Veja
A reconstrução da ministra
Depois de ser derrotado em três eleições, Lula reapareceu com a imagem remodelada na eleição de 2002. Passou a usar ternos bem cortados, cuidou da aparência e, principalmente, deixou de lado o discurso radical que assustava parte do eleitorado. A ministra Dilma Rousseff, candidata do governo à Presidência, está no mesmo laboratório operando sua transformação. Nos sete anos de ministério, Dilma ficou conhecida pela austeridade, inclusive no trato com auxiliares e colegas, pela falta de tato político, o que já lhe rendeu brigas e desafetos dentro do próprio partido, o PT, e pela dificuldade em se comunicar. Parecem problemas intransponíveis para quem deseja enfrentar com a mínima possibilidade de êxito uma campanha eleitoral que promete ser uma das mais acirradas dos últimos anos. A metamorfose já mostra os primeiros sinais. Na semana passada, durante a inauguração dos estúdios de uma emissora de TV, Dilma brincou de atriz com o presidente Lula, que manejava uma câmera. Depois, em um jantar com parlamentares do PP, fez questão de ir à cozinha cumprimentar os funcionários da casa. Em outro evento, em São Paulo, abraçou e beijou catadores de lixo que participavam de uma feira de reciclagem. Por fim, a ministra, que nunca teve muita afinidade com questões ambientais, tem revelado inédita preocupação ecológica, a ponto de ser nomeada para chefiar a delegação brasileira que vai participar de uma conferência da ONU sobre o clima.
“Dilma está mais simpática, mais sorridente e consciente do que se deve fazer em uma campanha”, afirma um membro de seu staff. Exemplo disso é que, há duas semanas, a ministra esteve em um almoço com correligionários do governador Eduardo Campos (PSB-PE) e, na chegada, cumprimentou apenas as autoridades presentes à mesa. Foi, depois, advertida pela falha. “Dá para perceber que é difícil para ela cumprir esse papel de candidata, mas ela tem se esforçado.” Os discursos e as opiniões da ministra também passaram a seguir um roteiro preestabelecido. Os discursos devem ser simples e carregados de metáforas de fácil entendimento, como os do presidente Lula. As opiniões emitidas sobre os temas de governo e de campanha também não podem divergir das defendidas pelo presidente. Nos últimos dias, Dilma foi criticada por estar antecipando a campanha eleitoral, o que é ilegal. Indagada sobre o assunto, a ministra se disse vítima de preconceito pelo fato de ser mulher. Ninguém entendeu o que uma coisa tem a ver com a outra, mas Dilma conseguiu, ao menos momentaneamente, safar-se da polêmica – exatamente como foi ensaiado com sua equipe de campanha, integrada por políticos, publicitários e jornalistas.
A ministra se reúne uma vez por semana com o “estado-maior” de sua campanha, como é chamado o grupo do qual fazem parte os ministros Franklin Martins (Comunicação Social) e Alexandre Padilha (Relações Institucionais), o chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, o deputado Antonio Palocci, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel e o marqueteiro João Santana. Nesses encontros são discutidos os temas que serão abordados pela candidata-ministra e como ela deve tratá-los em suas aparições. Também são definidos a agenda de viagens e pontos da estratégia política da campanha. Nos fins de semana, Dilma reserva um dia, às vezes o sábado, às vezes o domingo, para se dedicar integralmente ao treinamento e à preparação da “candidata ideal”. Ao lado de João Santana e de sua equipe de marqueteiros, a ministra é submetida a sessões de entrevistas, debates simulados e pronunciamento para programas de TV. A postura, o tom de voz, o modo de encarar as câmeras e até a melhor roupa para cada ocasião são experimentados à exaustão. “Esse treinamento é normal para todo candidato em campanha. No caso da Dilma, porém, isso precisa ser intensificado porque ela não tem nenhuma experiência eleitoral. Estamos saindo do zero, fabricando um candidato”, explica um dos envolvidos na operação.
Em breve, o perfil de Dilma Rousseff ganhará o reforço de um detalhe desconhecido pela maioria dos eleitores. A ministra terá enfatizada sua condição de “candidata mineira”. Dilma nasceu em Belo Horizonte, em 1947, e estudou nos tradicionais colégios Sion e Estadual Central. Sua mãe cresceu em uma fazenda na região de Uberaba e seu pai trabalhou na siderúrgica Mannesmann, tradicional empresa no estado. Em Minas Gerais, ela atuou em grupos de oposição à ditadura e acabou presa. Essa origem, porém, é pouco conhecida, pois sua carreira pública foi, na verdade, construída no Rio Grande do Sul, para onde se mudou após deixar a prisão. Pela estratégia montada, Dilma será apresentada como a alternativa para Minas voltar a ter um presidente da República depois de quinze anos. O último foi Itamar Franco. Os auxiliares da ministra avaliam que, caso o governador paulista José Serra seja confirmado como candidato da oposição, ela pode atrair os votos dos eleitores mineiros, desde, é claro, que enxerguem nela uma legítima representante do estado.
Época
Mais R$ 4 bi para a educação
O bom desempenho do Brasil diante da crise econômica mundial é celebrado no mundo inteiro. Recentemente, o país vem sendo apontado como um dos mercados mais promissores para os próximos anos. As análises, no entanto, sempre reconhecem um problema: a falta de investimentos em educação. Na semana passada, o Senado aprovou uma medida que tenta diminuir esse problema, ao acabar com a possibilidade de o governo remanejar as verbas que a Constituição destina à área.
Os senadores aprovaram uma emenda constitucional que proíbe o uso na educação do instrumento burocrático conhecido como Desvinculação das Receitas da União, ou DRU. Desde 1994, a DRU desviou R$ 100 bilhões – o suficiente para formar todos os professores e universalizar a pré-escola – para outras áreas, sobretudo para cobrir rombos financeiros. Trata-se de um bom começo para lidar com a crônica falta de recursos do setor. Serão destinados mais R$ 4 bilhões à educação neste ano, mais R$ 8 bilhões no ano que vem e mais R$ 10 bilhões em 2011. Mas será suficiente?
Hoje, o mínimo que Estados e municípios têm de investir por aluno é R$ 1.220 – cerca de R$ 100 mensais. Os recursos adicionais poderiam elevar esse valor para R$ 1.470 anual por aluno. É uma quantia maior, sem dúvida, mas ainda distante dos R$ 1.960 anual por aluno, valor apontado como mínimo necessário por José Marcelino de Rezende, da Universidade de São Paulo (USP), em estudo considerado referência pelo Conselho Nacional de Educação (leia o quadro) . Nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o gasto médio anual por aluno é dez vezes os R$ 1.220 do Brasil.
ISTOÉ
A rebelião dos ministros do TCU
O Tribunal de Contas da União (TCU) está em clima de revolta. Para contra-atacar a pressão que vêm sofrendo do Palácio do Planalto, muitos ministros estão carregando nas tintas quando o objeto do parecer é uma obra do governo. Apenas este ano, os ministros identificaram problemas em 41 obras federais, sendo 30 do PAC. O motivo da rebelião é que o governo escalou o ministro Walton Alencar Rodrigues, do próprio TCU, para tentar resolver seus impasses com o tribunal. Desde o ano passado, Rodrigues tenta evitar pedidos de paralisação de obras, de olho na campanha eleitoral de 2010. No entanto, em vez de destravar as obras, ministros, inconformados com o que chamam de “interferência acintosa”, decidem o contrário.
“Não aceitamos essa ingerência, principalmente da maneira como ela tem sido feita”, reclamou um dos membros da corte. Um dos problemas é o estilo pouco diplomático de Rodrigues. “Deixa comigo que eu mato no peito”, costuma repetir o ministro, que é bem relacionado com a titular da Casa Civil, Dilma Rousseff. Pela tarefa que executa, Rodrigues espera que o governo atenda a seus pleitos. Um deles é a nomeação de sua mulher, Maria Isabel Gallotti Rodrigues, desembargadora do TRF da 1a Região, para o Superior Tribunal de Justiça.
Conforme apurou ISTOÉ, em mais de uma sessão de votações Rodrigues circulou pelo plenário do TCU com uma lista, em planilha excel, de obras consideradas prioritárias pelo governo, perguntando aos respectivos relatores como eles pretendiam votar e o que poderia ser feito para resolver as pendências. Um dos casos mais rumorosos envolveu as obras do metrô de Salvador, um projeto do PAC. Na tentativa de remover os entraves do TCU à obra, Rodrigues promoveu um jantar em sua residência que reuniu todos os colegas do tribunal e o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, um dos entusiastas do empreendimento. O encontro constrangeu e irritou o auditor responsável pela fiscalização do metrô, Augusto Sherman.