uma das mensagens enviadas ao banqueiro, Ciro escreveu: “Tô com André M.”.
No dia seguinte, o advogado enviou uma fotografia ao lado do ministro e afirmou, em áudio: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”.
Em outro áudio, segundo o material divulgado, Ciro afirmou que Mendonça tinha conhecimento da situação envolvendo o Banco Master e que queria receber Vorcaro.
“Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele”, afirmou o advogado, de acordo com os registros divulgados.
A reunião presencial ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, no endereço de um instituto fundado por Mendonça, e teria durado cerca de duas horas.
Banco Master já estava sob investigação quando Vorcaro procurou Mendonça
O encontro entre Vorcaro e Mendonça ocorreu em um momento em que o Banco Master já estava no radar das autoridades.
A Polícia Federal havia iniciado em 2024 uma apuração envolvendo Daniel Vorcaro e operações relacionadas ao banco, a partir de uma solicitação do Ministério Público Federal.
A investigação inicial envolvia suspeitas sobre emissão e negociação de carteiras de crédito sem lastro ou consideradas insubsistentes, além de questionamentos encaminhados ao Banco Central sobre possíveis irregularidades nas operações da instituição.
A dimensão das suspeitas veio posteriormente a público com a Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025.
Cronologia também envolve aportes no filme Dark Horse
As revelações sobre a relação entre Vorcaro e Mendonça também chamaram atenção pela coincidência temporal com os aportes realizados pelo banqueiro no filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro articulada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O primeiro repasse conhecido de Vorcaro para um fundo ligado ao filme ocorreu em 13 de fevereiro de 2025, uma semana após o início das articulações para aproximá-lo de Mendonça.
Os aportes aconteceram enquanto o banqueiro negociava a expansão do Banco Master e uma operação envolvendo o Banco de Brasília (BRB).
André Mendonça foi indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro em 2021 e atualmente relata no STF questões relacionadas ao Banco Master e ao Dark Horse.
A cronologia, por si só, não comprova relação entre os acontecimentos nem indica irregularidade. Mas os episódios passaram a integrar o debate público após a divulgação das mensagens, do encontro de março de 2025 e da informação sobre o depoimento prestado por Vorcaro ao gabinete do ministro sem a presença da Polícia Federal.
Foto reproduzida da Internet