Golpe, que golpe?
De quinta-feira pra cá, dia em que o país viu mais de um milhão de pessoas irem as ruas em um protesto plural e apartidário clamando contra a corrupção, a impunidade, a violência, o descaso com o dinheiro público, a má qualidade do ensino e contra o caos na saúde, li e escutei as mais diversas leituras sobre o ocorrido. Das observações feitas uma delas me chamou a atenção. A de que o povo nas ruas significa uma tentativa de golpe contra a presidenta Dilma Ruosseff. Acusaram até a Globo por isso.
O jornalista Paulo Henrique Amorim, a quem admiro e costumo ler abusou da criatividade e noticiou em seu blog, o ConversaAfiada, uma nota sobre o assunto sob o sugestivo título “Globo derruba grade. É o golpe!” e um subtítulo “Cobertura da Globo, na tevê aberta, é um incitamento à derrubada da Dilma, à força”. Ora, PHA sabe muito bem que jornalismo se faz baseado em fatos. O que ocorreu no Brasil na quinta-feira foi um fato não só local, mas que teve repercussão na mídia mundial. O jornalismo da Globo não é o exemplo de jornalismo que se pode seguir, mas daí acusá-la de tentativa de golpe contra o governo é querer abusar da nossa inteligência.
Agora o ConversaAfiada publica outro post sob o título, também sugestivo: “Até onde Dilma vai ceder?”, acompanhado do sub-título “Quem mandou não denunciar a manhã Golpista?”. PHA se refere a carta aberta do Movimento Passe Livre São Paulo endereçada à presidenta Dilma. Clique aqui [1] para ler o conteúdo. Ora,ora,ora, O MPL só quis dizer à presidenta que mobilidade urbana é um direito, não mercadoria, assim como são tantas outras reivindicações que o Brasil está fazendo como o direito a uma educação e a uma saúde de qualidade, o direito a segurança, o direito a boa aplicação dos recursos públicos. Isso é querer dar um golpe?
Me surpreendeu também algumas leituras feitas nas redes sociais. Nessas, então, encontrei coisas absurdas. Fato é que não há clima pra isso, pra se temer um golpe. Primeiro que se trata de manifestações apartidárias, plural e sem lideranças. Como se imaginar um golpe sem líderes ou líder. As imaginações são tão férteis que pelo fato do movimento não permitir a exploração das reivindicações por partidos políticos, se compara ao nazismo de Hitler e ao fascismo de Mussolini, quando se sabe que o nazismo, conhecido oficialmente na Alemanha como nacional-socialismo era a idelogia praticada pelo Partido Nazista da Alemanha e o Fascismo foi uma forma de radicalismo político autoritário nacionalista surgido na Itália. Portanto, as comparações com os movimentos de protestos hoje no Brasil são absurdas e descabidas.
Outra: como pode ser uma tentativa de golpe contra a presidenta Dilma Ruosseff se o PT tem participado das manifestações de rua? Aliás, quem falou isso foi o próprio presidente do partido, Rui Falcão.E mais: na quinta-feira quando o prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad, e o governador tucano do estado de SP, Geraldo Alckmin, revogaram o aumento das passagens de ônibus, metrô e trens, Falcão foi o primeiro a dizer que o que estava em jogo não eram os R$ 0,20, apenas. “É mais complexo e envolve todos os entes federados, disse. E completou: “está em curso um PAC da Mobilidade, com R$ 33 bilhões. A desoneração do PIS e do Cofins e nas folhas”.
Portanto, caro leitor, quem enxerga nos protestos de rua que vêm acontecendo no país uma tentativa de golpe de Estado está vendo chifre em cabeça de cavalo. E digo mais: não se pode mais dizer que o jovem de hoje é alienado, que só escuta Michel Telo ou Latino ao invés de apreciar Chico Buarque e Caetano Veloso. Também pensava assim, Mas depois do 20 de junho, confesso, mudei de ideia. A juventude hoje cobra os seus direitos. Em 1964 a luta era contra a ditadura militar. Nos dias atuais é pelos direitos sociais e pela moralização na política. A juventude brasileira mais uma vez fez história. O resto é conversa pra boi dormir!