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Editorial

A classe média cansou de pão e circo

Ontem ocupei este espaço para dizer em Editorial que o MPL (Movimento Passe Livre) que propõe tarifa zero no transporte coletivo poderia está sendo deturpado e que isso me preocupava, sobretudo, quando políticos usam as redes sociais e até blogs para fazer comentários sobre o assunto deixando claro que querem transformar o movimento num movimento político-partidário. E isso não é bom. Pode levar o país a instabilidade. De certa forma o meu pensamento procede. Contudo faço aqui um mea culpa quanto ao aspecto geral que o movimento tomou.

Na verdade o MPL representa a classe média deste país, a classe pensante que cansou de pão e circo e agora vai as ruas protestar contra a violência, a impunidade, a malversação do dinheiro público, a má qualidade da escola pública, o descaso com a saúde e principalmente contra o descaramento da classe política. A leitura que faço é que a classe média pegou carona no movimento criado por jovens estudantes e está indo as ruas para dar o seu racado aos políticos independente de cor partidária. O próprio PSTU que levou suas bandeiras para as ruas está sendo vaiado. O protesto, meu amigo, é geral.

Prova do que estou dizendo é que hoje o Globo afirma em reportagem que, além dos estudantes, que deram início ao movimento, muitos pais aderiram. A psicanalista Sandra Landim, de 47 anos, por exemplo, estava com a filha Joana, de 13, aluna do 7º ano do ensino fundamental. Era a primeira vez da adolescente num protesto.

Também no Globo outro sintoma de descontentamento: – um pouco acanhado, um garoto de 15 anos estava com a mãe, uma psicanalista, orgulhosa de ver o filho ter saído da frente do computador para ir às ruas. Zelosa, foi junto.

– Não é só o ônibus. É a corrupção. É o gasto absurdo com estádios que só servirão a turistas enquanto faltam hospitais – disparou o menino sob olhar embevecido da mãe.
É como diz aquela letra da música “Comida” do Titãs:

A gente não quer só comida

A gente quer comida

Diversão e arte

A gente não quer só comida

A gente quer saída

Para qualquer parte…

As manifestações têm se tornado grandiosas e plurais. Ainda hoje, logo pela manhã, vi uma senhora de seus 70 anos de idade sendo entrevistada na Band sobre a sua participação no movimento. A classe pensante deste país não aguenta mais ver  tanta corrupção e impunidade, os cachoeiras da vida em liberdade, o descaso com os aposentados, a educação um caos, a saúde na UTI, a insegurança tomando conta das cidades com o cidadão ficando refém da bandidagem, e a inércia da classe política que nada faz para melhorar a vida de quem paga seus impostos. Somado a isso tudo o brasileiro que tem a “pátria nas chuteiras” está vendo que o país perdeu a soberania quando a Fifa manda e desmanda para aqui realizar dois eventos esportivos que só vão encher os cofres da já milionária federação, falo da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de Futebol.

Pode até parecer coincidência, mas os protestos começaram a aflorar às vésperas da Copa das Confederações, onde o ingresso mais barato custa a bagatela de 150 dólares, ou 300 reais. Que país é este que se investe R$ 400 milhões e até R$ 800 milhões para construir e reformar estádios de futebol e os hospitais públicos estão sucateados e a escola pública caindo aos pedaços, conforme disse na semana passada uma mãe de aluno de São José de Mipibú, interior do Rio Grande do Norte, que afirmou que em dia de chuva seus três filhos têm que assistir aula sob um guarda-chuva porque as salas de aula da escola onde eles estudam tem goteiras. A senhora clamou por socorro!

Isso me preocupa porque os movimentos sociais, que são legítimos, podem levar o país a uma instabilidade social. Mas isso não é culpa da sociedade. É culpa e tão somente culpa dos políticos. Sou contra o vandalismo que alguns insistem em protagonizar e também contra a truculência da Polícia, mas o que se observa é uma convulsão social que está tomando conta do Brasil porque a classe política empurra com a barriga reformas que se fazem urgentes e que não acontecem.

 

 

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