Época
O poder e a influência do ex-diretor da Petrobras preso pela polícia
Como a PF prendeu o homem dos políticos na estatal – e quem é o novo lobista que pode levar a investigação ao caixa dois das campanhas eleitorais
Ao chegarem ao luxuoso condomínio Rio Mar IX, na Barra da Tijuca, na manhã da segunda-feira (17), os agentes da Polícia Federal no Rio de Janeiro provavelmente não sabiam que bateriam à porta de um dos homens mais poderosos da política brasileira. Para eles e os delegados que haviam obtido um mandado de busca e apreensão para vasculhar aquele nobre endereço, o engenheiro Paulo Roberto Costa era apenas mais um beneficiário – ainda que um beneficiário importante, por ter sido executivo da Petrobras – de um esquema de lavagem de dinheiro que movimentara cerca de R$ 10 bilhões nos últimos anos. Os policiais haviam descoberto que Costa era um cliente VIP de Alberto Youssef, um dos principais doleiros do país, apontado como chefe da organização criminosa desmontada, nos últimos dias, pela operação batizada pela PF de Lava-Jato.
Mas Paulo Roberto Costa não era apenas mais um ex-executivo da Petrobras. Ou um mero cliente de Youssef – doleiro ligado historicamente ao PP, um dos partidos da base aliada do governo Dilma, que lavou dinheiro para os deputados da sigla durante o mensalão. Entre 2004 e 2012, Costa foi o mais influente diretor da Petrobras. Não no Rio, onde funciona a sede da empresa. Mas em Brasília, onde funciona a sede do poder. Especificamente, naquele nicho em que dinheiro e política se combinam para conduzir os destinos do país. Costa era o principal elo da Petrobras com esse mundo. Comandava a área de abastecimento e refino da estatal. Controlava operações de compra e venda de combustível e obras em refinarias. Negociava contratos para a construção de novas usinas e para reparos nas antigas.
Funcionário de carreira da Petrobras, Costa chegara ao cargo por indicação do PP, num momento em que o doleiro Youssef já lavava dinheiro para deputados do partido, com o aval do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, do PT. Com a crise do mensalão, Costa não caiu. Ficou ainda mais forte. O segredo? Entender – e atender, segundo seis pessoas próximas a ele, entre amigos, políticos e parceiros de negócios – as necessidades de Brasília. Passou a ter o apoio não apenas do PP e do PT. Mas também da turma do PMDB do Senado, a turma mais poderosa do PMDB. Com o tempo e o acúmulo de favores prestados aos políticos, ganhou a confiança do então presidente Lula, com quem mantinha uma linha direta de comunicação. Nunca recusava um pedido político.
Para os políticos, a diretoria de Costa na Petrobras era uma Disneylândia, repleta de ricas possibilidades. Quão ricas? Nos próximos quatro anos, a Petrobras pretende gastar US$ 39 bilhões nessa área. Supera a soma dos orçamentos de todos os ministérios comandados pelo PMDB. E a Diretoria de Abastecimento sempre apresentou uma vantagem essencial. Embora tenha um orçamento ligeiramente menor que a Diretoria de Exploração, concentra mais oportunidades de fazer dinheiro. Costa não precisava de autorização de mais ninguém para fechar centenas de contratos milionários de compra e venda de combustível. E tinha permissão de Lula para tocar os contratos bilionários de construção – todos com indícios de superfaturamento, segundo o Tribunal de Contas da União – das refinarias que a Petrobras ergue, bem lentamente e com sucessivos atrasos, no Brasil. A presidente Dilma Rousseff, que não gostava de Costa, tentava derrubá-lo desde o começo de seu governo. Encontrava resistências de todos os políticos, mesmo indiretamente, de Lula. Conseguiu apeá-lo apenas em 2012, para desespero da base aliada.
IstoÉ
Seca e apagão entram na campanha
Crise energética no país e problemas no abastecimento de água em São Paulo antecipam debates eleitorais e estimulam candidatos de oposição
Risco de racionamento de energia, contas de luz mais caras e o perigo da falta de água. Esses temas já esquentaram o debate político em outras ocasiões, mas poucas vezes influenciaram tanto uma campanha eleitoral como agora. O temor dos comitês de PT e PSDB é que a crise energética e os problemas no setor de abastecimento de água se transformem no calcanhar de aquiles tanto do governo como da oposição. Em São Paulo, a reeleição do governador Geraldo Alckmin, uma das principais lideranças do PSDB, corre risco de ser afetada pela falta de água causada pela seca do Sistema Cantareira, que atingiu a marca preocupante de 16% dos reservatórios sem que medidas preventivas fossem adotadas. No plano nacional, os oposicionistas a Dilma Rousseff ganharam um rosário de argumentos para questionar sua capacidade de gestora e especialista em sistema elétrico. Não bastasse a polêmica compra da refinaria de Pasadena, que contou com o aval de Dilma, gerando um prejuízo ao erário de R$ 1 bilhão, a possibilidade de racionamento de energia tem grande potencial para prejudicar a imagem da presidenta às vésperas das eleições. Em pronunciamentos públicos, nas últimas semanas, Dilma dedicou-se a afastar a hipótese de apagão energético, como o que castigou a população em 2001. Mas o cenário é preocupante.
O Plano Decenal de Energia afirma que, para evitar o apagão no Brasil, seria necessário investir R$ 21 bilhões por ano até 2022. O governo federal, entretanto, vem gastando menos da metade desse valor. As consequências ficaram evidentes. Os reservatórios das usinas hidrelétricas – responsáveis por quase 80% da geração energética do País – atingiram os níveis baixos e operam em sistema de alerta. Índices como o atual só foram registrados em 2001. Nos últimos dias, Dilma também vem colhendo os efeitos negativos da decisão de reduzir a conta de luz dos consumidores em 20%. A medida foi tomada em 2012 e desde então vem sangrando os cofres públicos. O maior problema é que o efeito será inverso para os consumidores e haverá aumento na conta de energia depois das eleições. A decisão já contabiliza prejuízo superior a R$ 22 bilhões somente no ano passado e vai levar o governo a gastar outros bilhões para socorrer as distribuidoras em crise. “O setor foi desestruturado pelo intervencionismo do governo e decisões populistas. Estamos vivendo um racionamento sim. A previsão de aumentar a conta de luz nada mais é do que uma medida para inibir o consumo e adiar o apagão”, criticou o senador e presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG). O pré-candidato do PSB ao Planalto, governador de Pernambuco, Eduardo Campos, também questionou a capacidade gerencial de Dilma.
Carta Capital
Dilma enfrenta o “blocão” e os boatos
A presidenta encarou a mais forte crise provocada por um partido da própria base política, o PMDB. Não foi um confronto qualquer
Dilma enfrentou e superou a mais forte crise provocada por um partido da própria base política. Não foi um confronto qualquer. Ela bateu-se com o PMDB, o maior e mais influente aliado da base de apoio governista no Congresso. Falou-se até mesmo, para susto nos mais ingênuos, em rompimento da aliança.
A presidenta pagou um preço pela pacificação. Principalmente aos deputados. Relutante, como de outras vezes, entregou um naco da administração, liberou verbas parlamentares e recuou em alguns pontos para resgatar a votação do Marco Civil da Internet. Tudo isso e algo mais, dentro das distorcidas regras das alianças políticas e do inchaço de uma administração com 39 ministérios. Assim diluiu gradualmente o chamado “blocão” de governistas e oposicionistas. Por onde passou um boi passou, em seguida, toda a boiada.
Alguns fanáticos da base governista chegaram a acreditar que muito mais gente, além deles próprios, romperia com a presidenta. Blefe. Quem desafiaria até o fim uma candidata que tem enorme chance de se reeleger?
Tentaram alguns golpes baixos. Não terá sido por coincidência a simultaneidade do grande debate no Congresso na quarta-feira 19, sobre a compra, pela Petrobras, da refinaria de Pasadena (EUA) com o boato de que a pesquisa Ibope, a ser divulgada no dia seguinte, apontava uma queda de 8 pontos nas intenções de voto para ela. Houve quem ganhou dinheiro com isso. Era especulação do mercado.
Veja
A Petrobras já foi solução para Dilma. Hoje é fonte de problemas
O uso ruinoso da estatal para segurar a inflação se soma, agora, a negócios nebulosos e denúncias de corrupção
O PT sempre usou a Petrobras como arma política. Nas duas últimas campanhas, seus candidatos diziam que o PSDB privatizaria a empresa se reconquistasse o poder. Acusados de mercadores do patrimônio nacional, os tucanos não tiveram repertório para responder aos ataques. A Petrobras foi usada como vitrine para alardear a competência administrativa de Dilma Rousseff — e, antes, a sorte de Lula pela descoberta em seu governo do “bilhete premiado” do pré-sal. Lula proclamou a autossuficiência do petróleo, sonho geopolítico histórico do Brasil. Em 2010, Lula defendeu a eleição da desconhecida ministra Dilma, apresentando-a como a responsável pelo novo modelo energético brasileiro, em que predominariam a oferta abundante de energia e a cobrança de tarifas cada vez menores dos consumidores. No palanque, ela foi a “Mãe do PAC”, gestora hábil, eficiente, a contraposição perfeita ao apagão de 2001, que foi vendido ao eleitorado como clara inépcia do governo Fernando Henrique. A estratégia funcionou em 2002, 2006 e 2010. Em 2014 pode funcionar, mas para os adversários. “A Petrobras virou a OGX da Dilma”, ironizou Aécio Neves, candidato a presidente pelo PSDB.
A área de energia se tornou um poço de piche de problemas. O Brasil importa petróleo. Antes de os poços do pré-sal renderem um centavo sequer, deles parecem jorrar apenas alcatrão e terebintina política. O risco de racionamento de eletricidade, antes inexistente no discurso oficial, foi reclassificado para “baixo” — mas é alto. As tarifas, comprimidas por ímpeto populista e estatizante, em breve vão obedecer às implacáveis leis econômicas, buscar seu patamar realista, e os brasileiros vão pagar a conta — seja pelo aumento de impostos para recompor as finanças públicas, seja pelos dígitos a mais nas contas de luz e na bomba de gasolina. Dilma e sua equipe econômica acreditam ter um dique capaz de segurar essas pressões inflacionárias e empurrar a encrenca para 2015. Pode até ser. Mas um desses problemas já escapou. É justamente o que vinha sendo a solução: a Petrobras.
A empresa de petróleo tem um ex-diretor preso pela Polícia Federal. O loteamento político já dá sinais de que minou sua eficiência. O uso da Petrobras para pagar o bilionário subsídio no preço da gasolina fez com que secassem recursos para áreas e atividades vitais — entre elas, a manutenção das plataformas marítimas, as quais, segundo os próprios responsáveis, que não conseguem se calar diante do descalabro, estão quase todas sucateadas.
Visto de fora, o quadro apresentado pela Petrobras também é horroroso. Ela perdeu 30 bilhões de dólares em valor de mercado, a maior queda entre as empresas brasileiras. A Petrobras vale hoje a metade do que valia antes de Dilma subir a rampa do Planalto. A estatal passou de pedra a vidraça, e os rivais já farejaram a fraqueza. A presidente acusou o golpe e, na semana passada, deflagrou uma operação de contenção de danos.
Um indicador infalível de que a coisa não está boa para um político é o fato de ele apanhar até quando faz a coisa certa. Dilma ficou em péssima luz durante toda a semana passada por uma avaliação equivocada de seu comportamento em 2006, quando presidia o conselho de administração da Petrobras e o órgão autorizou por unanimidade a compra de uma refinaria em Pasadena, Texas. O caso, revelado por uma reportagem de VEJA em 2012, tem contornos suspeitos — mas não por causa de Dilma e, tudo indica, até mesmo apesar dela.