CartaCapital
A ‘tese do novo’ vence a eleição. Ganhe quem ganhar
Por Piero Locatelli
A militância petista costuma dizer que o partido é “bom de chegada”. O desempenho da legenda no segundo turno das eleições municipais deste ano parece corroborar a tese: candidatos do PT podem ganhar em 15 das 22 cidades nas quais disputam o segundo turno, de acordo com pesquisas eleitorais de diversos institutos.
No universo das 50 cidades que irão às urnas no próximo fim de semana, o PSDB aparece atrás do PT e deve ser o segundo maior vencedor, com oito prefeituras. Entre elas, se as pesquisas não estiverem erradas como no primeiro turno, duas capitais parecem mais certas: Teresina, com Firmino Filho, e Manaus, com Artur Virgílio. Os dois partidos devem concentrar mais ainda seu poder. Enquanto isso, legendas menores, como PDT, PTB e PR, tendem a encolher.
Neste ano, o PT registrou crescimento expressivo no fim do primeiro turno em São Paulo, Campinas, Fortaleza e Salvador. Prova que o julgamento do chamado mensalão no Supremo Tribunal Federal teve pouco ou nenhum efeito na escolha do eleitorado, ao contrário do que esperava a oposição.
Na capital paulista, Fernando Haddad (PT) começou a campanha com 3% dos votos e só teve a confirmação da sua ida ao segundo turno no momento da apuração. Agora, tudo indica, caminha para uma folgada vitória no domingo 28. Nas duas pesquisas divulgadas na quarta-feira 24, o petista mantém-se bem à frente do tucano José Serra. No Datafolha, tem 60% dos votos válidos contra 40% de Serra. No Ibope, a diferença é de 57% a 43%.
Em Campinas, outro “poste” de Lula, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada Marcio Pochmann (PT), saiu de 1% e chegou ao segundo turno, contra o favorito Jonas Donizette (PSB) que superava 42% em julho. Segundo a última pesquisa do Ibope, Pochmann tem 37% das intenções de voto contra 45% de Donizette.
Mesmo sem ganhar a prefeitura, o resultado será uma vitória para o PT. O partido teve seu nome envolvido no recente escândalo de corrupção em Campinas que derrubou, entre outros, Demétrio Vilagra (PT), vice-prefeito que chegou a assumir o município após a queda de Dr. Hélio (PDT).
A eleição da maior cidade do interior paulista virou vitrine para diversos políticos de olho nas eleições. A presidenta Dilma Rousseff, o senador mineiro Aécio Neves (PSDB) e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), fizeram campanha na cidade. Dilma com Pochmann. Aécio e Campos com Donizette. Geraldo Alckmin também participou intensamente. Um dos principais temas da campanha foi a possível cobrança do pedágio proporcional pelo governo estadual.
Com os desempenhos de Haddad e Pochmann, a tese de que o PT deve investir em novos candidatos fica mais forte dentro do partido e deve ter efeito na eleição ao governo paulista em 2014. Políticos derrotados em eleições passadas, entre eles, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, e o da Educação, Aloizio Mercadante, perdem força. Já o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, sobem na bolsa de apostas.
O PT pode ainda se recuperar do desempenho ruim obtido no Nordeste no primeiro turno, quando não conseguiu nenhuma vitória expressiva. O maior município conquistado em 7 de outubro foi Camaçari (BA), com 146 mil eleitores. Nada que compensasse a expressiva derrota no Recife.
O jogo parece ter mudado. O petista Luciano Cartaxo aparece na frente com 66% das intenções de voto em João Pessoa (PB), segundo a última pesquisa Vox Populi. Seu adversário, Cícero Lucena (PSDB), tem 24%.
IstoÉ
Itália investiga Jobim
Ex-ministro da Defesa Nelson Jobim é apontado como intermediário em escândalo de compra de embarcações para a Marinha.
Na última semana, um suposto esquema bilionário de corrupção envolvendo o nome do ex-ministro da Defesa brasileira Nelson Jobim e políticos italianos ganhou destaque na imprensa europeia. De acordo com a denúncia, Jobim seria o elo entre o ex-ministro de Desenvolvimento Econômico da Itália, no governo de Silvio Berlusconi, Claudio Scajola, e o governo brasileiro na compra de 11 embarcações para a Marinha do Brasil – cinco fragatas, cinco escoltas e um supernavio de apoio. Ainda segundo a acusação, as cifras do negócio poderiam chegar a 5 bilhões de euros. Aproximadamente 11% desse valor seria destinado a Scajola, Massimo Nicolucci (porta-voz do ministro) e Jobim, conforme publicaram na quinta-feira 25 os jornais “Corriere della Sera” e “La Repubblica”. Scajola não nega que trabalhou para viabilizar o negócio e tampouco que conhecia o ministro Jobim. “É verdade que encontrei três vezes o ministro da Defesa Jobim. Na Itália, havia crise e tentei vender as embarcações. Era meu dever ajudar o estaleiro Fincantieri”, afirmou Scajola.
A investigação, que está a cargo do Ministério Público da cidade de Nápoles, chegou ao nome de Nelson Jobim depois do interrogatório de Lorenzo Borgoni, o antigo responsável pelas relações institucionais da empresa Finmeccanica. No depoimento, Borgoni falou sobre uma possível amizade entre Jobim e Scajola. “O canal entre a Itália e o Brasil era o ministro Scajola, que tinha uma boa relação com o então ministro da Defesa Nelson Jobim”, disse Borgoni. Documentos em poder dos promotores italianos, segundo a imprensa daquele país, afirmam que a propina seria paga por meio de um contrato estipulado com uma agência no Brasil e entregue a um empregado que fosse indicado pelo ministro Jobim. No entanto, o negócio não prosperou. Nos bastidores da política italiana, comenta-se que as tratativas entre os dois governos não foram para a frente depois do rumoroso caso envolvendo Cesare Battisti, o ex-guerrilheiro italiano exilado no Brasil.
Época
A decadência da turma do “corrompe, mas faz”
A condenação de Dirceu e Genoino por formação de quadrilha representa a decadência de um tipo político: aquele que invoca um “passado de lutas” como álibi para os crimes do presente
José Dirceu é um pragmático. Condenado na semana passada por formação de quadrilha no Supremo Tribunal Federal (STF) – condenação que se soma à sofrida por corrupção ativa, duas semanas atrás –, o ex-ministro da Casa Civil do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ligou para o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Dirceu encara a prisão como algo inevitável. Queria saber se no presídio onde deverá ficar, em Tremembé, no interior de São Paulo, existe um parlatório confortável para receber advogados e espaço para visitas íntimas. Perguntou também se, em sua cela, haveria espaço para uma TV de tela plana. De acordo com o criminalista Luiz Flávio Gomes, Dirceu deverá ser condenado de 10 a 12 anos de prisão, tomando como parâmetro a punição imposta pelo STF ao ex-publicitário Marcos Valério – 40 anos e um mês. Se isso se confirmar, Dirceu ficará preso em regime fechado por aproximadamente dois anos. Gomes diz que o início da execução da pena ainda é uma incógnita. Antes, é necessária a publicação do acórdão do julgamento. Depois, os advogados apresentarão os embargos. Só depois de julgados os embargos, Dirceu – ou qualquer outro réu – poderá ser preso.
Quando o mensalão foi denunciado, em 2005, poucos brasileiros acreditavam que seus coordenadores iriam para a cadeia. Entre eles estava Dirceu. Em rodas de amigos, ele comentava que, se algo assim acontecesse, o povo iria às ruas protestar. Dirceu foi condenado – e ninguém protestou nas ruas. Pouco antes do início do julgamento, ele tentou organizar manifestações com militantes políticos do ensino secundário – na juventude, ele foi líder estudantil. Sua convocação teve adesão mínima. Depois da condenação da semana passada, Dirceu postou em seu blog: “Minha geração, que lutou pela democracia e foi vítima dos tribunais de exceção, especialmente após o Ato Institucional número 5, sabe o valor da luta travada para erguer os pilares da nossa atual democracia. Condenar sem provas não cabe em uma democracia soberana”. A frase tem três imprecisões: 1) dentro da teoria do domínio do fato que embasou os votos do STF, havia provas abundantes para condenar Dirceu como coordenador do mensalão; 2) não é possível insinuar que o STF é um tribunal de exceção (tribunais de exceção, nas palavras do filósofo Roberto Romano, “operam em segredo”, não em julgamentos exibidos pela televisão); 3) ao contrário do que diz Dirceu, o julgamento do mensalão representou um ápice na luta dos brasileiros pela democracia. Afirmou-se um poder – o Judiciário – essencial ao equilíbrio democrático.