Veja
Parte do conteúdo dos interrogatórios do doleiro Alberto Yousseff foi o tema escolhido para a capa da revista Veja desta semana. A reportagem afirma que Yousseff, tido como sócio do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, teria citado o nome de 28 parlamentares em sua delação premiada. O dinheiro, que vinha de propinas cobradas de empreiteiras que tinham negócios com a Petrobras em forma de doações, teria abastecido campanhas eleitorais de 2010.
Yousseff: Doação era propina
Delator diz que empreiteiras repassaram dinheiro desviado da Petrobras para a campanha presidencial do PT em 2010 e simularam contribuições legais para ocultar fraude
Antes de qualquer coisa, fique registrado que a presidente Dilma Rousseff dá como verdade o que Paulo Roberto Costa, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, vem revelando à Justiça em seu processo de delação premiada. Também estejamos de acordo que a presidente aceita como verdadeiras as notícias publicadas pela imprensa sobre o escândalo do petrolão. Foi com base no que leu sobre um depoimento de Costa no UOL que ela fez a seguinte afirmação diante de milhões de brasileiros que assistiam pelo SBT ao seu debate com Aécio Neves na semana passada:
“Candidato, há pouco saiu no UOL o seguinte: que o ex-diretor da Petrobras afirmou ao Ministério Público Federal que o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra recebeu propina para esvaziar uma CPI da Petrobras. Por isso é que eu digo, candidato, quando a gente verifica que o PSDb recebeu propina… O que importa, candidato? Importa investigar”.
Época
A divisão do país entre os eleitores de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) é destaque da edição desta semana da revista Época. A severa polarização entre os dois candidatos à presidência da República levou a campanha para o nível pessoal e já se reflete em disputas acirradas dentro da sociedade. A revista traz episódios em que as diferenças de opinião entre petistas e tucanos chegaram a causar rachas dentro de famílias brasileiras.
A eleição que divide o Brasil
A disputa presidencial é a mais virulenta dos últimos 25 anos
É uma mudança histórica. O país irá às urnas em 26 de outubro cindido ao meio entre eleitores da presidente Dilma Rousseff (PT) e do senador Aécio Neves (PSDB), na disputa mais virulenta dos últimos 25 anos. Nunca houve situação igual. Em 1989, na primeira eleição presidencial após a redemocratização, a disputa entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva foi igual,e te acirrada. Mas não havia a divisão geográfica entre Norte e Sul, nem a socioeconômica entre os mais ricos e os mais pobres, como há agora.
O conflito é a essência da prática política. Numa democracia, a disputa pelo poder entre grupos concorrentes passa pelo debate de ideias antagônicas sobre como governar melhor. Mas também uma dimensão moral, que se resume na seguinte ideia: um lado está certo, o outro está errado. Essa dimensão moral da política é menos permeada pela razão que pelos sentimentos. Eles se manifestam, muitas vezes, como indignação, raiva e até ódio. Somados, viram intolerância.
IstoÉ
Em sua reportagem de capa desta semana, a revista IstoÉ traz um compilado das denúncias de corrupção envolvendo o governo federal e rebate o argumento de “campanha golpista”, frequentemente usado por petistas para se defenderem. A revista cita, por exemplo, as pressões e críticas sofridas recentemente pelo juiz federal Sérgio Moro, responsável pela condução dos processos resultantes da Operação Lava Jato. Ele é acusado por petistas de estar tentando se promover no sentido de uma eventual nomeação para o Supremo Tribunal Federal.
“Campanha golpista?” Alto lá!
PT é alvo de seus próprios erros e armações
Desde a eclosão do mensalão, os escândalos não assumiam de maneira tão escancarada a linha de frente de uma campanha presidencial, relegando ao segundo plano as propostas e as ideias dos candidatos necessárias à correção de rota almejada pela população para a melhoria do bem-estar do povo e das condições do País. A exemplo de 2006, mais uma vez o PT e o governo vão para uma eleição mergulhados em denúncias. A mais grave delas, os desvios bilionários da Petrobras em benefício do PT e de partidos aliados ao governo. E, como num filme repetido, os petistas cumprem um roteiro já bastante conhecido na tentativa de encobrir seus próprios erros.
Reagem não só como vítimas, mas imbuídos de certa arrogância, como se pairassem acima dos demais partidos e instituições. Em resposta à divulgação de áudios em que o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef revelam que 3% de todo dinheiro desviado dos contratos da estatal abasteceram o PT e a campanha de 2010, a presidenta Dilma Rousseff acusou a oposição de usar as investigações para dar um golpe no País. “Na véspera eleitoral, sempre querem dar um golpe.
CartaCapital
“Varrer” e “aniquilar”: a apologia do extermínio dá as caras na eleição
por Matheus Pichonelli [1]
O ex-presidente desconfia da capacidade cognitiva de quem não vota como ele. A colunista do jornalão nem desconfia: tem certeza de que parcela da população é incapaz de apertar os botões 1 + 3 + Confirma – e isso, aposta ela, teria efeito considerável no resultado das urnas. O ator global acha que votar no atual governo equivale a contrair ebola. E o colunista que defende em público o seu voto no governo, com ou sem ebola, é escorraçado no restaurante que não deveria frequentar – pois quem defende pobre e come caviar só tem direito a comer baratas, e não a defender que todos, inclusive ele, comam o que quiserem e quando quiserem.
A sequência de episódios diz mais, muito mais, da virulência de um mundo em desordem do que supõe o marketing político dos dois finalistas deste segundo turno. O descolamento da realidade parece ser um fenômeno amplo a atingir eleitores e candidatos. A arrogância e a falta de autocrítica, também.
Mas a virulência, nesta história, tem lado. A direita, que jura viver em uma ditadura (gayzista, bolivariana, da insegurança etc.) é a primeira a agredir, verbal ou fisicamente, quem não vota como ela. É sintomático. No caso das ameaças ao ator e escritor Gregório Duvivier, o agressor tinha a cartilha decorada, aquela tentativa rocambolesca de juntar as palavras “perigo”, “vai pra Cuba”, “ditadura”, “esquerda caviar”, “roubalheira” sem necessariamente criar um raciocínio. Quem jamais defendeu o regime castrista que se vire: no estigma não cabem ponderações, a não ser os bíceps.
Quando falo sobre esse grupo, não me refiro aos que se dizem cansados do atual governo, que defendem reformas no sistema tributário e aceitam a diminuição do papel do Estado em prol de uma tal competitividade empreendedora. Posso discordar, mas acho compreensível e legítima a contraposição ao atual projeto de governo. Mas uma coisa é se opor. A outra é se opor à existência do projeto, dos arquitetos do projeto e de apoiadores do projeto.
Nas ruas, postes, posts e vidros de carros blindados, a opção de voto chega acompanhada de um imperativo, quase sempre expresso nas conjugações dos verbos “varrer”, “eliminar”, “exterminar”, “expulsar”, “aniquilar”. Varrer, eliminar, exterminar e aniquilar quem, cara pálida? Quem não vota como você? Não basta votar contra? Em que momento da História esta disposição ao justiçamento acabou bem?
Não importa. Basta deixar o interlocutor à vontade para falar, de preferência em sua área de conforto, sua roda de amigos, a varanda de sua casa, amparado por um copo de chope ou uísque, e o resultado será o velho delírio autoritário de quem se refere ao outro como o “inimigo”. São os mesmos que chamam os organizadores de rolezinho de “cavalões” (relembre [2]), que questionam se o aeroporto virou rodoviária (relembre [3]), que dedica parte do seu Natal para questionar o Natal de presidiários (relembre [4]), que dizem ser compreensível amarrar, bater e prender no poste o jovem infrator que não se emenda (relembre [5]), que bate em manifestante com bandeira de partidos em protesto (relembre [6]), que acha que corrupção tem um lado só e se combate com vermífugo (relembre [7]). É como definiram nas mesmas redes que hoje concentram o ódio: não dá para discutir Bolsa Família com quem ainda não aceitou a Lei Áurea. No Brasil os viúvos do escravismo se aglutinam em multidões. Como diz a música: eles são muitos, mas não podem voar. Mas vociferam quando se veem na rabeira da História.
O caráter higienista da arrogância social travestida de posicionamento político deixou claro, mais que claro, o quanto o espaço ao contraditório é apenas uma miragem em um país que não parece ter assimilado as tragédias de suas experiências autoritárias. Um tempo em que, diante da projeção inflacionada do chamado “mal maior” (as reformas – comunistas? – de base de ontem são o “mar de lama” de hoje), aceitava-se a mediocridade, a lama, a bota, o chão, o silêncio. A indigência de hoje não é outra se não a consequência de um passado não esclarecido, de um presente que se nega a expor os horrores da supressão de direitos diluídos na escuridão das masmorras e dos centros de tortura.
Porque, na vida real, seguimos torturando e aceitando que tortura em corpos alheios é refresco (ou vacina): presos morrem confinados sem direito a julgamento, pobres são diariamente humilhados ao circular ao arrepio da ordem, manifestantes tomam balas de borracha no olho quando questionam que ordem, afinal, é essa. Uns pedem direitos, outros, camarotes – e masmorras, quantas forem necessárias. É onde os militantes do jipe, citados por Duvivier, e parte da população – os infectados pela ignorância, segundo o ex-presidente, a colunista demofóbica, o ator global – se distinguem.
Mas algo parece estranho quando o mesmo eleitor que condena a chamada Bolsa Esmola, os programas de inclusão na universidade e a chegada de médicos à periferia faz uma defesa tão apaixonada por quem jura de pé junto não mexer em nada disso. Essa direita, porta-voz dos preconceitos e das soluções autoritárias, não é só violenta. É míope e surda.
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