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Destaque das revistas

IstoÉ

As cirurgias espirituais de João de Deus

Abadiânia, cidade goiana distante 78 quilômetros do Distrito Federal, é desprovida de encantos. Não há cinema, teatro, sequer shopping center para entreter seus 13 mil habitantes. Mesmo assim, há mais de 30 hotéis no município e uma concentração de visitantes estrangeiros de causar inveja aos grandes polos turísticos nacionais. O poder de atração dessa localidade de chão batido e ar seco incrustada no cerrado brasileiro é um senhor corpulento, de roupas eternamente brancas e amarfanhadas, 1,80 metro e olhos de um azul profundo conhecido no Brasil por João de Deus. Ou John of God, para seu séquito de seguidores internacionais, que atravessam o oceano em busca de cura para seus males. Há 54 anos, João Teixeira de Faria, 69 anos, analfabeto funcional que nasceu em Cachoeiro da Fumaça (GO), filho de um alfaiate e uma dona de casa, caçula de seis irmãos, é um dos mais famosos e respeitados médiuns em atividade no mundo. Cerca de nove milhões de pessoas, segundo sua própria contabilidade, já se deslocaram até o interior de Goiás para se submeter a suas cirurgias espirituais, uma prática cada vez mais difundida no Brasil. Anônimas e famosas, dos mais variados quilates. O mais recente paciente estrelado é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em tratamento de um câncer na laringe.

São necessárias algumas poucas horas em Abadiânia para colecionar relatos de pessoas que mudaram suas vidas sob o impacto do encontro com João de Deus. Médicos renomados que largaram consultórios na Europa para se tornarem assistentes espirituais, executivas de alto escalão que viraram donas de pequenos estabelecimentos comerciais na cidade só para ficar perto dele. Além dos incontáveis relatos de cura de doenças – tumores, dores crônicas, paralisias… A saga do líder espiritual goiano já atravessou fronteiras e foi tema de programa da apresentadora americana Oprah Winfrey (“Você acredita em milagres?) e do canal fechado Discovery Channel, entre outros. Sua fama e seu poder ganharam dimensões continentais e são infinitamente maiores do que o local que ele escolheu para exercê-los. Discreto como ele.

Época

A vida, as ideias e as angústias do ministro de maior longevidade nos governos do PT

Dezembro foi cruel, no plano pessoal, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Trouxe-lhe a dura notícia de um câncer em sua mulher e mãe de seu quarto filho, a psicanalista Eliane Berger Mantega. O susto chegou no começo do mês. Abaladíssimo, Mantega praticamente se transferiu para São Paulo. Informou a presidente Dilma Rousseff, que já pulou essa fogueira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que está se tratando da mesma doença –, alguns poucos amigos e decidiu, firmemente, em comum acordo com a mulher, que não divulgaria o fato. Num círculo restrito à Presidência da República, já se comenta a possibilidade de que Mantega saia do governo, se considerar que a doença da mulher torne isso necessário. Como a presidente Dilma tem outro homem de confiança na Fazenda – o número dois, Nelson Barbosa, secretário executivo da Fazenda –, a eventual mudança, mesmo considerada indesejada, não chega a assustar.

No dia 2 de dezembro, quando recebeu ÉPOCA para a primeira de duas entrevistas – uma na sede da Presidência da República em São Paulo, outra no gabinete ministerial, em Brasília –, Mantega vestia, como sempre, um terno bem cortado. Abriu um sorriso quando recebeu elogios pela bem-disposta aparência e comentou, com uma pitada de desconcerto: “Precisa ver como é que está por dentro, precisa ver como é que está por dentro. E se estiver tudo detonado?”. Ele já vivia o drama familiar – do qual não deu a mais remota pista nas duas entrevistas. Um de seus bons amigos dos tempos de universidade, militância política e caratê é o hoteleiro paulistano Fábio Iunesco. “O Guido é um samurai”, diz Iunesco, em seu hotel da Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo. “Nunca o vi ficar deprimido, nem nos momentos ruins. Ele toma o golpe, assimila e vai.”

CartaCapital

O caçador de almas perturbardas

Horácio de Souza Neto é um homem alto e troncudo de 35 anos que não crê nos atribuídos poderes de São Miguel Arcanjo, ainda que defina seu ofício como o “resgate de almas perturbadas”. Não do purgatório, mas da Cracolândia e das bocas de fumo espalhadas por São Paulo, apressa-se a explicar com o olhar fixo dos pragmáticos ao extremo.

Enfermeiro e pesquisador em dependência química pela Unifesp, ele aproveitou o know-how para abrir a Intervem, empresa que oferece o serviço bem específico de resgate para as famílias de viciados em crack. Ele encontra os dependentes, aborda-os “de forma a sensibilizá-los” e os encaminha, “com ou sem consentimento”, para alguma clínica ou unidade comunidade terapêutica. Uma ascensão peculiar ao paraíso.

“Muitas vezes a família sabe onde o dependente químico está ou costuma comprar droga, mas tem medo de entrar nas ‘biqueiras’ das favelas ou da Cracolândia, em meio a usuários e traficantes”, diz Horácio, enquanto caminha pelas ruas agora menos populosas da região. Os pedidos de internação involuntária só podem ser feitos pela família e precisam do aval de um médico. “Normalmente, quem nos procura são pais de usuários que já foram submetidos a tratamento, mas tiveram recaídas. Muitos abandonam o lar e passam a morar na rua ou em cortiços. Nesses casos, os médicos fazem uma prescrição por solicitação familiar.” Uma vez localizado o alvo, Horácio e dois enfermeiros ou técnicos de enfermagem, “mais fortes do que eu, com certeza”, chegam ao local da abordagem com uma ambulância. Eventualmente, um médico designado pela família acompanha a intervenção. O valor do serviço varia de 1,2 mil a 2 mil reais, dependendo do número de agentes e da distância do ponto de resgate.

Mais de cem dependentes químicos já foram encaminhados para tratamento pelo seu grupo nos últimos cinco anos, calcula. Horácio diz jamais ter falhado. “É como se diz no filme Tropa de Elite: ‘missão dada, missão cumprida’. Alguns usuários, movidos pela compulsão da droga, resistem inicialmente. Então a gente conversa bastante, tenta convencer. Raramente é preciso usar a força. Até porque os enfermeiros são fortinhos. Isso costuma sensibilizá-los.”


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