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Nesta sexta-feira (14), o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino retirou o sigilo do caso que investiga a possível existência de uma estrutura organizada no Maranhão voltada à prática de corrupção e à obstrução de investigações, com suspeitas que alcançam agentes públicos, políticos e pessoas ligadas à chamada família Brandão.
As decisões do ministro Flávio Dino sobre o caso são o pano de fundo por trás da suspeita de perseguição do blogueiro maranhense Luís Pablo, investigado em uma ação sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Pablo é acusado de colaborar com inimigos políticos de Flávio Dino, que estariam perseguindo familiares do ministro do Supremo Tribunal Federal.
Três documentos foram divulgados após a decisão de quebra de sigilo de Dino.
Eles revelam que a investigação da PF apura crimes de corrupção, peculato, organização criminosa, obstrução da Justiça, coação de testemunhas e possível interferência na investigação do assassinato de João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira.
Há ainda suspeitas de que informações sigilosas tenham sido vazadas de dentro da própria Polícia Federal.
A PF passou a identificar ações recentes destinadas a impedir que pessoas investigadas colaborassem com a Justiça ou prestassem depoimentos que poderiam comprometer integrantes do grupo.
Leia os documentos na íntegra:
A conexão com a “quebra de sigilo de fonte”
Em novembro de 2025, Luís Pablo publicou fotografias e informações sobre veículos utilizados por Flávio Dino e seus familiares no Maranhão. As postagens apresentavam o episódio como uma denúncia de suposto uso irregular de carros pertencentes ao Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA).
O STF e o TJ-MA negaram irregularidade. Segundo os órgãos, os veículos faziam parte do esquema institucional de segurança disponibilizado a ministros quando estão fora de Brasília. Uma das publicações mostrou a placa do automóvel e trouxe informações relacionadas aos agentes responsáveis pela proteção do ministro.
A segurança institucional do Supremo, porém, informou que aquilo não se limitava à fotografia ocasional de um carro oficial. Havia suspeita de um procedimento de monitoramento dos deslocamentos de Dino e de seus familiares no Maranhão. A situação foi comunicada à PF, que abriu investigação por perseguição.
Em março, Moraes autorizou busca e apreensão contra Luís Pablo. Celulares, notebook e outros equipamentos foram apreendidos e examinados pela PF. O material foi posteriormente devolvido após a extração dos dados.
Raimundo Cutrim não era simplesmente um servidor que havia descoberto uma irregularidade e procurado anonimamente um jornalista para denunciá-la. Delegado federal aposentado, ex-secretário de Segurança Pública e então integrante do governo maranhense, Raimundo Cutrim já era acusado de obstrução de Justiça em outra investigação no Supremo, cujo ponto de partida era o assassinato do empresário João Bosco Sobrinho Pereira, morto em São Luís em 2022.
O homem condenado pelo homicídio, Gilbson César Soares Cutrim Júnior, procurou o STF acusando Raimundo Cutrim e aliados de terem oferecido dinheiro à sua família para que nomes de políticos fossem retirados das acusações envolvendo os possíveis mandantes do crime.
Raimundo é primo distante de Cezar Cutrim, pai de Gilbson. Segundo a investigação, foi justamente em conversas com Cezar que o ex-secretário teria tentado convencê-lo a fazer o filho e a nora mudarem declarações prestadas às autoridades, afastando políticos maranhenses do caso. Raimundo nega ter tentado obstruir a investigação.
O caso chegou ao Supremo em 24 de outubro de 2025 e Flávio Dino foi sorteado como relator da investigação que atingia Raimundo Cutrim.
E a sequência temporal é talvez o elemento mais importante de toda a história: dias depois de o processo chegar ao gabinete de Dino, começou o monitoramento do ministro e de sua família no Maranhão. Em novembro, a Secretaria de Segurança do STF já comunicava o caso à PF.
É justamente esse contexto que praticamente desaparece quando Cutrim é apresentado apenas como “fonte de jornalista”.
Segundo a PF, foi ele quem obteve as informações e imagens divulgadas posteriormente pelo blogueiro Luís Pablo. Os investigadores afirmam que Cutrim teria se aproveitado da condição de agente público para consultar sistemas de acesso controlado, que exigiam usuário e senha. A apuração sustenta ainda que o levantamento chegou a alcançar um carro particular do irmão de Flávio Dino.
Foto reproduzida da Internet