Sobre candidatura natural
Desde há tempos quando comecei no jornalismo político ouço falar em candidatura natural. Ou então: ouvir as bases. Ou melhor ainda: o povo quer o meu nome. Parecem frases encomendadas para o momento propício que é a véspera de uma eleição majoritária. Normalmente essas frases de efeito saem da boca daqueles que postulam um cargo majoritário, claro. Até porque para um cargo proporcional não existe isso de candidatura natural, ouvir as bases ou o povo quer. Se o cidadão deseja sair candidato a deputado – estadual ou federal – ou a vereador só depende dele e da grana disponível para gastar. Mas no caso da majoritária os políticos costumam usar essas frases de efeito quando a gente sabe que quem postula o cargo está louco de desejo para ser o escolhido.
É natural na política-partidária as legendas disputarem o poder. Qual o partido político que não almeja chegar ao poder? Quem tem a chave do cofre é quem manda na política seja ela regional ou nacional. Dizer que quem detém o poder e não quer permanecer com ele é balela. Portanto, essa história de candidatura natural, por exemplo, como os políticos alegam quando pleiteiam um cargo de governador por seu partido, ainda mais quando ele está no poder, sem querer ser redundante, é perfeitamente normal. É o caso do vice-governador Iberê Ferreira de Souza (PSB) no Rio Grande do Norte.
Por outro lado, tanto os deputados João Maia (PR-RN) como Fábio Faria (PMN), presidente da Assembléia Legislativa, que também pleiteiam o cargo com o apoio da governadora Wilma, por serem presidentes de suas legendas, também é perfeitamente natural suas candidaturas ao governo. E, agora, o ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves que virou presidente estadual do PDT. A sua postulação é natural. É um direito que o seu partido tem de apresentar candidato.
A diferença entre os quatro postulantes é que além de Iberê pertencer ao partido que está no comando do governo sentará na cadeira de governador a partir de março, quando a titular deixar o cargo para disputar uma cadeira no Senado. E todos sabem que no comando do governo Iberê estará com a caneta e a chave do cofre na mão. Não sei se a caneta e o cofre estarão cheios até lá, mas é fato que estará no comando do processo sucessório. E Iberê quer porque quer ser o candidato. Acho difícil abrir mão dessa postulação. É como uma criança cheia de vontade. Quando pegar o brinquedo não vai querer mais soltar. Mas também Robinson e João Maia estão na briga. O mais flexível é Carlos Eduardo Alves que se contenta com uma candidatura de deputado.
Estou cético se essa equação que o pacto da Unidade Potiguar está querendo montar para tirar um nome de consenso entre os quatro postulantes trará resultados satisfatórios para o sistema governista. Acho que haverá fraturas. O deputado Fábio Faria (PMN-RN), filho do deputado Robinson Faria, certa vez declarou não descartar uma terceira via nas eleições de 2010 no Rio Grande do Norte. O seu pai, como ele já disse, é candidato natural do seu partido. E aí havendo um racha no sistema político a qual pertence certamente levará seu projeto adiante, ou seja, de ser candidato a governador com apoio de outras legendas insatisfeitas com o rumo do processo.
Daí, essa história de candidatura natural se quiserem todos partidos têm. Até mesmo o PMDB que tem o senador Garibaldi Alves (RN) como preferencial a reeleição pode lançar um candidato natural. Seja ele próprio [Garibaldi] ou o deputado Henrique Eduardo Alves (RN), os maiores expoentes do partido no estado. Então, sendo assim, o melhor mesmo seria se pensar num consenso – que está difícil de acontecer – ao invés do velho e cansado discurso pra boi dormir de candidatura natural.