por Marcelo Soares
Como entender um problema crônico de saúde pública sem enxergar todas as vertentes por onde a questão passa? Simples, não há como! Para até mesmo se falar sobre, é preciso conhecimento de causa, aprofundamento dos fatos e um mínimo de bom senso na ponderação de todos os pontos. Mas não é assim que muitas pessoas entendem a realidade da rede pública de saúde do Rio Grande do Norte. Infelizmente.
Inaugurado em 31 de março de 1973, o HMWG conta hoje com 284 leitos. Destes, 45 são de Unidades de Tratamento Intensivo (UTI). Para os pacientes que ocupam as áreas de circulação e as salas de observação do Pronto Socorro Clóvis Sarinho (PSCS), o hospital disponibiliza mais 70 macas. Todos diariamente ocupados.
Em seus 43 anos de existência, a maior unidade de saúde pública para atendimentos do trauma cresceu em mais de quatro vezes seu número de leitos, criou mais uma UTI com 10 leitos e teve adicionado as suas dependências um pronto socorro. Nenhuma outra unidade de saúde do RN cresceu tanto.
Não é segredo para ninguém que situações como a ambulancioterapia e a falta de assistência na rede básica de saúde, elevam o atendimento clínico do Walfredo Gurgel com pacientes de baixa e média complexidade. Além disso, qualquer prestador que, por algum motivo, deixe de ofertar o serviço para o qual foi construído ou contratado, é mais que suficiente para superlotar o HMWG.
Ainda assim, falar que 15 ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) estão paradas em frente ao maior hospital público para atendimentos do trauma é fácil. Dizer que as macas ficam presas porque não há nenhuma unidade disponível para a troca é moleza. Afirmar que estas mesmas ambulâncias ficam impedidas de prestar atendimento à população porque não podem sair do hospital sem a maca, é óbvio. Mas… será que as causas para estes problemas estão mesmo dentro do Walfredo Gurgel?
Então por que as pessoas estão mais interessadas em apontar o dedo do que ajudar a resolver o problema do Hospital Walfredo Gurgel? Por que nenhuma matéria publicada ou exibida na última semana questionou gestores municipais sobre a falta de investimentos na atenção básica de seu município para que não fosse necessário obrigar um paciente a sofrer com duas, três, até quatro horas ou mais de viagem para receber um atendimento que ele poderia ter em sua própria localidade?
Então por que ninguém também se interessou em questionar se os recursos destinados pelo Ministério da Saúde (MS) aos municípios vêm sendo realmente aplicados de forma correta nas ações de fortalecimento da rede de atenção básica do interior?
Então por que ninguém se interessa em saber se o paciente preferiria horas dentro de uma ambulância até chegar a Natal ou ter uma assistência de qualidade na sua cidade de origem? Por que???
Será que é mais cômodo somente citar o que se vê sem entender o porquê? Onde está o aprofundamento dos assuntos que lemos hoje? Por que não se fazem mais textos buscando várias fontes e ouvindo a maior parte possível de pessoas envolvidas com a problemática discutida? Será que os assuntos de saúde não merecem uma discussão mais abrangente e aprofundada? Será que a superficialidade é irmã da pretensa agilidade da informação? Vale mais quem dá uma notícia primeiro? Será que uma notícia melhor elaborada, checada e discutida de forma a mostrar alternativas para um problema, não vale mais nada?
Será?
*Marcelo Soares é jornalista e assessor de imprensa do HMWG