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Destaque das revistas

Época

Os infiltrados da ditadura

As organizações de esquerda passavam por grandes dificuldades no segundo semestre de 1969. Com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) no final do ano anterior, o governo militar ampliou os instrumentos legais de perseguição às organizações que combatiam a ditadura. As prisões de militantes levavam os grupos armados a tentar recrutar mais gente. Em outubro de 1969, um homem ofereceu serviços de bombeiro hidráulico na Administradora Bolívar, uma imobiliária de Copacabana. Disse chamar-se Luciano e conseguiu trabalho com a responsável pela empresa, Maria Nazareth Cunha da Rocha. Bom de conversa, falava de política enquanto fazia os consertos nos encanamentos. Nazareth gostou do sujeito. Mais ainda quando ele disse que estivera preso por ter participado de atividades contra o golpe militar.

Poucos dias depois, em tom confidencial, Nazareth perguntou se Luciano gostaria de fazer parte de uma organização de luta armada. A imobiliária Bolívar era, na verdade, uma espécie de condomínio de várias organizações da luta armada. Reunia a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e a Frente de Libertação Nacional (FLN). No topo, de acordo com Nazareth, estava Carlos Marighella, líder máximo da Ação Libertadora Nacional (ALN), que seria morto em São Paulo poucos dias depois, em novembro de 1969. Ela convidou Luciano a integrar um grupo de homens “dispostos a tudo”, para realizar operações de assalto e sabotagem. Sem titubear, Luciano respondeu que sim. Militante experiente, na faixa de 40 anos de idade, Maria Nazareth não sabia, ao fazer o convite, que era enganada. Luciano, o homem que se apresentou como bombeiro hidráulico, era um agente do Centro de Informações da Marinha, o Cenimar.

Na vida real, Luciano se chama Manoel Antonio Mendes Rodrigues. Uma ficha dos arquivos do Cenimar descreve Manoel Antonio, ou “Luciano”, como um agente remunerado que teve conexões com assaltos a banco e contatos em várias organizações da luta armada, como FLN, VPR e MR-8. No serviço secreto da Marinha, consta que ele mantinha contato com vários oficiais.

O Cenimar grampeou os telefones da Administradora Bolívar. Os informes da imobiliária eram transcritos à mão em “folhas de trabalho” do serviço secreto. A infiltração de Luciano nos grupos que operavam na Administradora Bolívar coincide com a prisão de vários militantes. Dos arquivos do Cenimar, é possível inferir que ela foi fundamental para a obtenção de informações que levaram a essas prisões.

Um exemplo: em 26 de novembro de 1969, os espiões descobriram que o militante Salathiel Teixeira Rolim viajara do Rio para São Paulo e Curitiba num carro modelo JK, verde, placas GB Z0 5575. Ex-integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Salathiel entrou para o radical PCBR no fim da década de 1960. Depois de rastreado pelo Cenimar, foi preso em janeiro de 1970. Torturado, deu informações que, na avaliação de antigos aliados, contribuíram para a captura de dirigentes do PCBR. Em 1973, depois de sair da cadeia, Salathiel foi morto por militantes do PCBR, sob a acusação de que traíra o partido na prisão.

A infiltração de Luciano resultou também na espionagem contra um dos mais importantes dirigentes da VPR, Juarez Guimarães de Brito. Juarez entrara em 1968 para o Comando de Libertação Nacional (Colina), organização a que pertenceu a presidente Dilma Rousseff. Em julho de 1969, integrava a VAR-Palmares, organização oriunda da fusão entre Colina e VPR. Foi Juarez quem comandou no Rio de Janeiro o assalto ao cofre de Ana Capriglione, amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Trata-se do assalto mais bem-sucedido realizado por um grupo de esquerda durante a ditadura. Ele rendeu US$ 2,6 milhões aos assaltantes.

IstoÉ

Ditaduras entrelaçadas

Não são apenas os brasileiros que vivem a expectativa sobre quais segredos a Comissão Nacional da Verdade, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff na sexta-feira 18, trará à tona. Ativistas de Direitos Humanos de Argentina, Paraguai e Uruguai esperam que, ao remexer os arquivos da ditadura brasileira, a Comissão esclareça fatos obscuros ocorridos naqueles paí­ses durante o regime militar nos anos 1970 e 1980. Especialmente no que se refere à Operação Condor, a aliança político-militar entre os governos ditatoriais sul-americanos nesse período. A surpresa pode ficar por conta de nomes de autoridades civis brasileiras que colaboraram com o regime ditatorial na América Latina. O correspondente em Brasília do jornal argentino “Pagina/12”, Dario Pignotti, que investiga a Operação Condor desde 1994, encontrou no Brasil documentos que comprovam a importante participação de diplomatas brasileiros na repressão, monitorando e revelando os passos de exilados, bem como agindo no interesse de conhecidos repressores vizinhos, como o capitão de fragata argentino Alfredo Astiz, conhecido como o “Anjo da Morte”. Essa atuação contradiz com a tese estabelecida de que o Brasil desempenhava um papel secundário e discreto na Operação Condor.

Astiz foi responsável pelas mortes das fundadoras da organização Mães da Praça de Maio, de duas freiras francesas e de uma estudante sueca, durante a repressão argentina, e tinha dois pedidos de extradição (França e Suécia). Se ele fosse mandado para a França ou Suécia, ele seria julgado por esses crimes, o que seria a pior solução para Astiz. Por interferência, porém, do então embaixador brasileiro em Londres em 1982, Roberto Campos, o “Anjo da Morte” acabou sendo devolvido pelos ingleses às autoridades argentinas. Na Argentina, ele ficou livre até 2006, quando foi detido. Mês passado, Altiz foi condenado em Buenos Aires à prisão perpétua.

Carta Capital

No pântano da farsa

A Chevron escolheu a pior estratégia: tentar enganar os ósgãos de fiscalização e a sociedade brasileira

O presidente da Chevron no Brasil, George Buck, chegou ao Congresso Nacional na quarta-feira (23) ciente de que a credibilidade da empresa sob seu comando tinha ido parar no fundo do poço. Responsável por uma equivocada estratégia baseada em mentiras, manipulações e arrogância empresarial, o executivo da quarta maior petroleira privada do mundo perdeu-se entre desculpas e desenganos até ser avisado, ainda durante a audiência pública da qual participava, do tamanho da encrenca em que se metera. Daquele dia em diante, e por tempo indeterminado, a Chevron estava proibida de explorar petróleo no Brasil.

A decisão da Agência Nacional do Petróleo (ANP) foi anunciada no início da noite da quarta 23, exatos 15 dias depois de um vazamento de óleo ter começado a manchar as águas do Oceano Atlântico, a 120 quilômetros da costa de Macaé (RJ), um desastre ambiental ainda em andamento e cuja dimensão não foi calculada com exatidão. Fala-se em 3 mil barris, ou 476,9 mil litros de óleo, mas o vazamento continuava (na noite de quinta-feira a companhia informou que ele havia parado, mas o comunicado ainda carecia de comprovação). A reação tardia da ANP, assim como a hesitação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em enfrentar o caso, escancarou as deficiências da fiscalização das concessões de exploração e a inexistência de um plano de contingência estatal capaz de garantir efetividade em um acidente como o ocorrido na Bacia de Campos, na área chamada Campo de Frade.

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