- blogdobarbosa - https://blogdobarbosa.jor.br -

`É preciso conhecer a história´, diz Lula sobre volta à Vila Euclides

por Ricardo Amaral, no Brasil 247

Faz mais ou menos um mês, perguntei ao presidente Lula por que ele havia decidido lançar sua candidatura à reeleição em São Bernardo do Campo. “É porque as pessoas precisam conhecer nossa história”, ele me respondeu, sem mais. Parece óbvio, para ele, que uma das chaves de sua sexta campanha presidencial pelo PT é contar para as novas gerações – e relembrar a outras – o que aconteceu no Brasil desde a luta contra a ditadura até a atual reconstrução de um país destroçado pelo desgoverno genocida e ultraliberal de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Foi esse o roteiro que sua campanha preparou para o ato deste domingo, 16 de agosto, no cenário histórico da Vila Euclides, palco das imensas assembleias dos metalúrgicos nas greves de 1979 e 1980.

O Lula daquele tempo, sindicalista cassado e preso pela ditadura, que a imprensa escrevia Luiz Ignácio da Silva, não é o mesmo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de hoje, à frente de uma das dez maiores economias do mundo. O Brasil também não. Só que Lula não se esquece de onde veio: de um caminhão pau de arara, fugindo da miséria imposta pelo latifúndio ao Nordeste, para viver nas favelas de São Paulo, vender laranjas na rua, engraxar sapatos e depois sentir na carne a exploração do capitalismo sobre a classe operária no coração do país. Nunca esqueceu as misérias e os sonhos de milhões de igual origem. É a memória do retirante comum que faz dele um presidente único.

Lula não decidiu retornar à Vila Euclides para reconstituir sua trajetória pessoal. Esta já tem lugar de destaque na História. Voltou para reconstituir o fio que parte da luta por salários e direito de greve, contra os patrões das multinacionais e sua ditadura, até as vitórias contra a fome e o desemprego e a afirmação de um projeto de país soberano, quase 50 anos depois. Uma trajetória que passa pelas campanhas da Anistia e das Diretas, a organização do PT, da CUT e do MST, os avanços em direitos políticos e sociais na Constituinte, cinco vitórias em eleições presidenciais, com Lula e Dilma. E passa também pelo golpe do impeachment, a prisão ilegal de Lula na farsa da Lava Jato e o retorno na vitória eleitoral de 2022, contra o desgoverno Bolsonaro e sua tentativa de golpe de Estado.

A campanha da reeleição de Lula planeja usar a propaganda de rádio e TV (que começa em 28 de agosto) para destacar a obra de reconstrução do país neste terceiro mandato, o que naturalmente trará de volta a lembrança amarga do passado recente. Para dizer que saímos novamente do Mapa da Fome, será necessário lembrar da fila do osso, por exemplo. É inevitável falar da Farmácia Popular e do fortalecimento do SUS sem recordar o genocídio e o negacionismo na pandemia. Comparações semelhantes serão feitas com o controle da inflação, o preço dos combustíveis, a geração de empregos. A ideia central, sintetizada no lema “O Brasil Pronto pra Mais”, é afirmar que a reorganização das finanças e políticas públicas preparou o país para um salto de desenvolvimento, sob comando de Lula.

O roteiro da Vila Euclides acrescenta dois importantes ingredientes a essa receita básica para uma campanha eleitoral de continuidade. Ao recordar o enfrentamento desigual entre trabalhadores brasileiros e as gigantes multinacionais, virá a lembrança dos helicópteros do Exército sobrevoando ameaçadores a assembleia da Vila Euclides. E a imagem de Lula, naquele momento, conclamando companheiros e companheiras a erguer os braços e cantar o Hino Nacional. É inevitável o salto para os dias de hoje, em que o Lula presidente do Brasil enfrenta as ameaças, sanções, tarifas e intromissões do governo dos EUA na vida nacional.

Inevitável é também o contraste entre o presidente que lidera a reação soberana do Brasil às pressões externas e o antecessor, que, além de ter prestado continência à bandeira dos EUA, quando estava no exercício do cargo, depois conspirou com o estrangeiro para tentar escapar da condenação por seus crimes. Ou com seu filho, que pleiteia a presidência para, confessada e descaradamente, entregar os destinos do país. A mensagem é: quem lutou em defesa dos trabalhadores brasileiros contra a exploração das multinacionais estrangeiras, nas grandes greves de 79 e 80, segue lutando hoje pela soberania nacional e contra os traidores da pátria.

A outra mensagem implícita, neste retorno de Lula e das nossas atenções à Vila Euclides do final dos anos 1970, é sobre o valor da democracia e a ameaça que a eleição de outro presidente de extrema-direita representa. A mesma ditadura que estava a serviço dos patrões, nacionais ou multinacionais, que proibia as greves e a liberdade de organização sindical, era a ditadura que proibia eleições, censurava, torturava e matava. Que perseguiu a Ciência, exilou milhares, fechou duas vezes o Congresso e mandou embora ministros do STF. Que “matou até pouca gente”, segundo Jair Bolsonaro. E que pode voltar, se depender dele, de sua família e de seus cúmplices. Se não aprendermos com a história que a Vila Euclides nos conta.

* Ricardo Amaral é editor especial do Brasil 247 em Brasília

Foto: Partido dos Trabalhadores

Compartilhe:
[1] [2]