IstoÉ
O projeto marajá
Os magistrados reagem com veemência quando são tratados como marajás do serviço público. Mas o brasileiro já está acostumado a ver tentativas de acumular regalias no Poder Judiciário. É o que acontece neste momento: o Congresso sofre pressão para aprovar a toque de caixa um projeto que cria supersalários para os servidores da Justiça. Com o apoio de todos os presidentes de tribunais superiores e de nove ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a proposta dá reajuste médio de 56,4% aos 100 mil funcionários do Judiciário. O projeto iguala o salário de simples técnicos ao de funcionários do alto escalão do Executivo. A remuneração inicial do analista judiciário, de nível superior, pula, por exemplo, dos atuais R$ 6.551,52 para R$ 10.283,59. Mas pode chegar a R$ 33.072,55, no topo da carreira, se o profissional ocupar cargo em comissão e tiver doutorado. A proposta também premia quem tem apenas o ensino fundamental, como operadores de xerox e copeiros. No ápice da carreira eles podem ganhar até R$ 8.479,71.
Se a benesse for aprovada, o impacto no Orçamento da União será de cerca de R$ 6 bilhões. O texto já passou pela Comissão de Trabalho e Administração da Câmara e precisa ser analisado pela Comissão de Finanças e Tributação antes de ir ao plenário da Casa. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, adverte que o governo não poderá aprovar novos aumentos salariais além dos já acordados para este ano. “Não há recursos para esse aumento. É algo que tem de ser mais bem discutido”, diz ele. Mas a pressão do Judiciário é grande. O principal argumento é de que, com a defasagem dos salários em relação a outras carreiras, é impossível manter os bons servidores, o que comprometeria a velocidade de tramitação dos processos. “É preciso buscar a aprovação como forma de atender não só ao anseio do servidor como também para permitir que o Judiciário tenha um corpo funcional equilibrado”, alega o presidente do STF, Cezar Peluso.
Na tentativa de forçar o reajuste, servidores do Judiciário em todo o País permaneciam em greve até a última semana. O governo, por ora, tem se mantido pragmático, preocupado com o rombo no Orçamento. Resta saber como se comportará o Congresso.
Veja
Lula cancela ida à cúpula do G20 para monitorar estragos da chuva
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cancelou a viagem que faria na tarde deste sexta-feira para Toronto, no Canadá, onde participaria da reunião do G-20 (grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo). A informação foi dada pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que despachou nesta manhã com o presidente, no Palácio da Alvorada. De acordo com o ministro, Lula ficou impressionado com as imagens que viu, ontem, no Nordeste, ao visitar algumas cidades atingidas pelas chuvas. Por isso, ele decidiu monitorar de perto o auxílio às vítimas.
Já chegam a 51 os mortos pela enxurrada em Alagoas e Pernambuco. Pelo menos 155.000 pessoas precisaram abandonar suas casas nos dois estados. Em Pernambuco, 59 municípios foram afetados pela chuva. Do total, nove estão em estado de calamidade pública e 30, em situação de emergência. Em Alagoas, 28 municípios sofrem com as tempestades, 15 dos quais decretaram calamidade.
Época
De inimigo a salvador
No final de março, poucos dias antes de deixar o cargo de governador de São Paulo para se lançar na disputa pela Presidência da República, o candidato do PSDB, José Serra, participou de uma reunião com seus aliados políticos mais próximos na casa de Andréa Matarazzo, o atual secretário da Cultura do Estado. A decisão de concorrer ao Palácio do Planalto, pela segunda vez, já havia sido tomada. Faltava a Serra, no entanto, definir quem seria o candidato dos tucanos a sua própria sucessão no Palácio dos Bandeirantes.
Após algumas rodadas de discussão, o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, deu uma bronca: “Não há mais tempo para indecisão. Como vamos resolver nossos problemas em outros Estados se não resolvemos nem em São Paulo, onde temos um nome na liderança absoluta das pesquisas e com reais chances de vencer?”. Guerra se referia ao ex-governador Geraldo Alckmin, que lidera – ainda hoje – com folga todas as pesquisas de intenção de voto para governador de São Paulo.
Há três meses, Serra também aparecia nas pesquisas para a eleição presidencial bem à frente da candidata do PT, Dilma Rousseff. Os tucanos e seus aliados trabalhavam com a possibilidade de Serra abrir em São Paulo, com ou sem a candidatura de Alckmin, uma vantagem sobre Dilma de até 4 milhões de votos (em um colégio de quase 30 milhões de eleitores). Esse otimismo era uma das razões que levavam o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), e o então vice-governador, Alberto Goldman (PSDB), a trabalhar pela escolha de Aloysio Nunes Ferreira, o ex-secretário da Casa Civil paulista, como o candidato dos tucanos ao governo de São Paulo.
CartaCapital
Não é preciso combater à sombra
Por Mino Carta
Pergunto aos meus aloprados botões por que o candidato tucano José Serra não sobe nas pesquisas a despeito de todos os esforços despendidos a seu favor pela mídia nativa e pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No caso de FHC, refiro-me às informações de fonte respeitável, segundo as quais o príncipe dos sociólogos confessa ao pé de ouvidos tucanos o fracasso do seu empenho, maciço e infatigável, em prol do amigo de sempre. Amigo? Quanto à mídia, de que lado fica está na cara. E com que denodo, com que paixão.
Saiu na quarta-feira 23 a pesquisa CNI-Ibope e os números mostram que quem cresce é Dilma Rousseff. Acima do chamado empate técnico. Tivessem braços, os botões os abririam a 180 graus. Até tocar o firmamento. A manifestar todo o seu espanto. Disponho de botões muito sensíveis, bem mais do que eu, de sorte que, diante da minha expressão incolor, abalam-se a me submeter a um teste. O seguinte, que me apresso a repassar aos leitores.
Quem elaborou as perguntas abaixo e as dirigiu a quem? Primeira pergunta: “Por que para a democracia é positivo experimentar uma alternância de poder, depois de ficar oito anos na oposição?” Segunda pergunta: “Como o senhor conseguiu governar seu estado sem nunca sofrer derrota na Assembleia local e sem lançar mão de propinas e outras formas de coerção sobre deputados estaduais?”
Formuladas por quem? A) Veja; B) Time Magazine; C) Herald Tribune.
Dirigidas a quem? A) Franklin Delano Roosevelt; B) Ronald Reagan; C) José Serra.
Fiquei sem resposta. Eles gargalharam, como certos cães os meus botões conseguem rir. Com bons motivos. Haviam manipulado as perguntas para provocar minha dúvida e bondosamente esclareceram: a primeira pergunta fez referência explícita ao governo Lula. A segunda acrescenta a Prefeitura de São Paulo às conquistas do candidato tucano e fala em “mensalões”. Daí ficou fácil. Trata-se de perguntas feitas por Veja a Serra para uma entrevista das célebres páginas amarelas, publicada na edição datada de 23 de junho.
Primor de jornalismo engajado. Partidário. E também hipócrita. Como é do conhecimento do mundo mineral, a rapaziada alega independência, equidistância, isenção. Comovedor, neste sentido, o editorial do Estadão de 22 de junho, intitulado “A confissão do chanceler”. Cuida-se ali de malhar Lula e seu ministro Celso Amorim por terem saído para a mediação com o Irã, incentivados a tanto pelo próprio presidente Obama.
Extraordinário o rumo tomado pelo texto do jornal, a circum-navegar a lógica. Concorda com Amorim, segundo quem Brasília levou uma rasteira de Washington, pois Obama, um mês antes da tentativa turco-brasileira em carta dirigida a Lula, diz textualmente que um acordo com Teerã “representaria uma oportunidade clara e tangível de começar a construir uma confiança mútua”.
Apesar do incentivo do presidente americano, reconhece o editorial, nos EUA “a linha-dura personificada por Hillary Clinton prevaleceu sobre os moderados da Casa Branca”. E então, onde fica a confissão do chanceler? Chegamos à conclusão de que vingou mais uma vez a prepotência do mais forte e que Obama enredou-se em um jogo indigesto, além da conta para ele mesmo. De todo modo, ainda neste caso, que jornalismo é este? Talvez valha como exercício de humorismo.
Às vezes me imaginei entre os 300 das Termópilas, a esperar no desfiladeiro pela investida fatal do exército persa. Parece-me agora que a história começa a ser escrita de forma oposta. Já me permiti comentar neste espaço o crescente fracasso dos persas, digo, da mídia nativa. Ficou claro em 2002, e mais ainda em 2006, que ela atira fora do alvo. A maioria a ignora e este é sinal peremptório de tempos diferentes. A habitual ofensiva contra o governo Lula, destinada agora a abalar a candidatura Dilma, atinge a obsessão e, frequentemente, beira o ridículo.