Época
Eleição à venda
Na lista das profissões em extinção num Brasil que se moderniza, está o carroceiro. Os poucos que resistem evocam gravuras de Debret (1768-1848), o pintor francês que fez a crônica visual do Brasil Colônia. No tempo de Debret, eles transportavam tonéis de água num Rio de Janeiro onde não havia saneamento básico. No Brasil de hoje, puxam pesadas carroças de lixo reciclável, em troca de vencimentos que raramente chegam ao salário mínimo. Na cidade mineira de Betim, município da Grande Belo Horizonte, um carroceiro ganha em média R$ 600 por mês. Para ele, R$ 280 fazem diferença no orçamento.
É essa a quantia que o candidato Carlaile Pedrosa (PSDB) paga a carroceiros em troca de apoio político – como mostra um vídeo obtido com exclusividade por Época e que evoca, na era da urna eletrônica, o Brasil do tempo das carroças. As imagens abaixo mostram Carlaile, postulante à cadeira de prefeito de Betim, chegando de carro a um bairro pobre da cidade.
O Rio de Janeiro de 2012, cidade que se prepara para receber uma Olimpíada e uma final da Copa do Mundo, também tem práticas eleitorais que lembram o Brasil das carroças. Um relatório obtido com exclusividade por Época revela como as milícias – brigadas fora da lei que vendem proteção e outros serviços em bairros pobres – cobram pedágio de candidatos que querem fazer campanha em seus “territórios”.
IstoÉ
Agora, José Dirceu
Em cinco semanas do julgamento do mensalão, com 23 sessões que somaram 200 horas, o Supremo Tribunal Federal já definiu muita coisa sobre o escândalo político denunciado sete anos atrás. Com os votos proferidos até agora, os ministros do STF mostraram que o esquema de corrupção foi abastecido com dinheiro público e que uma “sofisticada organização criminosa” se valeu de empréstimos fictícios no Banco Rural e recorreu a esquemas de lavagem de dinheiro para esconder seus delitos.
Agora, a partir desta semana, chegou a vez de mirar o chamado “núcleo político” do mensalão identificado pela Procuradoria-Geral da República. Ou seja, é a hora H para uma turma de homens públicos liderados, conforme a acusação, pelo ex-todo-poderoso ministro da Casa Civil do governo Lula José Dirceu. Depois de descrever como funcionava o conluio do mensalão, os ministros do Supremo vão mostrar quem mandava nele. De início, o Tribunal vai tratar do pagamento de propinas a políticos da base aliada do governo. Nesse capítulo, Dirceu será julgado por corrupção ativa.
A sistemática que vem sendo adotada no julgamento e o conteúdo dos votos dos ministros do STF não favorecem José Dirceu. Pelo contrário. Seguindo a eficiente estratégia de “fatiar” o julgamento, proposta pelo relator, ministro Joaquim Barbosa, o Supremo aceitou os principais pontos da tese da denúncia. Com o processo analisado por capítulos, cada condenação acabou dando lógica e suporte ao julgamento do item seguinte. Por isso, na semana passada, pela primeira vez, Barbosa já vinculou Dirceu ao repasse de dinheiro do esquema, influenciando também os demais ministros. Como se vê, seu futuro não parece nada alvissareiro.
A perda de espaço de Dirceu no governo faz parte de um processo de esvaziamento de poder que começou no início do governo Dilma e se intensificou nos últimos meses. Técnicos do PT confirmaram à ISTOÉ que o total de funcionários do primeiro ao terceiro escalão, considerados da cota de Dirceu, caiu de aproximadamente 1,5 mil indicados para menos de mil. A derrota mais recente do ex-ministro no coração do poder em Brasília foi a tentativa dele de colocar um apadrinhado no posto de secretário-executivo da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, comandada pela ministra Helena Chagas. Com a aposentadoria da funcionária de carreira do Banco do Brasil Yole Mendonça, Dirceu procurou emplacar o deputado André Vargas (PT-PR), secretário de Comunicação do PT. Fez isso de olho na gestão dos milionários contratos de publicidade institucional do governo. Mas fracassou. Helena Chagas prefere negar a ofensiva.
Disse o procurador que, entre as quatro paredes de um palácio presidencial, estariam sendo celebradas tenebrosas transações. É claro que vossa excelência não poderia afirmar que o presidente fosse um pateta. Que sob suas barbas isto estivesse acontecendo e ele não sabia de nada. O presidente é safo. Não só é safo como também é doutor honoris causa em algumas universidades. Mas é um pateta? É claro que não. Não só sabia como ordenou o desencadeamento de tudo isso. Sim, ele ordenou. Aqueles ministros eram apenas executivos dele. Recebida a denúncia, o procurador deixou o patrão de fora. Por que fez isso? Vossa excelência é que tem de informar”, disse o advogado, que falou por 40 minutos em defesa de Jefferson.
CartaCapital
Pela qualidade
Por Mino Carta
Terça, 11 de setembro de 2012. Onze anos se passaram desde a tragédia das Torres Gêmeas, enredo monstruoso do ódio e da insensatez. Naquele dia distante e sempre vivo, havia três semanas CartaCapital sofrera uma mudança decisiva. Nascida como mensal, tornara-se quinzenal em março de 1996 e enfim semanal no fim de agosto de 2001. Naquele momento entendemos por completo o que de fato significava o rumo recém-tomado.
CartaCapital acaba de completar 18 anos, a serem celebrados na festa marcada para 1º de outubro próximo, juntamente com a tradicional cerimônia destinada à entrega dos troféus das empresas e dos empresários e executivos mais admirados no Brasil. Levamos sete anos para atingir o projeto inicial, a semanal. Neste período, tivemos de vencer a escassez de recursos a me acompanhar faz 36 anos, a partir do dia em que deixei a direção de Veja. Contei com a coragem e os meios, por mais escassos, primeiro da Editora Três de Domingo Alzugaray, depois da Carta Editorial dos meus sobrinhos Andrea e Patricia.
Foram 36 anos intensos de empolgação profissional e de aprendizado diligente, e até humilde, em busca de uma fórmula viável em tempo das nossas vacas magérrimas, sem risco para a prática do jornalismo honesto. No caso de CartaCapital, buscamos produzir uma semanal de qualidade para um público idem. Tratou-se de caminho oposto àquele perseguido, salvo raras exceções, pela mídia nativa, confiante ao apostar na mediocridade da plateia, quando não na ignorância, donde disposta, com inesgotável determinação, a abaixar o nível e obscurecer o cenário. De caso pensado e transbordante vocação para tanto.
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